Buzinada irritante

R. Amadeu Kreutz (13/02/2010)

Calçada bem larga junto à  parede lateral de um mercado, na avenida principal da cidade. Espaço favorável para estacionar de frente. Próximo à  esquina da rua de acesso ao mercado, duas pistas da avenida separadas por tachões. Uma seta sobre o asfalto indica o lugar, no centro da avenida, em que se deve aguardar o acesso à  rua da esquerda, na qual se encontra a entrada do mercado.

Já com as mercadorias no carro, faço um ré em curva para entrar, em sentido correto, na pista livre da avenida. No mesmo instante, sem eu perceber, uma camioneta Corcel II, vinda da pista contrária, passa sobre os tachões que dividem as pistas e entra buzinando no estacionamento, logo atrás do meu carro. Se eu não freasse bruscamente, teria batido na lateral esquerda da camioneta invasora.

Interpretando que o motorista, com suas buzinadas, estava se achando pleno de razões, deixei o meu carro no mesmo local (pois ali não atrapalharia o trânsito da avenida), desembarquei e fui pedir satisfação:

- Escute, senhor, me pareceu que, com suas buzinadas, queria me dar uma lição de moral. Acho que, neste incidente, a razão está comigo.

- Nada disso. Não viu que eu estava dobrando í  esquerda?

- Eu apenas verifiquei se a minha pista estava livre.

- Então não sabe que, para a gente entrar numa rua, deve verificar todos os lados?

-É claro que sei, mas não me preocupei com a pista contrária, pois de lá só é permitido entrar na outra rua, e não vir direto para este estacionamento.

- Eu deveria ter deixado você bater no meu carro…Vamos chamar a polí­cia!?

- Por mim, pode chamar. Assim, poderemos tirar a dúvida.

Fazendo menção de tirar o celular do bolso e dissimulando não encontrá-lo, meu antagonista continuou:

- É claro que eu podia dobrar e vir direto pra cá. Veja aquela seta no asfalto. É você que está errado. Fui motorista de caminhão e tenho a carteira da categoria mais alta. Viajei por todo o Brasil e nunca dei uma pechada.

- Eu também não. Veja bem: aquela seta indica que você pode entrar na rua da esquerda, e não fazer o contorno para entrar neste estacionamento. Além do mais, o que importa aqui não é a categoria de nossas carteiras de motorista. O que importa é a observância das leis de trânsito. E eu acho que estou com a razão.

- Eu não acho, mas tenho certeza de que estou com razão.

- Se é assim, vamos nos informar melhor. De minha parte, vou procurar informações corretas sobre o caso.

- Assim, vai ficar sabendo que não pode entrar numa rua sem olhar para todos os lados e vai me dar razão.

- Isso não preciso mais aprender. Só quero me informar quem, neste caso especí­fico, acontecido neste local e nestas circunstâncias, esteve com a razão.

O motorista, um tanto exaltado, foi caminhando na direção da entrada do mercado. Eu, igualmente irritado, ainda pedi o seu nome. Para surpresa minha, ele não me negou essa informação.

Ao embarcar novamente no carro, minha esposa, calma e carinhosamente me falou que, num caso desses, é melhor engolir em seco e ir embora, sem questionar quem está com a razão. Intimamente, fiquei então pensando: De fato, a razão não está com “ele”, mas também não está comigo… Na verdade, está com a minha esposa.

Ao chegar em casa, sem me conter, recorri à  lista telefônica local para saber se o meu antagonista não tinha me fornecido um nome qualquer. Acabei tendo outra surpresa: lá estava o nome dele, com telefone e endereço.

E agora, o que fazer para eu sair desta enrascada?

Artigo incluído por Romeu Eduardo Kreutz em 9.março.2010 • 
Assunto: Pessoal

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Gramática em função do texto

Roque Amadeu Kreutz

Apresentação

Esta proposta metodológica – Gramática em função do texto – nasceu de minhas lembranças, um tanto vagas, do método implí­cito na coletânea “Gramática através de textos”, de Magda Soares Guimarães, obra didática difundida nas escolas na década de setenta. Embora me sinta pequeno perante a Profª. Magda e me considere um professor de pouca projeção no meio acadêmico, sinto-me impelido a partilhar algumas experiências profissionais com colegas de ensino e com estudantes de Letras.
Quero deixar claro que as atividades de aprendizagem sugeridas neste caderno não foram produzidas com o objetivo de promover uma aprendizagem sistemática de conteúdos gramaticais. Pelo contrário, pretendem ser meros exemplos de atividades para estudantes e professores, servindo de referência para criar outras atividades voltadas ao uso dos recursos expressivos da lí­ngua portuguesa.
Com esse propósito, dividi o trabalho em duas partes: a primeira, apenas introdutória, situando o(a) estudante/professor(a) no seu contexto teórico-prático; a segunda, mais longa e mais importante, exemplificando atividades voltadas ao aperfeiçoamento de certos aspectos da leitura e da produção textual, ou seja, aspectos relacionados à  gramática. E, para ativar a memória dos que tiverem interesse de criar atividades do tipo aqui exemplificadas, acrescentei um anexo, que contém um rol de atividades possí­veis (embora estejam longe de esgotar o assunto).

1. O contexto do(a) professor(a)

1.1 Experiência profissional…

Nesta seção, apresento uma reflexão crí­tica sobre certas práticas pedagógicas tradicionais do professor de português, bem como uma avaliação da formação recebida em cursos tradicionais de Licenciatura em Letras, buscando aí­ encontrar elementos que possam contribuir para um ensino produtivo da lí­ngua materna. Vou iniciar com fatos por mim vividos ou testemunhados, os quais, com o tempo, se transformaram em objetos de reflexão crí­tica.
Em 1971, na esteira da reforma do ensino de 1º e 2º graus, após um curso de reciclagem promovido pela SEC/RS, adotei entusiasticamente uma nova maneira de ensinar sintaxe a meus alunos. Orgulhoso de meu novo saber, ensinava-lhes que a divisão da oração em sujeito e predicado era coisa do passado, e que essa concepção somente era adotada por professores desatualizados. No momento, depois das descobertas da Lingüí­stica, a oração deveria ser dividida em seus constituintes básicos: “seqüência nominal” e “seqüência verbal”. Desses dois constituintes iniciais deveriam ser desmembrados os demais constituintes, com denominações diferentes das adotadas pela sintaxe tradicional. Toda essa análise poderia ser demonstrada através de uma “árvore” invertida. Era esse tipo de análise, portanto, que os meus alunos deveriam aprender na teoria e na prática.
Ao lado desses conhecimentos de sintaxe, incutia-lhes também as diferentes denominações exigidas por um conteúdo novo: o processo de comunicação. Era este constituí­do de elementos tais como: emissor/codificador, receptor/decodificador, código, mensagem, canal. Sempre que meus alunos conseguiam identificar e denominar corretamente esses elementos, seja em histórias em quadrinhos, seja em textos literários, julgava-me um vitorioso, um professor bem sucedido, um professor que cumpria o seu dever e correspondia às expectativas das autoridades educacionais.
É claro que, mais tarde, percebi a minha ilusão, constatando que, infelizmente, não era um bom professor. As minhas aulas, muito embora recheadas de “novos” conhecimentos, da mesma forma do que em tempos idos, quando eram recheadas de velhos conteúdos gramaticais, pouco ou nada contribuí­am para aperfeiçoar habilidades dos alunos no uso da lí­ngua. Não havia uma correlação entre falar, ouvir, ler e escrever produtivamente e as notas que os alunos conseguiam em provas ou exames. Nem sequer os conteúdos referentes ao processo de comunicação eram produtivos, visto que se limitavam a identificar e denominar os elementos desse processo, ignorando a sua funcionalidade ou importí¢ncia para a leitura e redação.
Se o leitor pensa que as ondas de entusiasmo por novidades mal assimiladas são coisas de um passado remoto, pode estar enganado. Ainda em 1993, quando realizava uma atividade de extensão numa escola de 1º grau, uma colega questionou minha proposta de redimensionamento de conteúdos tradicionais para um ensino produtivo da lí­ngua materna. “Aqui – disse ela – já não nos preocupamos mais com conteúdos gramaticais; adotamos o ensino da lí­ngua através da leitura.” Dialogando com essa professora sobre a sua prática pedagógica, constatei que se fundamentava somente em conhecimentos intuitivos de leitura, desconhecendo totalmente importantes fundamentos teóricos do estudo do texto. Assuntos como Teoria da Enunciação, Lingüí­stica Textual, Análise do Discurso, entre outras, eram totalmente estranhas para ela. Seguia, entretanto, um princí­pio pedagógico divulgado às pressas e com viés por autoridades pedagógicas regionais. Em conseqüência, abandonara totalmente o ensino da Gramática Tradicional, convicta de que esta nada mais tinha a contribuir para a leitura e a redação.
Por outro lado, no meu percurso profissional, também já fui testemunho de fatos que traduzem posições situadas no extremo oposto. Recordo aqui um deles, que presenciei no final da década de oitenta. Uma colega de trabalho de 2º grau, ao discutirmos a viabilidade de juntar a “redação” e a “lí­ngua portuguesa” numa só disciplina curricular (a exemplo da prática pedagógica adotada pela maioria das escolas), ameaçou não desenvolver a redação em suas aulas, caso houvesse essa fusão, alegando que não poderia prejudicar o ensino da Gramática… Acredito que exemplos desse dogmatismo “gramatiquês” ainda hoje podem ser encontrados em algumas escolas.
Por certo, todas essas situações têm origem no tipo de formação promovida pelos cursos de magistério e de licenciatura em letras. Significativo, nesse sentido, é outro fato: Em 1987, ao colaborar com um curso de especialização em lí­ngua portuguesa numa cidade da campanha (RS), ministrei uma disciplina voltada à  produção textual. É claro que uma das atividades exigidas para avaliar o desempenho dos cursistas nessa disciplina teria de ser a produção de um texto. Entretanto, qual não foi a minha surpresa quando sofri uma forte contestação em relação a tal exigência. Algumas alunas-colegas até mesmo foram tomadas de um certo pavor. O depoimento de uma delas evidenciou uma situação realmente calamitosa: “Fiz Faculdade de Letras e já estou lecionando há quinze anos, mas nunca precisei escrever um texto.”
Isso, no entanto, não significa que hoje devamos jogar pedras contra os professores responsáveis pela nossa formação. Assim como a nossa práxis, também a deles foi condicionada historicamente. Por isso, em vez de nos limitarmos a formular denúncias, muitas vezes panfletárias, cabe-nos buscar soluções para atenuar os problemas. Portanto, tendo em conta o tipo de formação profissional recebido por grande parte dos colegas (exemplificado pelas situações e os fatos acima relatados), cabe-nos buscar respostas para o seguinte questionamento básico: De que modo o saber adquirido em nossos cursos de formação profissional poderia contribuir para um ensino mais produtivo da lí­ngua materna?
A análise desse problema certamente precisa ser precedida pela escolha de um critério de avaliação crí­tica do saber adquirido em nossos cursos. É com esse propósito que opto pelo critério utilidade do saber acadêmico para a nossa prática profissional. Com base nesse critério, proponho uma reflexão sobre os conhecimentos adquiridos na faculdade, na esperança de descobrir de que maneira esses conhecimentos podem contribuir para otimizar o uso da lí­ngua em situações de interação verbal e de que maneira podem nos servir para orientar/avaliar o uso adequado da lí­ngua por nossos alunos.
Analisando sucintamente a grade curricular de um curso de Licenciatura em Lí­ngua Portuguesa e respectivas Literaturas caracterizada como “conservadora”, podemos constatar que
a) os diferentes segmentos de Lí­ngua Portuguesa (I, II…VIII) abrangem, além do estudo do léxico, o estudo de uma gramática geralmente normativa, embora com algumas incursões na Lingüí­stica, exigidas para atenuar contradições teóricas;
b) os diferentes segmentos da Lingüí­stica vão somando partes de um todo conhecido como gramática descritiva, constituindo referencial teórico para pesquisas que visem a descrever uma lí­ngua ou variedade lingüí­stica em suas dimensões fonológica, morfológica e sintática;
c) os diferentes segmentos do Latim e da Filologia formam um quadro conceitual para explicar certas transformações diacrônicas, bem como a etimologia do Português e/ou de outras lí­nguas neolatinas;
d) os diferentes segmentos de Literatura compreendem fundamentação teórica e atividades práticas para a leitura e análise de textos literários;
e) a parte do currí­culo que constitui a área da formação pedagógica abrange conhecimentos teórico-práticos sobre o desenvolvimento e o modo de ser do homem (aluno), privilegiando aspectos que se relacionam à  eficácia do processo ensino-aprendizagem.
Nessa rápida análise de currí­culo já estão embutidas algumas avaliações, as quais deixam transparecer a utilidade de variados componentes curriculares para a prática profissional do professor de Português. Por exemplo, para que o professor consiga caracterizar a variedade lingüí­stica de seus alunos, pode recorrer a seus conhecimentos de gramática descritiva, aprendidos na Lingüí­stica (tradicional). Somente assim sentir-se-á seguro para identificar dificuldades de desempenho de seus alunos na variedade padrão e sugerir-lhes atividades adequadas para a sua superação. Da mesma forma, a teoria e as atividades práticas desenvolvidas na área da Literatura poderão servir-lhe de guia para promover a aprendizagem da leitura/interpretação de textos literários e, em certos casos, para esclarecer o sentido de textos não literários. Ao lado disso, poderá recorrer a seus conhecimentos de Latim, Filologia e Morfologia do Português para promover reflexões e inferências de sentido de palavras que ocorrem nas atividades de leitura. Somam-se a tudo isso os seus conhecimentos adquiridos nas matérias pedagógicas (Psicologia, Sociologia, Filosofia, Metodologia, Práticas de Ensino, etc.) que o orientarão para identificar fatores biopsicossociais que bloqueiam ou desencadeiam a aprendizagem de seus alunos.
Entretanto, na formação profissional do professor também se encontram componentes curriculares cuja função prática não se manifesta com tanta clareza. Refiro-me especialmente à  área de Lí­ngua Portuguesa, apresentada na letra “a”. Influenciados por uma concepção tradicional de ensino de Português, muitos professores de 1º e 2º graus parecem acreditar que seus alunos estão aprendendo a variedade padrão da lí­ngua quando, além de memorizarem o significado literal de um grande número de palavras, sabem classificar fatos fonológicos e morfossintáticos de estruturas lingüí­sticas modelares, bem como as regras que comandam a respectiva estruturação. Em outras palavras, acreditam que o aluno precisa conhecer a anatomia da variedade padrão da lí­ngua para usá-la corretamente quando dela precisar.
Essa crença, na área profissional da saúde, por exemplo, seria considerada um verdadeiro absurdo. Imagine-se um médico que, depois de ter consultado um paciente e diagnosticado o seu problema, se esmerasse em incutir-lhe toda uma nomenclatura técnica, exigindo que o doente soubesse fazer uma série de classificações e memorizasse princí­pios de funcionamento do órgão afetado, acreditando que assim o estaria curando.
Todavia, o médico precisa de seus conhecimentos técnicos para acertar o diagnóstico e prescrever dietas, atividades fí­sicas ou medicamentos que solucionem o problema do paciente. Além disso, seu trabalho a favor da saúde se tornará mais produtivo se recorrer a uma reflexão conjunta com seu paciente sobre o funcionamento do órgão afetado e se destacar o inter-relacionamento desse órgão com outros órgãos e com o organismo todo. Assim estará ajudando o paciente a prevenir problemas futuros.
De modo análogo, os conhecimentos da gramática descritiva (Lingüí­stica) e os do léxico e da Gramática Normativa, adquiridos no curso de formação profissional do professor de Português, podem ser úteis para orientar eficazmente o processo de aprendizagem do aluno. Orientado por seus conhecimentos de Lingüí­stica, o professor poderá inferir regras que os alunos usam para se comunicarem em sua variedade lingüí­stica materna; orientado pela Gramática Normativa, conseguirá avaliar diferentes desempenhos lingüí­sticos na variedade padrão; e, mediante a comparação de todos esses dados, obterá subsí­dios para programar atividades que habilitem os alunos a usar eficazmente a variedade padrão em situações em que seu uso é recomendado socialmente.
Cabe-me ressaltar também que, para avaliar eficazmente o desempenho lingüí­stico dos alunos, o professor de lí­ngua materna precisa se orientar por uma teoria gramatical e lexical. Essa teoria, na maioria dos casos, se concretiza na Gramática Normativa e no dicionário. É nesses fundamentos teóricos que o professor se baseia para avaliar o que está de acordo com a variedade padrão e o que não está. Assim, ao “corrigir” um trabalho (um texto) produzido pelo aluno, o professor irá fundamentar-se em seus conhecimentos de ortoepia/ortografia (fonologia), processos de formação de palavras, flexões nominais e verbais, construção de sintagmas ou locuções, diferentes possibilidades de construção de frases (frases nominais, perí­odos simples e compostos dos mais variados tipos, figuras de sintaxe), uso de pronomes e outras classes, etc. etc. Fica, assim, evidenciado um dos usos profissionais da Gramática Normativa e do dicionário.
Um segundo uso desses conhecimentos deve, certamente, passar por uma avaliação mais rigorosa. Refiro-me ao uso de práticas pedagógicas constituí­das de experimentos com a linguagem. Podem estes concretizar-se por atividades de reflexão sobre itens gramaticais e lexicais, sempre que estes contribuí­rem para aperfeiçoar o desempenho dos alunos na compreensão/interpretação de textos (orais e escritos); ou por atividades de reconstrução de unidades de sentido que visem a explorar diferentes possibilidades de expressão, bem como os resultados semântico-pragmáticos destas.
Desse princí­pio metodológico genérico, podem ser depreendidas três orientações especí­ficas:
I – Nem todos os conteúdos contidos na Gramática Normativa (ou propostos por programas tradicionais) contribuem para aperfeiçoar a interação verbal dos alunos, ou seja, nem todos melhoram suas habilidades de falar, ouvir, ler e escrever na variedade padrão.
II – De uma prática pedagógica voltada para o uso da linguagem pode ser depreendida uma hierarquia de conteúdos gramaticais, já que uns são mais importantes do que outros para a aprendizagem de interações verbais eficazes.
III – Não existe justificativa plausí­vel para propor a aprendizagem de conteúdos gramaticais que não contribuam para aperfeiçoar o uso da linguagem.
Feitas essas reflexões, proponho aqui algumas considerações:
a) Às vezes não é fácil descobrir a utilidade de certos conteúdos tradicionais. Experimentei essa dificuldade por diversas vezes. Somente em 1994, quando refletia sobre os critérios de divisão dos textos em figurativos e temáticos – tipos textuais sugeridos por Platão e Fiorin (Ática: S. Paulo, 1994) – percebi que as noções de substantivo concreto e abstrato são importantes para evidenciar nuances de sentido em textos figurativos e temáticos, respectivamente.
b) De acordo com as reflexões anteriormente apresentadas, mesmo os conhecimentos adquiridos numa formação profissional conservadora podem ser transformados em conhecimentos úteis para um ensino produtivo da lí­ngua. Basta que os redimensionemos, explorando suas contribuições para elucidar melhor os sentidos de textos orais ou escritos, ou usando-os como recursos para produzir textos eficazes em nossa prática social. Entretanto, esses conhecimentos não são suficientes; por isso devem ser complementados por teoria(s) que aborde(m) a linguagem como interação verbal (Teoria da Enunciação, Lingüí­stica Textual, Análise do Discurso, etc.).
c) Numa prática pedagógica interativa, o conhecimento é construí­do com a participação efetiva dos alunos. Portanto, o professor não apresenta verdades absolutas, mas problemas a serem discutidos dialogicamente até que se encontrem soluções plausí­veis, mesmo que essas soluções devam ser buscadas em livros…

1.2 Recém formado…

Diploma: Licenciado em Letras – Formado na faculdade para ser professor de Português de alunos de 1º e 2º graus. E agora, José?
Geralmente, os novos professores de Português saem da faculdade recheados de teorias: Saussure, Jakobson, Chomsky, Ducrot, Pêcheux… Ao lado dessas teorias, possuem algumas habilidades práticas: sabem fazer classificações fonético-fonológicas, morfológicas, sintáticas, semânticas, pragmáticas. E, se têm sorte, mesmo que não saibam elaborar, pelo menos sabem resolver atividades de leitura e produção de textos.
Assim preparados, vão para uma escola. Lá encontram os programas da disciplina já prontos e colegas “experientes” no ensino de Português; experiência que, não raro, se reduz ao ensino da Gramática, isto é, ao ensino da metalinguagem. Sem condições de promoverem uma aprendizagem mais eficaz do que a adotada pelos colegas, os novatos se adaptam ao sistema, entrando no cí­rculo de sua eterna reprodução. Ou seja, adotam uma prática docente que consiste em “explicar/ensinar sistematicamente as regras da gramática tradicional para exigir sua aplicação na escrita”. Nesse contexto, muitos professores de Português (novos e antigos) se “matam” ensinando regras gramaticais e corrigindo exaustivamente erros dos trabalhos escritos de seus alunos. Mesmo assim, os resultados costumam ser desalentadores.
Os fatores responsáveis pela ineficácia do ensino certamente são múltiplos, desde a má remuneração profissional até a sobrecarga de aulas e atividades docentes. No entanto, entre os fatores negativos, há também um que pode ser atenuado pela competência profissional: o desenvolvimento de um método eficaz para o ensino da linguagem verbal. Por isso, os métodos tradicionais de ensino da lí­ngua materna, com razão, são denunciados pelos profetas das mudanças, os quais defendem teses tais como: Uma lí­ngua se aprende pela prática; as classificações e as regras gramaticais pouco ou nada contribuem para o uso da lí­ngua materna; se a criança aprende a linguagem falada ouvindo e falando, supõe-se que aprenda a linguagem escrita lendo e escrevendo. Segundo essas teses, o ensino da Gramática precisaria ser abolido nas escolas. Deveria ser substituí­do pela leitura/interpretação e produção de textos.
Acontece, porém, que alguns dos defensores desses princí­pios metodológicos gastam toda a sua munição em denunciar problemas. No momento de anunciar soluções, ficam nas generalidades, limitando-se a propor o centramento do ensino em práticas de leitura e atividades de produção textual. E, embutidos nessas soluções genéricas, encontram-se novos problemas, tais como: De que modo ensinar a lí­ngua através da leitura/interpretação e da produção de textos? Que atividades práticas realizar para conseguir resultados eficazes? Será que os conteúdos gramaticais nada têm a ver com essa proposta?
A busca de alternativas para responder a esses e outros questionamentos – repito – certamente começa por uma avaliação da praticidade dos conhecimentos adquiridos na faculdade. Para realizá-la, é preciso, antes de tudo, ativar o espí­rito crí­tico, separando, nas diferentes teorias, o joio do trigo, até mesmo para valorizar o trigo da Gramática Tradicional; além do mais, é preciso ativar o espí­rito inventivo para transformar em prática os pontos teóricos que são relevantes para a aprendizagem e o aperfeiçoamento do uso da linguagem.
Nesse sentido, creio que seria bem mais produtivo inverter a prática pedagógica tradicional. Segundo me parece, os alunos deveriam aprender não tanto a classificação, mas, sobretudo, o uso de mecanismos expressivos da lí­ngua. Deveriam, isso sim, internalizar regras gramaticais e lexicais pela prática, iniciando essa aprendizagem de forma assistemática, através de atividades de uso da linguagem em situações reais ou simuladas de interação verbal (vinculadas a uma prática social). Entre essas atividades, inclui-se também a reconstrução textual e frasal (reescritura).
Deve ficar claro, porém, que a realização de exercí­cios assistemáticos, voltados para uso da lí­ngua, não dispensa o professor de português de conhecimentos sistemáticos, já que deles precisa para diagnosticar problemas de desempenho dos alunos, bem como para selecionar e/ou criar atividades de aprendizagem. Ou seja, um professor competente precisa também da metalinguagem, para apropriar-se de princí­pios e regras que subjazem ao uso da Lí­ngua Portuguesa Padrão e de outras variedades. Só assim poderá programar atividades de aprendizagem condizentes com as necessidades de seus alunos.
Em outras palavras, ao propor uma nova proposta metodológica, não estou afirmando que, para os alunos de ní­veis escolares mais adiantados (ensino médio ou superior), o ensino sistemático da gramática não seja proveitoso, sobretudo se for realizado em função da leitura e da produção de textos. Segundo FRANCHI (1988), um bom ensino de Português deveria ser realizado por ní­veis ou graus de dificuldade e abstração. Para isso, o mesmo autor sugere atividades lingüí­sticas num primeiro ní­vel, seguidas de atividades epilingüí­sticas e finalizadas por atividades metalingüí­sticas. Em estudo de sua autoria publicado, em 1988, pela Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, sob o tí­tulo “Criatividade e Gramática”, Franchi explica esses ní­veis:

“Atividade lingüí­stica é nada mais que o exercí­cio pleno, circunstanciado, intencionado e com intenções significativas da própria linguagem. Ela já se dá, obviamente, nas circunstâncias cotidianas da comunicação no âmbito da famí­lia e da comunidade de nossos alunos. E somente pode reproduzir-se, na escola, se esta se tornar espaço de rica interação social que, mais do que mera simulação de ambientes de comunicação, pressuponha o diálogo, a conversa, a permuta, a contradição, o apoio recí­proco, a constituição como interlocutores reais do professor e seus alunos e dos alunos entre si. Em outras palavras, há que se criarem condições para o exercí­cio do ’saber lingüí­stico’ das crianças, dessa ‘gramática’ que interiorizaram no intercâmbio verbal com os adultos e seus colegas.” (FRANCHI, 1988, p.35).

Ao explicar as atividades epilingüí­sticas, o mesmo autor assim se expressa:

“Trata-se de levar os alunos desde cedo a diversificar os recursos expressivos com que fala e escreve (sic) e a operar sobre sua própria linguagem, praticando a diversidade dos fatos gramaticais de sua lí­ngua. É aí­ que começa uma prática ou a intensificação de uma prática que começa na aquisição da linguagem, quando a criança se exercita na construção de objetos lingüí­sticos mais complexos e faz hipóteses de trabalho relativas à  estrutura de sua lí­ngua. Chamamos de atividade epilingüí­stica a essa prática que opera sobre a própria linguagem, compara as expressões, transforma-as, experimenta novos modos de construção canônicos ou não, brinca com a linguagem, investe as formas lingüí­sticas de novas significações.” (Ibidem, p. 36.)

As atividades metalingüí­sticas, que traduzem o terceiro conceito dessa escala, referem-se à denominação, classificação e sistematização dos fatos lingüí­sticos à luz de uma teoria gramatical. Em outras palavras, as atividades metalingüí­sticas são realizadas pelos estudantes para provarem seu conhecimento sistemático e classificatório dos fatos de uma lí­ngua (bem ao estilo do ensino tradicional da gramática).
Como se vê, o ensino da metalinguagem não está sendo banido, mas está sendo colocado no lugar que deve ocupar numa escala de valores no processo pedagógico. Além do mais, o ensino da metalinguagem somente se justifica em função do uso, que deve atingir tanto o pólo do receptor (leitor) quanto o pólo de emissor (autor).
Depois de realizar uma crí­tica preliminar sobre a utilidade dos conteúdos lingüí­sticos para a recepção e produção textual, cabe ao professor estabelecer prioridades para o seu trabalho pedagógico. Entre os diferentes conteúdos listados, deverá escolher os mais relevantes, isto é, os que poderão contribuir mais efetivamente para o aperfeiçoamento da leitura/interpretação e da produção de textos (escritos e orais). Isso, porém, não deve implicar o abandono de conteúdos menos relevantes, sobretudo se estes forem pré-requisitos numa escala progressiva de aprendizagem.
Em sintonia com essa linha de raciocí­nio, está a orientação metodológica implí­cita nas atividades sugeridas neste caderno. Entretanto, antes da execução de atividades do tipo a seguir exemplificadas, o texto deve ser lido despretensiosamente, para ser “curtido” pelo leitor. Só assim o texto cumprirá a sua função primordial: a de ser lido por alguém interessado no assunto. Somente depois desse processo de fruição da leitura se justificam outras atividades, voltadas à aprendizagem do uso produtivo da lí­ngua, entre as quais atividades semelhantes í s sugeridas nas lições apresentadas.

2. Exemplificação de atividades de aprendizagem

Na exemplificação desta proposta metodológica – Gramática em função do texto – proponho atividades que visam especificamente a exercitar o uso de variados recursos da lí­ngua materna escrita. Com o objetivo de sugerir uma aprendizagem eficaz de alguns aspectos da leitura e da redação, não privilegio as classificações gramaticais envolvidas nessas operações. Fique claro, porém, que se trata apenas de uma entre outras alternativas metodológicas possí­veis, centrada predominantemente em atividades de reconstrução textual e frasal.
O primeiro e mais elementar objetivo do ensino produtivo da lí­ngua materna é criar ambientes lingüí­sticos favoráveis à aprendizagem espontânea da gramática da lí­ngua portuguesa escrita. O segundo objetivo, já mais pretensioso, indispensável para séries mais adiantadas, é refletir sobre as diferenças de sentido conotativo, retórico, pragmático… de duas ou mais construções de sentido denotativo equivalente. Com isso, o aluno aprenderá a selecionar adequadamente recursos expressivos de sua lí­ngua para produzir textos que alcancem os objetivos por ele pretendidos.
A exemplificação desta proposta didática inicia com textos e atividades bem simples. Gradualmente, porém, apresenta atividades mais complexas para, no final, introduzir atividades que já pressupõem conhecimentos metalingüí­sticos. As lições iniciais (de I a XVI) contêm, além das atividades, reflexões teóricas e a explicitação dos objetivos didáticos das atividades exemplificadas. Nas lições finais, essas partes são omitidas, com base no pressuposto de que o(a) estudante/professor(a) já tenha aprendido a realizar sozinho tarefas idênticas, devendo, então descobrir os fundamentos teóricos e os objetivos implí­citos nas diferentes atividades.

I – O sapo

Ao passar perto do rio, o sapo ouviu dois patos conversando. O pato mais velho dizia:
? Sabe, amigo, amanhã vai haver uma grande festa no palácio. Esta festa será em homenagem ao sapo.
? Ao sapo? Que fez o sapo para merecer tal homenagem? – perguntou o outro.
O pato velho explicou:
? O sapo é amigo de todos. Ele come os bichinhos terrí­veis que destroem as plantações.
Ao ouvir tais palavras, o sapo ficou muito contente e voltou para casa.

(Adaptado de MALBA TAHAN. Paca-Tatu… Rio, Ed. Conquista. Apud: MORAES, Lí­dia Maria de; ANDRADE, Mariana. Mundo Mágico: primeiro grau – Livro 1. 6 ed., São Paulo: ítica, 1985. p. 15)

ATIVIDADES

(Alerta: Não esquecer a orientação metodológica sugerida no final da primeira parte: (a) Antes de mais nada, o aluno deverá ler despretensiosamente o texto para “curti-lo”. (b) Depois, o professor, através de atividades tradicionais de leitura compreensiva (já conhecidas pelos professores), poderá fazer perguntas para motivar os alunos a ajudarem a esclarecer o sentido explí­cito do texto. (c) Somente numa terceira etapa se justificam atividades semelhantes í s sugeridas nestas lições.)

1. Em vez de dizer “Ao passar perto do rio,” (linha 1) também se pode dizer: _______________
2. Em vez de dizer “amanhã vai haver uma grande festa”, também se pode dizer: ____________
3. Em vez de colocar “perguntou o outro” no final da frase dita pelo pato mais novo, essa explicação também poderia ser colocada, ou antes, e no meio da frase. Nesse caso, tudo junto ficaria assim: ____________________________.
4. Em vez de “Ao ouvir tais palavras” (na última frase), também se poderia dizer: ___________

REFLEXíƒO (para o/a professor/a)

Para realizar as atividades aqui sugeridas, é preciso que o aluno saiba se comunicar em português e tenha certa fluência na leitura de textos simples, de modo que possa captar o sentido destes, pelo menos em ní­vel superficial (ou explí­cito).

OBJETIVOS:

Questões 1 e 4: aprender estruturas oracionais equivalentes que expressam tempo: “Ao passar perto do rio” = “Quando passava perto do rio.” Ou: “Passando perto do rio.”…
Questão 2: perceber que a locução verbal “vai haver”, muito usada na linguagem falada, equivale a “haverᔝ, mais usada na linguagem escrita.
Questão 3: aprender as várias maneiras com as quais o autor pode introduzir ou referir o discurso direto no texto.

II – O grão de milho

Uma galinha achou um grão de milho.
? Quem quer plantar este grão de milho?
? Eu não quero! ? disse o galo.
? Eu também não! – disse o pato.
Então a galinha resolveu plantar o grão de milho.
O tempo passou. O pé de milho cresceu e deu bonitas espigas.
A galinha procurou seus amigos e perguntou:
? Quem quer colher as espiguinhas?
? Eu não quero! ? disse o galo.
? Eu também não! – disse o pato.
A galinha colheu as espigas e debulhou o milho. Ninguém quis ajudá-la. Fez tudo sozinha.
Então a galinha perguntou:
? Quem quer comer o milho?
? Eu quero! ? disse o galo.
? Eu também quero! – disse o pato.
A galinha comeu sozinha todos os grãos de milho.
O galo e o pato ficaram olhando muito sem graça.

(Adaptado do folclore. Apud: MORAES, Lí­dia Maria de; ANDRADE, Mariana. Mundo Mágico: primeiro grau – Livro 1. 6 ed., São Paulo: ítica, 1985. p. 27)

ATIVIDADES

1. Procure um lugar no texto em que você pode acrescentar a seguinte explicação: “Em seguida, olhando para os companheiros, ela perguntou:”
2. Para o texto ficar um pouco mais bonito, em alguns lugares você pode substituir a palavra “disse” por ________________.
3. Procure um lugar no texto em que se poderia colocar a palavra “novamente”.
4. Com uma ou duas palavrinhas, ligue as duas frases seguintes: “Ninguém quis ajudá-la. ________________ fez tudo sozinha.”

REFLEXíƒO

í‰ através de atividades que o aluno pode aprender que o texto é um todo organizado: Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar. Essa organização ajuda a entender o todo; por isso, mesmo que certas coisas não sejam ditas, podem ser inferidas.

OBJETIVOS:

Atividades 1, 3 e 4: esclarecer ligações entre partes do texto e preencher “vazios” ou “entrelinhas” que o autor omite, esperando que o leitor saiba preenchê-los.(O exercí­cio faz com que o leitor tome consciência da leitura das entrelinhas e aprenda a usar os recursos da lí­ngua que poderiam estar nesses “vazios”.)
Atividade 2: compreender melhor a interação verbal (diálogo): a uma pergunta segue uma resposta; portanto, em vez de “disse”, o autor poderia ter usado “respondeu”.

III – Era uma vez uma fada

Era uma vez uma fada
Que um passarinho comprou,
Numa bonita gaiola,
E perto dele ficou
Durante horas e horas,
Seu doce canto a escutar;
Depois, abriu a gaiola
Para deixá-lo voar…
(ROSE FYLEMAN. Em: O mundo da criança. Rio, Ed. Delta. v. 1. (Adaptado por M.L. Figueiredo). Apud: MORAES, Lí­dia Maria de; ANDRADE, Mariana. Mundo Mágico: primeiro grau – Livro 1. 6 ed., São Paulo: ítica, 1985. p. 39)

ATIVIDADE
Transforme a poesia em prosa. Para isso, copie o mesmo texto mudando apenas a ordem das palavras nas frases.

REFLEXíƒO

As formas dos textos se fundamentam, sobremaneira, sobre seus objetivos: Textos que têm o objetivo de divertir ou comover as pessoas são diferentes de textos que têm o objetivo de relatar fatos realmente acontecidos ou dar explicações sobre fenômenos do mundo/universo. (Reflexão complementar: Funções da linguagem…)

OBJETIVO:
- tomar consciência das formas dos textos em verso e em prosa; perceber que, na linguagem escrita, a ordem das palavras e expressões não é rí­gida, mesmo que a gramática imponha limites.

IV – A onça e a raposa

A onça caiu num buraco e quebrou a perna. Ela não podia caçar e começou a passar fome.
A onça teve, então, uma idéia:
? Comadre arara, vá í  floresta e fale para os animais que estou doente e que venham visitar-me.
A arara foi e deu o recado.
Os animais, então, começaram a sair para visitar a onça. Foi a cegonha, foi a capivara, foi a cutia, foi o jabuti, foi o lobo e foi a anta. A raposa foi por último.
A raposa chegou lá e viu o rastro de todos os animais. Mas o rastro era só de entrada. De saí­da, não viu nenhum rastro. A raposa disse:
? Ah! Então, é fácil entrar. Mas sair, ninguém saiu. Não sou boba, não.
A raposa foi embora e avisou todos os animais.

(LíšCIA CASASANTA. As mais belas histórias. Belo Horizonte, Ed. do Brasil, 1974, 2º livro. Apud: MORAES, Lí­dia Maria de; ANDRADE, Mariana. Mundo Mágico: primeiro grau – Livro 1. 6 ed., São Paulo: ítica, 1985. p. 56)

ATIVIDADES
1. Use as seguintes explicações no começo da história, colocando-as no lugar certo: Certo dia… Por isso…
2. Escreva a terceira frase do texto várias vezes, trocando a palavrinha “então” de lugar (sem que a frase fique errada).
3. Complete: A arara foi e deu o seguinte recado:
? _________________________________
4. Preste atenção ao sentido da seguinte frase: “Os animais, então, começaram a sair para visitar a onça.” Copie esta frase, mas substitua uma das palavras pela expressão “com a finalidade de”, sem mudar o sentido.
5. A palavrinha “foi” está repetida seis vezes numa mesma frase. Essa repetição não é necessária se você substituir “foi” por _________
6. Quase no fim da história está escrito. “A raposa disse:” Para quem foi que ela disse? ___________________. Portanto, a palavra “disse” poderia ser substituí­da por _____________.

REFLEXíƒO

Num texto, cada palavra, cada oração, cada perí­odo ou frase nominal, cada parte (por menor ou maior que seja) só adquire sentido se tiver ligação com outra unidade de sentido do mesmo texto. Se tais ligações forem claras para todos, não será preciso recorrer a recursos lingüí­sticos para expressá-las. Entretanto, se assim não for, é preciso saber explicitá-las eficazmente. (í€s vezes o professor foge dessa responsabilidade, estimulando os alunos a escreverem textos com frases curtas, nas quais possam ser dispensados os elementos de ligação…).

OBJETIVOS:

Atividade 1: aprender a usar elementos de ligação entre partes ou proposições do texto.
Atividade 2: explorar as diferentes colocações possí­veis de um adjunto adverbial.
Atividade 3: usar o discurso direto num “vazio” do texto.
Atividade 4: tornar mais explí­cita a relação de finalidade entre duas proposições.
Atividade 5: aprender a usar o verbo no plural quando o sujeito é composto.
Atividade 6: perceber que “falar consigo mesmo” é “pensar”.

V – O desobediente castigado

Fábio falou:
? Mamãe, vou tomar banho frio.
? Não faça isso, meu filho. Você está resfriado.
Mas ele desobedeceu.
í€ noite estava com febre. Felizmente não foi grave, mas passou três dias de cama.
Os primos foram í  sua casa.
As crianças pularam e brincaram no jardim com Bebê, Didi e Totó.
Lá ficou ele, trancado no quarto, com os olhos cheios de lágrimas.
O desobediente é sempre castigado.

(LIMA, Branca Alves de. Caminho Suave: 1º Livro. 16 ed., São Paulo: Ed. Caminho Suave; Rio: Fundação Nacional de Material Escolar, 1979. p. 58.

ATIVIDADES

1. Complete: Fábio falou para a mãe que ________________________________________.
2. Complete: “í€ noite, ______ estava com febre.”
3. Mude a ordem das palavras: “Lá ficou ele…”: ___________________________________
4. Faça de conta que a primeira frase da história seja assim: “Fábio perguntou:” Agora, escreva a segunda frase de tal jeito que combine com esse começo.
5. Para esse começo diferente, complete: Fábio perguntou para a mãe se _______________________
6. Sublinhe duas idéias do texto que não fazem parte da história. São opiniões de quem conta o fato.

REFLEXíƒO

“Quem conta um conto acrescenta um ponto.” Além disso, quem conta costuma emitir a sua opinião, o seu julgamento moral sobre os fatos que conta. Por isso, é preciso aprender a separar os fatos dos julgamentos desses fatos (e, num ní­vel mais profundo de leitura, a descobrir o viés dos fatos narrados e resgatar fatos omitidos).

OBJETIVOS:

Questões 1 e 5: familiarizar-se com a estrutura do discurso indireto.
Questão 2: tomar consciência da elipse e aprender a preenchê-la.
Questão 3: transformar a ordem inversa em ordem direta.
Questão 4: perceber a diferença existente entre duas atitudes, manifestadas por atos de fala distintos: declaração e pedido (de autorização).
Questão 6: discriminar diferentes atitudes de quem conta um fato (atitudes da autora).

VI – Os três porquinhos

Era uma vez três porquinhos.
O primeiro viu um monte de palhas e com elas fez sua casa. í€ noite veio um lobo feroz. Soprou tanto que a palha se espalhou e ele comeu o infeliz.
O segundo encontrou uns paus e com eles fez sua casa. Veio o lobo, soprou, soprou. Os paus caí­ram e ele devorou o animalzinho.
O terceiro porquinho era esperto. Viu uns tijolos e com eles fez sua casa. Veio a fera, soprou, soprou, mas dessa vez a casa não caiu.
Muito zangado, o lobo foi-se embora e o porquinho viveu em paz.

(LIMA, Branca Alves de. Caminho Suave: 1º Livro. 16 ed., São Paulo: Ed. Caminho Suave; Rio: Fundação Nacional de Material Escolar, 1979. p. 93.

ATIVIDADES

1. Dê um nome para cada porquinho. Depois, leia a história dizendo (ou escrevendo) os nomes dos porquinhos nos lugares certos.
2. Em vez de dizer “Soprou tanto que a palha se espalhou…”, também dá para dizer: A palha da casinha se espalhou porque _________________
3. Em vez de repetir “soprou, soprou…”, também dá para dizer ______________
4. Circule todas as palavras ou expressões do texto que designam o lobo.
5. No texto, a palavra “animalzinho” designa _________________________
6. A história está contada no passado. Escreva-a no presente e, depois, sublinhe todas as palavras que você mudou.

REFLEXí•ES

1. Para que um texto seja “claro” para o leitor, é preciso que este facilmente descubra as palavras ou expressões que remetem a uma mesma referência (a um mesmo personagem, a um mesmo fato ou fenômeno, a um mesmo tema). Para construir uma referência, o escritor recorre a recursos gramaticais e lexicais, como o uso de nomes próprios, a repetição, a sinoní­mia, a hiperoní­mia (substituição lexical por palavras de sentido mais amplo), a substituição por pronomes, a elipse, etc. Tudo isso pode ser aprendido por atividades de leitura e produção textual bem planejadas.
2. Os fatos de uma história geralmente são contados como se realmente tivessem acontecido no passado. Assim, os verbos que os designam são usados no pretérito. Entretanto, o contador da história também pode optar pelo chamado “presente histórico”. Nesse caso, ele estará usando uma “metáfora temporal”, o que produz um efeito de sentido de envolvimento pessoal com o que se conta. De acordo com a Lingüí­stica Textual, poderí­amos dizer que, ao usar o presente histórico, o contador da história transforma o mundo narrado em mundo comentado.

OBJETIVOS:

Atividades 1, 4 e 5: identificar os mesmos referentes de um texto; associar os nomes próprios a referentes textuais.
Atividade 2: familiarizar-se com estruturas frasais que expressam a relação causa-conseqüência.
Atividade 3: realizar operações de intensificação (pela repetição e pelo uso de um advérbio de intensidade).
Atividade 6: usar diferentes tempos e modos verbais, avaliando seus efeitos de sentido.

VII – TERCEIRA LIí‡íƒO

Lena Jaci

Sob uma velha mangueira, já cansada de tanto dar manguinhas, “Seu” Zeca esticara uma enorme cobra toda cheia de manchinhas pretas e brancas. Ele a matara, ainda há pouco, lá no canavial.
Dona Telica convidou seus alunos para irem até lá. Estudariam o réptil, vendo-o bem de pertinho.
Penuginha era uma patinha medrosa e começou a chorar… Não queria ver aquele animal tão feio.
Dona Telica permitiu que ela ficasse na classe, pedindo-lhe que varresse o chão e espanasse as carteiras.
Penuginha tirou o lencinho do bolso, enxugou as lágrimas e sorriu. Dona Telica acariciou as penas crespinhas de Penuginha.
Lá fora, a turma já estava em fila, esperando o momento da partida.

(JACI, Lena. Gente Nova: Comunicação e Expressão – 2a série. 44 ed., São Paulo: Ed. do Brasil S/A; Rio de Janeiro: Fundação Nacional de Material Escolar do, 1979. p. 20)

ATIVIDADES

1. Para designar o bicho que Zeca matou, Lena Jaci usa as palavras “cobra”, “réptil” e “animal”.
a) Faça uma listinha de animais que não foram mortos por Zeca.
b) Faça uma listinha de répteis que não foram mortos por Zeca.
c) Diga uma espécie de cobra que não foi morta por Zeca.
2. Pense na atividade que você fez e responda: No mundo em que vivemos, o conjunto de ____________ é maior do que o conjunto de ____________. E o conjunto de ___________ é maior do que o conjunto de ___________.
3. Observe a frase: “Ele a matara, ainda há pouco, lá no canavial.” Agora responda:
a) A palavrinha “a” está no lugar de ________________.
b) A expressão “há pouco” significa _________________.
4. Observe a frase: “Estudariam o réptil, vendo-o bem de pertinho.”
Responda: O segundo “o” está no lugar de _________________.
5. Lena Jaci disse três vezes “Dona Telica”. Na segunda ou terceira vez ela poderia ter dito _____________.

REFLEXíƒO: Retomar a reflexão 1, apresentada na lição anterior.

OBJETIVOS:

Atividades 1 e 2: avaliar o significado e aprender o uso de palavras de menor ou maior extensão referencial.
Atividades 3 e 4: identificar recursos gramaticais (pronomes) pelos quais se pode retomar referentes já mencionados no texto.
Atividade 5: aprender recursos lexicais para expressar o mesmo referente, ou seja, usar palavras de sentido mais amplo (professora) em lugar de palavras de sentido mais especí­fico (D. Telica).

VIII – O GIGANTE GUILHERME

ATIVIDADES

Você quer conhecer uma história engraçada? Então coloque em ordem as partes dessa história. Para isso, numere cada parte na ordem em que deve ficar.

( ) Quando assim pensava, seu cachorrinho latiu. O rei bateu na testa e disse:
? Achei! Achei! O Gigante vai desenrolar o rabinho do meu cão. Quero-o bem esticadinho.

( ) Dias depois o gigante já conseguira transportar todas as montanhas para perto do lago. Mudar a direção dos rios. Construir muitas pontes e edifí­cios. Organizar todos os jardins. Colecionar passarinhos do mundo inteiro.

( ) O Gigante começou a tarefa e nunca pôde terminá-la… Ele desenrolava o rabinho e o rabinho se enrolava de novo. Desenrolava. Enrolava. Desenrolava. Enrolava…

( ) O Gigante Guilherme era tão grande, que não pôde entrar no palácio. O rei conseguiu conversar com ele, subindo na torre da igreja.

( ) Era uma vez um rei muito poderoso. Ele queria que o seu reino fosse o mais importante e o mais bonito do mundo.

( ) E agora? Não havia mais trabalho para o gigante!… Que fazer???
O soberano estava preocupado. Que outra tarefa daria a Guilherme?

( ) Por isso ele mandou buscar o Gigante Guilherme que trabalhava com muita rapidez e sabia fazer tudo.

( ) O Gigante disse:
? Majestade, quero que saiba que eu não posso ficar sem trabalho. Se isso acontecer, destruirei os seus homens e todos os seus bens.
? Ah! fique tranqüilo – disse o rei. Aqui terá muito o que fazer.

ATIVIDADES (continuação)

Compare agora a ordem que você deu aos fatos da história com as que o autor deu a eles.

O GIGANTE GUILHERME

Lena Jaci
Era uma vez um rei muito poderoso. Ele queria que o seu reino fosse o mais importante e o mais bonito do mundo. Por isso ele mandou buscar o Gigante Guilherme que trabalhava com muita rapidez e sabia fazer tudo.
O Gigante Guilherme era tão grande, que não pôde entrar no palácio. O rei conseguiu conversar com ele, subindo na torre da igreja.
O Gigante disse:
? Majestade, quero que saiba que eu não posso ficar sem trabalho. Se isso acontecer, destruirei os seus homens e todos os seus bens.
? Ah! fique tranqüilo – disse o rei. Aqui terá muito o que fazer.
Dias depois o gigante já conseguira transportar todas as montanhas para perto do lago. Mudar a direção dos rios. Construir muitas pontes e edifí­cios. Organizar todos os jardins. Colecionar passarinhos do mundo inteiro.
E agora? Não havia mais trabalho para o gigante!… Que fazer???
O soberano estava preocupado. Que outra tarefa daria a Guilherme? Quando assim pensava, seu cachorinho latiu. O rei bateu na testa e disse:
? Achei! Achei! O Gigante vai desenrolar o rabinho do meu cão. Quero-o bem esticadinho.
O Gigante começou a tarefa e nunca pôde terminá-la… Ele desenrolava o rabinho e o rabinho se enrolava de novo. Desenrolava. Enrolava. Desenrolava. Enrolava…

(JACI, Lena. Gente Nova: Comunicação e Expressão – 2a série. 44 ed., São Paulo: Ed. do Brasil S/A; Rio de Janeiro: Fundação Nacional de Material Escolar do, 1979. p. 34-35)

ATIVIDADES (continuação)

Sublinhe as palavras e expressões do texto que ajudaram a você a descobrir a ordem dos fatos.

REFLEXíƒO: Retomar as reflexões das lições II e IV.

OBJETIVOS:

- usar a ordem cronológica em texto narrativo;
- identificar recursos da lí­ngua que expressam relações temporais.

IX – O PATINHO FEIO
(Adaptação)

D. Pata escondera, na grama fofa, uma boa ninhada de ovos.
Depois de alguns dias, nasceram uma porção de patos bem amarelinhos como ouro. Só um deles era muito feio e diferente dos outros. Por isso os animais da fazenda viviam zombando dele.
Quando ele passava, gritavam:
? Feioso! Feioso!
Como sofria o pobre patinho!
Um dia pegou suas coisas e fugiu do lugar onde morava, levando uma tristeza no coração. As lágrimas, que escapavam de seus olhinhos, iam molhando as suas plumas escuras e faziam brilhar as pedrinhas do caminho.
Lá, bem no coração da floresta, o patinho encontrou uma casinha. Nela viveu muito tempo, separado dos outros animais.
Mas quando o verão chegou, saiu um pouco e foi ao lago onde se banhavam vários cisnes. Estes o cumprimentaram com muita alegria e o convidaram para ficar ali.
O patinho feio ficou muito contente e só neste dia soube que ele era também um belo cisne negro! Um daqueles cisnes que vivem no zoológico e nas estórias de fadas e reis!

(JACI, Lena. Gente Nova: Comunicação e Expressão – 2a série. 44 ed., São Paulo: Ed. do Brasil S/A; Rio de Janeiro: Fundação Nacional de Material Escolar do, 1979. p. 78-79)

ATIVIDADES

1. Copie a primeira frase com uma diferença: mude de lugar a expressão “na grama fofa”.
2. Complete a frase: “Antes de nascerem os patinhos, D. Pata _____________.
3. Observe a frase: Quando ele passava, os animais da fazenda gritavam:
? Feioso! Feioso!
Marque a palavra que poderia estar no lugar de “gritavam”:
( ) perguntavam
( ) exclamavam
( ) mandavam
( ) declaravam
4. Pense na atividade n.º 3 e complete corretamente:
D. Pata ____________: “Como sofre o meu filhinho preto!”
Um dos cisnes __________ para o novo companheiro: “Como é o seu nome?”
5. Em vez de dizer “bem no coração da floresta”, também dá para dizer: _______________.
6. Responda: Já perto do fim da história, a palavra “Estes” está no lugar de _____________.
7. Procure e observe as expressões em negrito (com escrita mais forte) no texto. Algumas indicam “tempo”, outras indicam “lugar”. Separe-as em dois conjuntos.
8. Reproduza toda a história, seguindo as seguintes instruções: (a) Copie as duas primeiras frases assim como estão no texto. (b) Mude a terceira frase para a seguinte versão: “Só eu, um deles, era muito feio e diferente dos outros.” (c) Com essa mudança, você passa a ser o patinho feio que vai contar a sua história. Para isso, copie o restante da história, fazendo os ajustes necessários.

REFLEXí•ES
1. As flexões verbais que ocorrem num texto são indicadores do sentido que o autor quer dar a sua linguagem. Além de situarem fatos no tempo histórico, revelam a sua duração e, sobretudo, a atitude do autor em relação í quilo que diz. Conseqüentemente, o uso inadequado de formas verbais gera equí­vocos ou distorções na comunicação verbal.
2. Quando usamos a linguagem, não só dizemos algo, mas fazemos algo, isso é, agimos sobre os outros e, até, sobre nós mesmos. Descobrir o que alguém faz ao usar a palavra é fundamental para entender ou interpretar a sua fala ou a sua escrita. Os verbos apresentados a seguir designam ações que fazemos com o uso da palavra: perguntar, mandar (ordenar), pedir, suplicar, rogar pragas, queixar-se, vangloriar-se, afirmar, negar, acusar, defender, condenar, absolver, prometer, mentir, insistir, debochar, descrever, narrar/contar, argumentar, expor/explicar, etc.
3. Uma história pode ser contada em terceira ou primeira pessoa, dependendo do “foco narrativo” escolhido pelo contador. Se optar por terceira pessoa, o narrador é uma espécie de deus, que sabe tudo sobre todos os personagens. Se, porém, optar por primeira pessoa, ele assume o papel de um personagem, não podendo, conseqüentemente, saber tudo sobre os demais. Além disso, sob o ponto de vista formal, a narração em terceira ou primeira pessoa implica habilidades de uso adequado de pronomes e flexões verbais.

OBJETIVOS:

Atividade 1: explorar as diferentes colocações possí­veis de um adjunto adverbial.
Atividade 2: perceber em que situação se usa o pretérito mais que perfeito do indicativo.
Atividades 3 e 4: denominar adequadamente os atos de fala (tipos de frase) realizados no texto.
Atividade 5: avaliar as semelhanças e diferenças de sentido entre a linguagem literal e a figurada.
Atividade 6: identificar recursos gramaticais (pronomes) pelos quais se pode retomar referentes já mencionados no texto.
Atividade 7: familiarizar-se com recursos da lí­ngua que expressam “tempo” e “lugar”.
Atividade 8: avaliar as implicações do foco narrativo sobre o texto, inclusive os efeitos de sentido.

X – A raposa e o corvo

Dona Raposa estava com muita fome, e já estava sem comer há dois dias. Ia triste pelo caminho, quando viu o corvo com um queijo dos grandes no bico.
? í‰ agora que eu saio desta! – falou a sabida raposa.
? Seu Corvo, o senhor é dos animais o mais belo! Que lindos pés! Que penas lustrosas! Sua voz deve ser maravilhosa, cante uma canção para mim.
O corvo empinou o peito e, todo envaidecido, abriu o bico para cantar, deixando cair o queijo.
O queijo foi apanhado pela raposa, que fugiu correndo para o mato.
O corvo até hoje pensa que é um belo animal e um grande cantor.

Fábula de Esopo – Adapatação de Luiz G. Cavalcante.
(BELLUCCI, Maria Eugênia; CAVALCANTE, Luiz Gonzaga. Integrando o aprender. 14 ed., São Paulo: Scipione, 1991. p. 10.)

ATIVIDADES

1. Em vez de dizer “há dois dias”, também dá para dizer ________________.
2. Em vez de “um queijo grande”, no texto está escrito ___________________. Da mesma forma, em vez de dizer “uma raposa conversadeira”, o autor poderia ter dito _____________.
3. Para adular o corvo, a raposa exclamou: “Que lindos pés! Que penas lustrosas!” Faça de conta que, em vez de exclamar, a raposa tenha declarado. Nesse caso, as mesmas frases deveriam ser assim: ____________________________________________________________.
4. Complete: A raposa, ao conversar com o corvo, disse que a voz dele devia ser maravilhosa e _____________________________________________.
5. A palavra “envaidecido” pertence í  mesma famí­lia do que as palavras _________________ e __________________.
6. Em vez de dizer “O queijo foi apanhado pela raposa, que fugiu correndo pelo mato.”, também dá para dizer: A raposa ________________________ e _______________________.
7. Nas palavras da raposa, troque a expressão “o senhor” por “tu”, adaptando toda frase ao “tu”.

REFLEXí•ES

1. Embora a análise e os exercí­cios de estruturação do discurso direto e indireto sejam importantes, as atividades de aprendizagem devem voltar-se também para os efeitos de sentido dessas formas de expressão. Por exemplo, enquanto o discurso direto pretende ser a expressão do mundo objetivo (dos fatos), o discurso indireto se caracteriza como reflexo de um mundo subjetivo, que traduz uma versão dos fatos feita pelo narrador. Assim, o discurso direto é uma forma de realizar ou, pelo menos, simular distanciamento dos fatos por parte do narrador; por outro lado, o discurso indireto é uma forma de o narrador assumir responsabilidades com o que narra/relata.
2. A opção por uma voz verbal (Voz Ativa x Passiva) no uso da linguagem não é apenas uma questão de forma. Além de ser um recurso para enfatizar um dos termos da ação verbal (agente ou paciente), pode ser também um recurso para indeterminar (omitir) o agente. Nesse sentido, trata-se de uma tática do falante/escritor para causar efeitos “desejáveis” sobre o ouvinte/leitor.
3. A opção do falante/escritor por um pronome de tratamento (tu, você, o senhor, etc.) implica uma forma de se relacionar com o ouvinte/leitor. Essa relação costuma fundamentar-se numa hierarquia social, construindo-se sobre o papel que cada interlocutor exerce na sociedade. í‰ por isso que a escolha de um pronome de tratamento especí­fico também contribui para esclarecer o sentido de um texto.

OBJETIVOS:

Atividade 1: usar diferentes verbos impessoais que indicam tempo (há = faz).
Atividade 2: usar expressões sinônimas, mas de conotação distinta.
Atividade 3: usar atos de fala (tipos de frase) distintos.
Atividade 4: interpretar corretamente um ato de fala (pedido), expressando-o em discurso indireto e estruturando corretamente a frase.
Atividade 5: descobrir a semelhança de sentido das palavras que tem o mesmo radical.
Atividade 6: expressar os mesmos fatos com outra estrutura frasal e com outro enfoque.
Atividade 7: apreender o sentido (pragmático) do pronome de tratamento, avaliando as conseqüências dessa escolha na construção de uma frase ou de um texto.

XI – O leão e o rato

Nos dias floridos de primavera, todos os bichos da Floresta Encantada saem para passear. Certo domingo, Seu Ratão, Dona Ratinha e seus doze filhinhos saí­ram para colher algumas flores silvestres, quando de repente apareceu um enorme leão. Seu Ratão tremia de medo, mas encheu-se de coragem e pediu:
? Não nos mate, Senhor Leão. Somos tão pequenos e nunca fazemos mal a ninguém.
O leão concordou em deixar a famí­lia Ratão ir embora, porque, afinal, não fica bem o rei dos animais dar uma de gato e andar por aí­ matando ratos.
Logo depois, o leão caiu numa armadilha e quanto mais tentava escapar, mais enroscado ficava. Ao ouvir os urros desesperados do leão, Seu Ratão foi logo acudi-lo e num instante livrou-o da armadilha.
Desse dia em diante, Seu Ratão e o leão tornaram-se amigos. E não há bicho da floresta que não inveje a famí­lia Ratão, que agora só passeia nas costas do leão.

Fábula de Esopo – Adaptação de Luiz G. Cavalcante.
(BELLUCCI, Maria Eugênia; CAVALCANTE, Luiz Gonzaga. Integrando o aprender. 14 ed., São Paulo: Scipione, 1991. p. 91.)

ATIVIDADES

1.Observe bem a terceira frase do texto: “Seu Ratão tremia de medo, mas encheu-se de coragem e pediu:” Em vez de usar a palavrinha “mas”, você vai expressar a mesma idéia usando a palavrinha “embora” ou a expressão “apesar de”. í‰ claro que você vai ter que fazer uns ajustes, até mesmo na ordem das palavras ou expressões. Experimente: ____________________
2. A última palavra da mesma frase é “pediu”. Portanto, para dirigir-se ao leão, Seu Ratão não realizou uma exclamação, nem fez uma pergunta ou uma declaração, nem deu uma ordem, mas fez _____________________.
3. Imagine Seu Ratão, Dona Ratinha e seus doze filhinhos colhendo flores silvestres. Invente uma conversa entre eles em que aparece:
a) uma pergunta:_____________________
b) uma resposta, isto é, uma declaração: _________________________
c) uma ordem:____________________________________
d) uma exclamação: _____________________________
4. Observe a parte em negrito da seguinte frase: “Logo depois, o leão caiu numa armadilha e quanto mais tentava escapar, mais enroscado ficava.” As duas coisas ditas na parte em negrito não só acontecem ao mesmo tempo, mas também progridem ao mesmo tempo. Sabendo isso, você pode ligar outras idéias em que duas coisas acontecem ao mesmo tempo e na mesma proporção, ou em proporção inversa. (Exemplo de proporção inversa: Seu Ratão, quanto mais falava com o leão, menos medo sentia.)
Experimente completar:
a) Quanto mais Paulinho estudava, __________________________________.
b) Quanto menos Mariana trabalhava, ________________________________.
c) í€ medida que José treinava sua caligrafia, ____________________________.
d) Rosa perdia o medo de falar em público, _____________ se apresentava nas aulas de livre-expressão.
5. Observe as seguintes expressões do texto e depois responda: “Nos dias floridos da primavera”…. “Certo domingo”… “Logo depois”… “Desse dia em diante”…
Essas e outras expressões do texto ligam as várias partes da história, expressando idéias de ___________________.

REFLEXíƒO

Identificar/compreender o valor expressivo de palavras ou locuções que estabelecem relações entre idéias ou proposições é fundamental para a aprendizagem da leitura. Da mesma forma, aprender a usar adequadamente esses recursos da linguagem é indispensável para a produção de textos (orais e escritos). Assim como usamos os sinais + (mais), – (menos), x (vezes), : (dividir) para estabelecer relações entre valores aritméticos (números), da mesma forma usamos conetivos ou expressões conectoras para “sinalizar” o tipo de operação que fazemos com idéias ou proposições (faladas ou escritas). Usando os números, podemos realizar quatro operações fundamentais. E, usando idéias, podemos realizar mais de uma dezena de operações… Portanto, é preciso aprendê-las.

OBJETIVOS:

Atividade 1: aprender duas estruturas frasais para expressar idéias que se opõem.
Atividades 2 e 3: denominar corretamente e construir atos de fala distintos.
Atividade 4: usar expressões que, concomitantemente, indicam tempo simultí¢neo e proporcionalidade.
Atividade 5: identificar expressões que indicam seqüência temporal no texto.

XII – A ORIGEM DO GUARANí

A deliciosa bebida brasileira, o guaraná, também tem uma lenda. Ela é contada pelos í­ndios maués, da Amazônia:
Um menino í­ndio muito querido morreu. A tribo entrou em grandes lamentações e, durante horas seguidas, as preces e gritos se espalharam pelas florestas. Tupã atendeu as lamentações e ordenou:
? Tirem os olhos do menino, plantem na terra firme, reguem com as lágrimas e deles nascerá a planta da vida, aquela que fortalecerá as jovens e os velhos.
Assim, tendo cumprido as ordens de Tupã, nasceu o guaraná, que na linguagem indí­gena significa: guará: ser vivo; e ná: parecido.

(NEVES, Déborah Pádua Mello. Português Moderno: comunicação e expressão – 2a. série – São Paulo: IBEP, s/d. p. 39)

ATIVIDADES

1. Marque as afirmações verdadeiras com “V” e as falsas com “F”.
A história do texto “A origem do guaranᔝ apresenta fatos
( ) em que os í­ndios maués acreditam.
( ) em que nós acreditamos.
( ) que de fato aconteceram na Amazônia há muitos e muitos anos atrás.
( ) que, na realidade, nunca aconteceram na Amazônia.
( ) que explicam para nós como uma planta surgiu na terra.
( ) que explicam para os í­ndios maués como uma planta surgiu na terra.
2. Observe como uma palavra pode ser dividida em partes, cada parte com um significado: guará: ser vivo; ná: parecido. Isso também vale para outras palavras do texto. Experimente dividir as palavras abaixo em partes, expressando o que significa cada parte.
a) brasileira: __________________________________________________
b) lamentações: _______________________________________________
c) fortalecerá: _________________________________________________
d) linguagem: _________________________________________________
3. Na segunda frase do texto, a autora diz: “Ela é contada pelos í­ndios maués, da Amazônia.” A palavra “Ela” está no lugar da expressão “a lenda do guaranᔝ. Portanto: A lenda do guaraná é contada pelos í­ndios maués, da Amazônia. Diga a mesma coisa, completando a frase:
Os í­ndios maués, da Amazônia, _______________________.
4. Complete: Tupã deu três ordens para os í­ndios maués, que são:
a) _________________________________
b) _________________________________
c) _________________________________

REFLEXí•ES

1. Para compreender o sentido de textos narrativos não basta classificá-los em narrações objetivas (como as notí­cias) e narrações subjetivas (como os contos, romances, etc.). í‰ preciso considerar também a cultura e as crenças de quem conta os fatos. O que para uns é narração de fatos reais, para outros pode ser mera narração de fatos inventados. Exemplo disso são as lendas indí­genas. Para os í­ndios da respectiva tribo, trata-se de fatos reais. Para nós, trata-se de fatos imaginários. O mesmo se pode afirmar das narrações bí­blicas: para os cristãos, trata-se de fatos reais. Para pessoas não cristãs, trata-se de histórias inventadas pela imaginação dos antepassados.
2. Em nossa lí­ngua, muitas palavras são formadas de unidades significativas menores, chamadas morfemas. Ou seja, há palavras que são formadas mediante a contribuição de vários morfemas, cada qual com um sentido especí­fico. Assim, a significação de uma palavra depende dos morfemas que a constituem e das relações que existem entre esses morfemas.

OBJETIVOS:

Atividade 1:
a) associar “histórias de origem” (lendas, mitos) í  respectiva cultura;
b) vincular o sentido de certos textos a culturas especí­ficas.
Atividade 2: apreender o sentido de certas palavras através da identificação de suas unidades mí­nimas de significação (morfemas).
Atividade 3: expressar o mesmo fato com outra estrutura frasal, passando a frase da Voz Passiva para a Voz Ativa.
Atividade 4: identificar atos de fala que são ordens.

XIII – A cigarra e a formiga

A cigarra é uma grande cantora e passou o verão todo cantando lindas canções no alto de uma árvore. Ficava o dia inteiro cantando e olhando as formigas trabalharem sem parar.
O verão passou. O inverno chegou.
A cigarra, com frio, fome e tossindo muito, um dia bateu na casa da formiga. A formiga, por uma fresta da porta, perguntou:
? Quem é você? Por que está tão suja e gripada?
? Eu sou a cigarra que mora no alto da árvore, cantei o verão todinho e agora não tenho comida, nem casa para me abrigar do vento e do frio.
? Puxa vida! Então era você que ficava alegrando nossas vidas enquanto trabalhávamos? – disse a formiga.
? Sim, era eu mesma – disse, chorando, a cigarra.
? Então, querida amiga, fique morando aqui até o tempo ficar bom.
A cigarra sarou e continuou a cantar, alegrando a vida de toda a bicharada da floresta.

Fábula de Esopo – Adaptação de Luiz G. Cavalcante.
(BELLUCCI, Maria Eugênia; CAVALCANTE, Luiz Gonzaga. Integrando o aprender. 14 ed., São Paulo: Scipione, 1991. p. 5O.)

ATIVIDADES

1. A estória “A cigarra e formiga” é diferente da fábula de Esopo. Luiz G. Cavalcante mudou-a, dizendo que a formiga teve pena da cigarra.
Leia também a fábula “A cigarra e a formiga” do jeito como foi contada por Esopo. Talvez você a encontre num livro da biblioteca da Escola.
2. Depois de ler as duas estórias, complete:
a) Esopo contou a fábula contra a _____ e a favor da ________. Portanto, ele elogiou ______ e acusou ______________. Com sua fábula, Esopo quer nos ensinar que ____________.
b) Luiz G. Cavalcante contou a mesma estória defendendo a ______ porque _____. Com essa alteração da fábula, ele quer nos ensinar que _________________.
3. Complete: Uma fábula é uma estória inventada em que os personagens, geralmente, são ______. A fábula não é uma história para divertir a gente, mas para ______.
4. Escreva o nome de mais duas fábulas que você já leu. Diga também o nome de quem as inventou. ____________.
5. Coloque um X diante da frase que mais se afasta do sentido principal da primeira frase do texto:
( ) A cigarra é uma ótima cantora que passou o verão todo cantando belas canções no alto de uma árvore.
( ) A cigarra passou o verão todo cantando lindas canções no alto de uma árvore. Ela é uma cantora muito boa.
( ) A cigarra é um bichinho que realmente sabe cantar. Passou o verão todo cantando lindas canções no alto de uma árvore.
( ) A cigarra é uma grande cantora, mas, em vez de trabalhar, passou o verão todo cantando lindas canções no alto de uma árvore.
( ) Cantando lindas canções no alto de uma árvore, a cigarra passou todo o verão. í‰ uma cantora de mão-cheia.
6. Agora é a sua vez de escrever uma frase, sem se afastar de seu sentido principal. Faça isso com a segunda frase do texto, escrevendo duas versões: ______________________.
7. Em algumas frases da história de Luiz G. Cavalcante, certas palavras ou expressões podem ser colocadas em ordem diferente. Sublinhe duas frases que ficam mais fáceis de serem entendidas se as palavras ou expressões forem colocadas em outra ordem. Depois, escreva-as nessa ordem mais simples.

REFLEXí•ES

1. As histórias declaradamente inventadas (contos, novelas, romances, fábulas, parábolas) podem ter diferentes objetivos. Nem todas são criadas para serem mero passa-tempo de leitores ou ouvintes. Pelo contrário, muitas histórias, sorrateira ou explicitamente, constituem mecanismos de inculcação ideológica, visando í  formação moral dos destinatários. Exemplo explí­cito dessa intencionalidade são as fábulas e os apólogos, cujo objetivo primeiro é persuadir os destinatários a adotarem comportamentos e valores morais “desejáveis”, segundo a visão do autor. Por isso, os personagens, embora apresentados como animais, vegetais ou objetos, se comportam como pessoas.
2. Na lí­ngua portuguesa (assim como em outras lí­nguas) existem diferentes formas para dizer a mesma coisa, embora com ênfases diferentes. No mundo das palavras, existem os sinônimos para enriquecer nossas formas de expressão. E, no mundo das frases e das unidades de sentido maiores do que as frases, existem as paráfrases e, até certo ponto, os resumos. Entretanto, é preciso ter muito cuidado para avaliar se as mudanças feitas por sinônimos ou paráfrases mantêm o sentido básico. Para isso, são necessários conhecimentos de semí¢ntica e de sintaxe.

OBJETIVOS:

Atividades 1, 2, 3 e 4: definir a fábula como uma história inventada para sensibilizar o leitor a aceitar um ensinamento moral e a rejeitar outros ensinamentos; portanto, uma história montada com base nas crenças do autor; uma história em que os personagens são apenas aparentemente animais, já que se comportam como gente.
Atividade 5 e 6: distinguir paráfrases de falsificações do sentido.
Atividade 7: conscientizar-se de que a seqüência dos termos na frase pode facilitar ou dificultar a compreensão.

XIV – O MILHO

Benedita Stahl Sodré

Os diversos cereais, como o arroz, o trigo e a aveia, são alimentos nutritivos.
Do milho nada se perde. Das espigas de milho verde fazemos curau, pamonha e sopas. Também podemos comê-las assadas e cozidas. Com a maisena, que é uma farinha finí­ssima feita do milho verde, fazemos deliciosos mingaus, cremes e bolos. O milho seco constitui um dos principais alimentos para muitos animais.
Aos grãos de milho quebrados damos o nome de quirera e servem de alimento para os pintos. Aos grãos de milho descascados e bem limpos chamamos de canjica. A canjica bem cozida é um alimento ótimo. Reduzindo os grãos de milho a pó teremos o fubá, com que preparamos bolos, broas, polenta, etc.
Com a palha de milho fabricamos cestas e chapéus.

(NEVES, Déborah Pádua Mello. Português Moderno: comunicação e expressão – 2a. série – São Paulo: IBEP, s/d. p. 76)

ATIVIDADES

1. Marque com X a afirmação correta.
O texto “O milho”, escrito por Benedita Stahl Sodré, é
( ) uma estória inventada para divertir os leitores.
( ) uma estória verdadeira que conta a origem do milho.
( ) uma fábula ou estória inventada para transmitir uma lição de vida (um ensinamento).
( ) uma explicação sobre uma coisa que existe de fato, feita para ensinar a alguém que não sabe.
( ) uma explicação sobre como as pessoas devem cultivar o milho.
2. Complete: O milho, assim como o arroz, o trigo e a aveia, pertencem ao conjunto _________________________
3. Pense no significado da seguintes expressões:
“farinha fina, farinha muito fina, farinha finí­ssima”.
Seguindo o mesmo modelo, complete:
a) milho verde, _______________
b) mingaus deliciosos, __________________
c) milho seco, _________________________
d) grãos de milho limpos, ________________
e) alimento bom, _______________________
4. Mude a ordem das palavras ou expressões das frases abaixo, comparando o sentido da nova ordem com o original:
a) “Das espigas de milho verde fazemos curau, pamonha e sopas.”
b) “Com a maisena, que é uma farinha finí­ssima feita do milho verde, fazemos deliciosos mingaus, cremes e bolos.”
c) “Aos grãos de milho descascados e bem limpos chamamos de canjica.”
d) “Com a palha de milho fabricamos cestas e chapéus.”
5. Observe a parte sublinhada da seguinte frase:
“Reduzindo os grãos de milho a pó teremos o fubá, com que preparamos bolos, broas, polenta, etc.”
Complete: Só teremos fubá se ______________________

REFLEXí•ES

1. Dependendo dos objetivos que temos em mente, o texto (falado ou escrito) ou partes dele assumem diferentes formas. í‰ por isso que distinguimos uma explicação cientí­fica da narração de um fato histórico, uma descrição de relevo geográfico da descrição subjetiva de uma paisagem, e assim por diante. Maria Teresa Serafini (SERAFINI, Maria Teresa. Como escrever textos. São Paulo: Globo, 1989) sugere os seguintes “discursos de base” para explicar diferentes formas de expressão verbal: descrição, narração, exposição e argumentação. Segundo a autora, podemos usar um ou mais desses discursos de base num mesmo texto, dependendo dos nossos objetivos. Um professor, por exemplo, usa muito a “exposição” para passar “matéria” a seus alunos. Assim, as crianças desde cedo se defrontam com essa forma de expressão verbal. A sua identificação pode ser um valioso auxiliar na compreensão dos textos.
2. A mera abordagem metalingüí­stica do adjetivo em graus (comparativo e superlativo) não tem grande valor pedagógico. Por outro lado, o estudo do significado desses graus e avaliação de seu uso argumentativo assume importí¢ncia vital para esclarecer o sentido dos textos. Assim, esse estudo, para ser produtivo, sempre deve provocar reflexões sobre o uso dos graus em situações de interação verbal. Convém lembrar, também, que deve iniciar por atividades simples, complementadas por reflexões crí­ticas.

OBJETIVOS:

Atividade 1: identificar a função discursiva de diferentes tipos de texto, destacando a função da exposição didática.
Atividade 2: identificar hiperônimos e hipônimos.
Atividade 3: intensificar qualidades através do grau do adjetivo.
Atividade 4: conscientizar-se que a seqüência dos termos não só facilita ou dificulta a compreensão da frase, mas também influencia o seu sentido.
Atividade 5: usar diferentes estruturas frasais para expressar condição.

XV – A ARCA DE NOí‰

Ruth Rocha (Revista Recreio)
Revisão: Roque Amadeu Kreutz

Esta história é muito, muito antiga. Eu a li num livrão grande do papai, que se chama Bí­blia. í‰ a história de um homem chamado Noé.
Um dia, Deus chamou Noé. E mandou que ele construí­sse um barco bem grande. Não sei por que, mas todo mundo chama esse barco de Arca de Noé.
Deus mandou que ele pusesse dentro do barco um bicho de cada espécie. Um bicho, não. Dois: Um leão e uma leoa… Um macaco e uma macaca… Um caititu e uma caititoa… Quer dizer, caititoa não, que eu nem sei se isso existe.
E veio tudo que foi bicho.

(NEVES, Déborah Pádua Mello. Português Moderno: comunicação e expressão – 2a. série – São Paulo: IBEP, s/d. p. 9)

A T I V I D A D E S

1. Marque com X a resposta certa.
A história “A arca de No锝 conta fatos em que
( ) todos os homens acreditam.
( ) somente os cristãos e judeus acreditam.
2. As história contada é semelhante a
( ) uma lenda indí­gena.
( ) uma fábula.
( ) um fato da História do Brasil.
3. Repare na expressão “livrão grande” da primeira frase. Veja que a palavra “grande” está sobrando, pois a palavra “livrão” já diz que o livro é grande. Primeiro, coloque nos espaços, as palavras que indicam a coisa designada como grande. Depois, você mesmo pode continuar a lista.
a) caderno: _________________ e)_______________
b) mesa: ____________________ f) _______________
c) cadeira: _________________ g) _______________
d) casa: ____________________ h) _______________
4. Repare, agora, na palavra “calção”. Será que indica “calça grande”?
Continue a lista abaixo acrescentando nela outras palavras que parecem indicar coisa grande, mas que apenas designam coisas diferentes das palavras-mãe (isto é, das palavras que lhes dão origem).
a) “cartão” (que vem de “carta”);
b) “sabichão” (diferente de “sabidão”; as duas palavras vem de “saber”);
c) “roupão” (que vem de “roupa”);
d) “fogão” (que vem de “fogo”);
____________________________________________________________________
5. Em vez de dizer “muito, muito antiga” também dá para dizer _______________.
6. Complete: Um dia, Deus chamou Noé e lhe ordenou:
? _________________________
Quando a arca estava pronta, Deus novamente mandou:
? _________________________
7. O personagem que narra a história teve uma dúvida: não sabia como chamar a fêmea do caititu. Para resolver esse problema, ele poderia ter dito: “Um caititu macho e um caititu fêmea.”
Denomine as fêmeas dos seguintes animais:
a) boi: ________________¬_; b) cavalo: _________________________
c) galo: ________________; d) lagarto: ________________________
e) elefante: _____________; f) pato: ___________________________
8. Aquele que contou os fatos da história “A arca de No锝 se tratou por “eu”. Troque o “eu” da história por “Paulinho”. Depois, copie as frases que devem ser mudadas, fazendo as adaptações necessárias.

REFLEXí•ES

1. O estudo do grau dos substantivos (assim como o dos adjetivos) somente é importante quando justifica o uso de aumentativos e diminutivos em textos. Faz parte de estudos sobre o sentido contextual das palavras, cujo objetivo principal é fundamentar as escolhas lexicais do autor em função de uma intencionalidade. Por isso, dependendo do contexto, o aumentativo pode não designar “seres grandes”, assim como o diminutivo pode não designar “seres pequenos”. Exemplo disso é o uso de aumentativos e diminutivos em contextos carregados de afetividade ou de ironia. Ao lado disso, é preciso lembrar também que certas palavras só subsistem com sufixo aumentativo (sufixo este que faz parte de sua “natureza”), que nada têm a ver com “coisa grande”.
2. O gênero gramatical dos substantivos não deve ser confundido com sexo. Ou seja, sob o ponto de vista lingüí­stico, é um equí­voco classificar os substantivos em sobrecomuns, comuns de dois gêneros e epicenos (uma vez que essa classificação se fundamenta no sexo dos seres designados, e não nas palavras em si). Entretanto, não é equí­voco ensinar que certas palavras designam seres do sexo masculino de homens ou animais, e outras, seres do sexo feminino. Sob esse ponto de vista, “vaca” não é o gênero feminino de “boi”, mas designa a fêmea-mãe da espécie “gado vacum”. No mesmo contexto, “novilha” designa uma fêmea não-mãe, “boi”, um macho capado, e “touro”, um macho não capado.

OBJETIVOS:

Atividades 1 e 2: – associar “histórias de origem” (lendas, mitos) í  respectiva cultura; situar o sentido de certos textos a culturas especí­ficas.
Atividades 3 e 4: usar corretamente substantivos no grau aumentativo, distinguindo-os de aumentativos aparentes.
Atividade 5: formar o grau superlativo por repetição, pelo uso de intensificador, ou por sufixação.
Atividade 6: comparar a estrutura dos discursos indireto e direto.
Atividade 7: atribuir denominações de acordo com o sexo dos animais.
Atividade 8: avaliar as mudanças de estrutura e de sentido decorrentes do “foco narrativo”.

XVI – As matas protegem o meio ambiente

Nas regiões onde há matas, o clima geralmente é agradável, o ar é puro, existem animais em grande quantidade e a terra não perde a sua fertilidade.
Devemos conservar as matas para proteger o meio ambiente.
O homem tem destruí­do as matas por meio da retirada das árvores e das queimadas.
No lugar das matas o homem faz plantações para colher alimentos e planta capim para criar gado. O homem destrói as matas e não tem cuidado com o solo. Com o tempo, o solo perde a fertilidade e não serve mais para plantações.
Para evitar o empobrecimento da vegetação de uma região, deve-se plantar novas árvores no lugar daquelas que foram arrancadas. O plantio de novas árvores chama-se reflorestamento.

(BELLUCCI, Maria Eugênia; CAVALCANTE, Luiz Gonzaga. Integrando o aprender. 14 ed., São Paulo: Scipione, 1991. p. 203.)

A T I V I D A D E S

1. O texto acima, incluindo o tí­tulo, é formado de 9 frases declarativas. Ao dizer essas frases, o autor realiza as seguintes atividades:
(a) julga as ações dos homens;
(b) determina o que nós, homens, devemos fazer;
(c) explica como são as coisas de nosso mundo.
Leia o texto com muita atenção e, depois, marque com “(a)” as frases que são julgamentos; com “(b)” as frases que determinam deveres; e com “(c)” as que explicam coisas do mundo.
2. Copie o que se pede:
a) uma frase que fala das vantagens de conservar as matas: ____________________________
b) uma frase que fala dos prejuí­zos que o homem causa í  natureza: _____________________
c) uma frase que indica uma solução para o problema apresentado no texto: ______________
3. Em vez de dizer “existem animais em grande quantidade”, pode-se dizer: “existem ___________.
4. A autora do texto escreveu: “No lugar das matas o homem faz plantações…” A expressão “faz plantações” poderia ser substituí­da por apenas uma palavra: ___________.
5. Observe, agora, as duas expressões que vêm depois das palavrinhas “para”: “No lugar das matas o homem faz plantações para colher alimentos e planta capim para criar gado.” Também essas expressões podem ser mudadas sem alterar o sentido. Veja e complete: “No lugar das matas o homem faz plantações para a colheita de alimentos e planta capim para _______________________.
6. Há uma frase em negrito, isto é, uma frase escrita com letras mais fortes dentro do texto. Nela encontra-se uma palavra importante: “Devemos conservar as matas…” Outra frase, quase no final, repete a mesma palavra: “… deve-se plantar novas árvores…”. Essas palavras significam o seguinte:
( ) Quem lê o texto vai conservar as matas e plantar árvores.
( ) Quem escreveu o texto está conservando as matas e plantando árvores.
( ) Todos nós temos a obrigação de conservar as matas e plantar árvores.
( ) Quem planta e cria gado não precisa conservar as matas e plantar árvores.
( ) O governo é o primeiro responsável para conservar as matas e plantar árvores.

REFLEXí•ES

1. Retomar a reflexão nº 2 da lição IX.
2. O estudo dos “tipos de frase” proposto pela Gramática Tradicional pode ser associados a reflexões sobre a teoria dos “atos de fala” (inicialmente estudados por filósofos de Oxford e, mais tarde, incorporados í  Lingüí­stica Textual). Em outras palavras, é mais produtivo discutir o que o falante ou o autor faz ao usar um dos tipos de frase, do que propor aos alunos exercí­cios de classificação de frases. Ou seja, é preciso refletir sobre questões tais como: O que o autor (ou o personagem) fez ao usar “tal” frase declarativa? (“tal” frase interrogativa? “tal” frase imperativa? “tal” frase exclamativa?) Será que fez uma declaração sincera ou foi irônico? Será que, ao usar “tal” frase interrogativa, não acabou fazendo um pedido? O que é que ele fez ao usar “tal” frase imperativa? Será que deu uma ordem? ou fez um pedido? ou fez uma súplica? Que intenção pode estar por trás de “tal” ato de fala em “tal” texto?
3. A elaboração de atividades produtivas (para melhorar a leitura e a produção textual dos alunos) exige preparo teórico do professor. Por exemplo, a elaboração da atividade nº 2 remete aos conceitos de “figuras” e “temas” de Platão e Fiorin (FIORIN, José Luiz et SAVIOLI, Francisco Platão. Para Entender o Texto: Leitura e Redação. São Paulo: ítica, 1990). Já a atividade nº 5 pressupõe conhecimentos não só sobre a estruturação de perí­odos e orações, mas também sobre a formação e o uso de substantivos deverbais. Finalmente, a elaboração da atividade nº 6 pressupõe conhecimentos sobre a “modalização”.

OBJETIVOS:

Atividade 1: explicitar o sentido do texto pelos atos de fala nele realizados.
Atividade 2: traduzir conteúdos concretos em categorias abstratas (isto é, traduzir “figuras” em “temas”).
Atividade 3: usar diferentes alternativas para expressar intensidade.
Atividade 4: condensar uma perí­frase verbal: fazer plantações = plantar.
Atividade 5: transformar formas verbais em nomes, identificando a equivalência de sentido.
Atividade 6: identificar o sentido do verbo modal “dever”.

XVII – 22 de abril – Dia do descobrimento do Brasil

O Brasil foi descoberto pelos portugueses. Eles aqui chegaram com uma esquadra comandada por Pedro ílvares Cabral.
No dia 22 de abril de 1500 os marinheiros avistaram um monte, que chamaram Monte Pascoal, porque era época de Páscoa.
Ao desembarcarem, os portugueses encontraram uma terra cheia de florestas e í­ndios.
No dia 26 de abril foi rezada a primeira missa no Brasil, pelo Frei Henrique Soares de Coimbra.
Pero Vaz de Caminha escreveu uma carta para o rei D. Manuel, de Portugal. A carta contava o descobrimento da nova terra.
A nova terra recebeu os nomes de Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz e Brasil.
O nome Brasil foi dado por causa da madeira cor de brasa, extraí­da de uma árvore chamada pau-brasil, que existia em grande quantidade nas nossas matas.

(BELLUCCI, Maria Eugênia; CAVALCANTE, Luiz Gonzaga. Integrando o aprender. 14 ed., São Paulo: Scipione, 1991. p. 22O.)

ATIVIDADES

1. Marque as afirmações verdadeiras com “V” e as falsas com “F”.
A história do texto “22 de abril – Dia do descobrimento do Brasil” apresenta fatos
( ) em que nós acreditamos.
( ) que realmente aconteceram há muitos e muitos anos atrás.
( ) que foram inventados por Maria Eugênia Bellucci e Luiz Gonzaga Cavalcante.
( ) que explicam para nós como começou a história da nossa pátria.
( ) que explicam para os í­ndios como começou a história de sua gente.

2. Forme os seguintes conjuntos:
a) palavras e expressões que indicam nomes de pessoas: _____________________________
b) palavras e expressões que indicam nomes de lugares: _____________________________
c) palavras e expressões que indicam datas: _______________________________________
3. Observe a transformação feita na frase da letra “a” (abaixo) e, depois, faça a mesma coisa na da letra “b”:
a) “O Brasil foi descoberto pelos portugueses.”:
Os portugueses descobriram o Brasil.
b) “No dia 26 de abril foi rezada a primeira missa no Brasil, pelo Frei Henrique Soares de Coimbra.”:
Frei Henrique Soares de Coimbra ________________________________________
4. Agora vamos fazer o contrário. Observe e faça o mesmo:
a) “Ao desembarcarem, os portugueses encontraram uma terra cheia de florestas e í­ndios.”:
Ao desembarcarem, uma terra cheia de florestas e í­ndios foi encontrada pelos portugueses.
b) “Pero Vaz de Caminha escreveu uma carta para o rei D. Manuel, de Portugal.”:
Uma carta para o rei D. Manuel, de Portugal, _____________________.
5. Depois de estudar o sentido da primeira frase (abaixo), complete as outras frases sem alterar o sentido:
a) “O nome Brasil foi dado por causa da madeira cor de brasa, extraí­da de uma árvore chamada pau-brasil…”
b) O nome Brasil deve-se__________________________
c) O nome Brasil foi dado devido _____________________
d) Por haver __________________________________ foi dado o nome Brasil.
6. A palavra “pau-brasil” é formada de duas outras: “pau” e “Brasil”.
a) Faça uma pequena lista de palavras que você conhece, formadas de duas (ou mais) outras: __________________________________________
b) Agora, escreva de novo as mesmas palavras, mas designando com elas várias coisas do mesmo tipo: Exemplo: paus-brasil. ___________________________________

OBJETIVOS: Desta lição em diante, cabe ao estudioso descobrir os objetivos implí­citos em cada atividade.

XVIII – Agravos í  saúde

A nossa saúde pode ser prejudicada pelas doenças.
Algumas doenças são contagiosas, isto é, passam de uma pessoa para outra. Essas doenças são transmitidas por seres vivos muito pequenos, chamados micróbios.
Como as doenças são transmitidas?
As doenças podem ser transmitidas por contágio direto ou indireto. O contágio direto é feito através do aperto de mão, da tosse, do espirro etc. O contágio indireto é feito através de copos, lenços etc. que usamos depois de terem sido utilizados por pessoas doentes.
A gripe, o sarampo, a caxumba, a tuberculose, a varicela etc. são doenças contagiosas.
Muitas doenças contagiosas podem ser evitadas.
Estes são os cuidados que devemos ter para evitar as doenças contagiosas:
- Tomar todas as vacinas.
- Evitar o contato com pessoas doentes.
- Ter uma alimentação bem saudável.

(BELLUCCI, Maria Eugênia; CAVALCANTE, Luiz Gonzaga. Integrando o aprender. 14 ed., São Paulo: Scipione, 1991. p. 252.)

ATIVIDADES

1. Marque com V as frases que têm o mesmo significado (denotativo) da primeira frase do texto:
( ) A nossa saúde é prejudicada pelas doenças.
( ) í‰ possí­vel que a nossa saúde seja prejudicada pelas doenças.
( ) As doenças podem prejudicar a nossa saúde.
( ) As doenças prejudicam a nossa saúde.

2. No texto aparecem as palavras “contagiosas” e “contágio”. Descubra outra palavra que pertence í  mesma famí­lia: __________________
Também aparece a palavra “utilizados”. Descubra mais duas palavras que pertencem a essa famí­lia: ___________________________________
3. Pense nas mudanças que dá para fazer na seguinte frase (sem alterar o sentido):
“As doenças podem ser transmitidas por contágio direto e indireto.”:
a) As doenças podem ser transmitidas através de contágio direto e indireto.
b) As doenças podem ser transmitidas por meio de contágio direto e indireto.
Agora experimente a mesma coisa, com a seguinte frase:
“O contágio direto é feito através de copos, lenços etc. que usamos depois de terem sido utilizados por pessoas doentes.”
a) ________________________
b) ________________________
4. Consulte o texto e continue escrevendo o que já está começado:
Faça três coisas para você evitar as doenças contagiosas:
- Tome todas as vacinas.
- ____________________________
- ____________________________
5. Alguns nomes de doença terminam em “-ite”, que significa “inflamação”. Por exemplo: bronquite = inflamação dos brônquios. Outros nomes de doença terminam em “-ose”, o que simplesmente significa “doença”. Por exemplo: verminose = doença dos vermes.
Faça uma listinha de doenças que terminam em “-ite”, e outra de doenças que terminam em “-ose”.
a) ____________________
b) ____________________

XIX – A CEIA DOS REIS MAGOS

No dia 31 de dezembro, antes da meia-noite, cubra a mesa com uma toalha branca nova. Sirva então quatro pratos com maçãs – uma para você e uma para cada Rei Mago. Coma a sua maçã e vá comemorar o Ano-Novo normalmente. No dia seguinte, dê uma nota (no valor que você preferir) e uma maçã a uma criança, ofereça a segunda nota e as duas maçãs restantes a um mendigo e deposite a terceira nota na caixa de esmolas de uma igreja. A outra nota deve ficar com você até o final de 1991, quando você a jogará fora ou a usará para comprar mais maçãs, para outra ceia mágica. A partir de 6 de janeiro, Dia dos Reis, você vai começar a perceber mudanças para melhor. (Revista “Destino”, janeiro de 1991 – n.º 18)

ATIVIDADES

1. Reescreva (ou releia) o texto transformando o tratamento do destinatário de “você” para “tu”.
2. Transforme a receita acima em “relato”. Para tanto, faça de conta que você esteja em junho de 1991 e que um tal de “João” tenha realizado todas as operações prescritas para o final de 1990. Não se esqueça de fazer ajustes nos dois últimos perí­odos, garantindo assim a coerência do seu relato.

XX – A VELHA CONTRABANDISTA

A T I V I D A D E S

1. Procure organizar as diferentes partes do texto abaixo (“A velha contrabandista”) colocando-as em ordem cronológica, de modo que voltem a constituir um texto bem construí­do. Para isso, use números nos parênteses.

( ) Durante um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia.
( ) ? Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia com esse saco aí­ atrás. Que diabo a senhora leva nesse saco?
( ) A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco, e dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou í  velhinha que fosse em frente.
( ) Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia ela passava pela fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta. O pessoal da Alfí¢ndega – tudo malandro velho – começou a desconfiar da velhinha.
( ) Diz que foi aí­ que o fiscal se chateou:
? Olha, vovozinha, eu sou fiscal da Alfí¢ndega com 4O anos de serviço. Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.
? Mas o saco só tem areia! – insistiu a velhinha.
( ) Ela montou e foi embora, com o saco de areia atrás. Mas o fiscal ficou desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com areia e no outro com muamba, dentro daquele maldito saco.
( ) Aí­ quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco.
( ) E já ia tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:
? Eu prometo í  senhora que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai me dizer: qual é o contrabando que a senhora está passando por aqui todos os dias?
( ) A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e mais os outros, que ela adquirira no odontólogo, e respondeu:
? í‰ areia!
( ) No dia seguinte, quando ela passou na lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou parar outra vez. Perguntou o que é que levava no saco e ela respondeu que era areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo.
( ) ? O senhor promete que não “espaia”? – quis saber a velhinha.
? Juro – respondeu o fiscal.
? í‰ lambreta.
( ) Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da Alfí¢ndega mandou ela parar. A velhinha parou e então o fiscal perguntou assim para ela:
(Stanislaw Ponte Preta – apud SARGENTIM, Hermí­nio G. Atividades de Comunicação em Lí­ngua Portuguesa – 6a. série, 1º grau. São Paulo: IBEP, s/d. p. 153.)

2. Circule as frases, expressões ou palavras que constituem pistas ou indicadores de organização das partes do texto.
3. No terceiro fragmento do texto, o autor usou discurso indireto. Transforme a respectiva frase em discurso direto.
4. No quarto fragmento. ocorre três vezes a palavra “lambreta”. Reescreva a segunda frase desse fragmento substituindo a palavra “lambreta” por referências equivalentes.
5. O começo do sétimo fragmento é assim constituí­do:
“E já ia tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:
? Eu prometo í  senhora que deixo a senhora passar.”
Mantendo o mesmo sentido denotativo, reescreva esse relato numa só frase e sem o discurso direto.
6. Em várias passagens do texto, o autor usa expressões da linguagem popular (ou registro informal/falado).
a) Cite três expressões desse tipo.
b) Substitua essas expressões por outras equivalentes que fazem parte do registro formal/escrito.

XXI – RESUMO DE NOVELAS (ZERO HORA – O5.O7.92)

Despedida de solteiro
(RBS TV, 18h)

Flávia fica satisfeita por causa dos documentos que Glória lhe entregou. No julgamento do pedido de Sérgio para ficar com a posse de Bibi, Damasceno testemunha que viu Lenita no bordel e que ela também deu acolhida a um foragido. O juiz decide que um assistente social visite as duas casas e faça um relatório sobre os pais. Franco confessa a Paula que foi ao bordel, mas que não aconteceu nada. Nina obriga Mike a ligar para a mãe. Mike fica sabendo que o pai está internado e decide ir embora. Pedro procura Flávia.

ATIVIDADES

1. “No julgamento do pedido de Sérgio para ficar com a posse de Bibi, Damasceno testemunha que viu Lenita no bordel e que ela também deu acolhida a um foragido.”
Substitua o substantivo “julgamento” pelo verbo equivalente, reescrevendo a frase de modo que fique gramaticalmente correta.
2. Passe os verbos do perí­odo abaixo para a Voz Passiva, reconstruindo corretamente o perí­odo: “O juiz decide que um assistente social visite as duas casas e faça um relatório sobre os pais.”
3. Os resumos dos capí­tulos de novelas são publicados no mesmo dia em que, í  noite, são apresentados na TV. Portanto, supõe-se que, os fatos narrados, ao serem lidos no jornal, ainda não aconteceram, pois só deverão acontecer í  noite, isto é, no futuro. Considerando isso, reelabore o resumo acima com o tempo verbal básico no futuro.
4. Agora considere que alguém tenha perdido um capí­tulo da novela de sua preferência. Por isso, no dia seguinte, lê o resumo para saber o que aconteceu. Portanto, nessa situação os fatos já aconteceram, podendo ser contados no passado. Reescreva o texto, usando o passado como tempo fundamental.

XXII -FRAGMENTOS TEXTUAIS EM QUE PREDOMINA A DESCRIí‡íƒO
(Frase verbal x Frase nominal)

Fazia luar no sertão. Um luar claro, em desmaio. Luminoso e total sobre o catingal. Luar de estarrecer. Até os pardos garranchos e os espinhos resplandeciam (…) Incomodados pelo excesso de luz, os répteis deixavam as tocas e, inquietos, com suas escamas de ouro e prata, andavam pelas lajes como tesouros móveis (…) Em plena caatinga, somente esse movimento havia, já que tudo mais parecia morto e enterrado, sob o vasto cemitério da lua (…). Essa era a paisagem naquele lugar que a nada convidava e onde ninguém andava, a não ser o cangaceiro perseguido.
(DANTAS, Paulo. Apud CASTRO, Maria da Conceição. Redação Básica. São Paulo, Saraiva, 1988. p. 85.)

Havia um longo corredor externo, a porta de uma sala, três janelas de venezianas sempre fechadas e, ao fundo, a entrada da sala de jantar, com arabescos e flores nos vidros foscos. (…) Uma sala repleta de móveis sobre o piso de linóleo, móveis pesados, de feitio antigo: o enorme console, a mesa negra, a cristaleira, o relógio de pêndulo, alto como um armário, as poltronas fundas.
(TREVISAN, Hamilton. Apud CASTRO, Maria da Conceição. Redação Básica. São Paulo, Saraiva, 1988. p. 85)

ATIVIDADES

1. Observe: No primeiro fragmento de texto, o autor usa o pretérito imperfeito do indicativo para descrever o ambiente externo em que vai situar fato(s) de sua história. Como esse cenário contém movimento, supõe-se que nunca mais se repita, com os mesmos detalhes. Por isso, a sua descrição no “tempo presente-histórico” seria meio estranha. As mesmas caracterí­sticas, entretanto, não se constatam no segundo fragmento, onde ocorre a descrição de um ambiente interno estático. Por isso,
a) passe a descrição de Hamilton Trevisan para o presente, transformando a segunda frase em frase verbal ;
b) na descrição de Paulo Dantas, transforme, sempre que possí­vel, as frases verbais em frases nominais.
2. Faça uma lista de verbos adequados para descrições (que se referem a estados, situações, posse, etc.)
3. Faça, em duas versões, a descrição de um ambiente (í  sua escolha). Em uma das versões devem predominar as frases nominais; em outra, as frases verbais.

XXIII – Dos que ascendem ao principado pelo crime

Há, porém, ainda, duas maneiras de tornar-se prí­ncipe o homem comum, as quais podem ser inteiramente atribuí­das ou í  sorte ou ao merecimento, e não me parece que deva deixá-las de lado, embora de uma delas se possa mais extensamente falar no lugar em que se discorrer sobre as repúblicas. São elas: quando, por qualquer forma criminosa ou nefanda, se ascende ao principado; e quando, mediante o favor dos concidadãos, torna-se alguém prí­ncipe de sua pátria. Tratando da primeira maneira, darei dois exemplos, um antigo e outro moderno, sem entrar de outra forma no mérito desta parte, porque julgo que eles bastem aos que se virem na necessidade de imitá-los.
Agátocles Siciliano, que era não só homem comum, mas de í­nfima e abjeta condição, tornou-se rei de Siracusa. Filho de um oleiro, viveu criminosamente todas as fases de sua vida; não obstante, fez acompanhar seus crimes de tanta força de í¢nimo e de corpo, que, ingressando na milí­cia, pela sucessão deles chegou a pretor de Siracusa. Elevado a este posto e havendo deliberado tornar-se prí­ncipe e manter com violência e sem dependência de outrem o que lhe fora concedido mediante acordo de todos, sobre este seu projeto entendendo-se com Amí­lcar Cartaginês, que com seus exércitos fazia campanha na Sicí­lia, reuniu uma manhã o povo e o senado de Siracusa, como se tivesse de deliberar coisas pertinentes í  república; e, a um sinal combinado, fez pelos seus soldados matar todos os senadores e os cidadãos mais ricos. Mortos estes, ocupou e manteve o principado daquela cidade sem qualquer oposição civil.
(MAQUIAVEL, N. O prí­ncipe. São Paulo, Cultrix, s.d. p. 69-70. Apud FIORIN, José Luiz e SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. São Paulo: ítica, 1990. p. 213-4)

ATIVIDADES

1. Transforme o tí­tulo do texto em frase nominal.
2. Torne o fragmento de texto acima mais compreensí­vel para o leitor (mais “frio”). Em função desse propósito, mude a colocação dos termos, somente em enunciados de difí­cil leitura.
3. Use o “plural de modéstia” para o enunciador autodenominar-se no texto, fazendo os ajustes necessários.
4. Elimine a presença explí­cita do enunciador, impessoalizando os enunciados do texto original.
5. Explique as mudanças de sentido decorrentes de cada uma das atividades realizadas.

XXIV – TESTEMUNHAS DE VALDIVINO

Dizem que um homem chamado Valdivino atravessava uma mata quando foi assaltado por dois ladrões que tomaram todo dinheiro que conduzia. Depois, resolveram matá-lo para que o roubo ficasse impune. Debalde rogou o assaltado que poupassem sua vida, mas os ladrões riam. Valdivino, erguendo o olhar, viu duas aves que passavam voando. Disse, então:
? Garças, sede as testemunhas de Valdivino!
Os bandidos assassinaram Valdivino e o enterraram.
Anos depois estavam os dois ladrões conversando numa roda de amigos, na cidade próxima. Era pela tarde e duas garças voavam. Um deles, distraidamente, exclamou:
? Lá vão as testemunhas de Valdivino! …
Os amigos que sabiam do desaparecimento de Valdivino, cercaram os dois ladrões de perguntas e eles acabaram confessando o crime. Foram presos e condenados.
(CASCUDO, Luí­s da Cí¢mara. Contos Tradicionais do Brasil. Rio: Edições Ouro, s/d. – Natureza denunciante, p. 419)

ATIVIDADES

1. Responda: Se a expressão “Dizem que” (no começo do texto) fosse cortada, teria
a) mudança no sentido conotativo do texto? ( ) Sim. ( ) Não. Justifique: _______________
b) ajustes na estrutura da primeira frase? ( ) Sim. ( ) Não. Justifique: __________________
2. Na segunda frase, substitua “para que” por “a fim de” (que estabelece a mesma relação entre as idéias), fazendo os ajustes necessários.
3. Na terceira frase, substitua o verbo “riam” por “zombavam”, fazendo ajustes se houver necessidade.
4. O enunciado “Os bandidos assassinaram Valdivino e o enterraram.” contém duas proposições, entre as quais existe uma relação de tempo: primeiro aconteceu um fato e, depois, outro. Mantendo a mesma relação, reescreva o enunciado começando-o assim: Os bandidos, depois de _____________________.
5. Para esclarecer melhor a relação existente entre proposições do último enunciado do texto, em lugar do conetivo “e” poderia estar _____________.

XXV – A CAUSA DAS SECAS NO CEARí

Em priscas eras, os cearenses malquistaram-se com o Bom Jesus. Resolveram então expulsá-lo do Ceará. Para esse fim, prepararam uma jangada e nela puseram o Santo com os mantimentos que julgaram necessários para a longa travessia que, a seu juí­zo, ia o mesmo empreender. Desfraldaram a vela da embarcação e impeliram o Santo para o mar a fora, rumo a Portugal, donde procedera.
O Bom Jesus, na agoniada viagem, já muito distante das praias cearenses, “entre o mar e o céu”, sentiu sede. Por esquecimento, ou mui propositadamente, os seus perseguidores não haviam acondicionado água na jangada. Nem uma gota sequer existia do precioso lí­quido…
Nesse transe doloroso, sedento de sede, o Bom Jesus proferiu então estas palavras:
“Sim, cearenses ingratos e maus; vocês também não terão água quando tiverem sede”.
O Vento Leste, que passava, acolheu as palavras do aflito Santo e, varrendo do nosso céu todas as nuvens, trouxe para o Ceará a primeira seca.
(CASCUDO, Luí­s da Cí¢mara. Contos Tradicionais do Brasil. Rio: Edições Ouro, s/d. – Contos etiológicos – p.369)

ATIVIDADES

Faça as versões abaixo indicadas para contar a “Causa das secas no Cearᔝ:
1. Com exceção do 1º parágrafo, use o presente histórico (metáfora temporal) para contar a lenda.
2. Conte “A Causa das Secas no Ceará” com as seguintes transformações:
a) Inicie a história no 2º parágrafo, com uma introdução semelhante a esta: “Ao ser expulso do Ceará…
b) Deixe o conteúdo do 1º parágrafo para o final. Para fazer essa adaptação, introduza o respectivo parágrafo mais ou menos assim: “Tudo isso aconteceu porque, em priscas …..
3. Faça de conta que você seja um cearense. Para isso, conte a mesma história mudando apenas o foco narrativo.

XXVI – M CERTO MODELO DE ESCOLA

O texto abaixo é de difí­cil “leitura”. Além do problema de diagramação (pois não está dividido nem em parágrafos nem em frases), omite os sinais de pontuação. Leia e releia o texto atentamente, procurando compreendê-lo. Depois, faça as seguintes atividades:

1. Pontue o texto de acordo com a sua intuição.
2. Divida-o em parágrafos.
3. Discuta as tarefas anteriores com seus colegas.

UM CERTO MODELO DE ESCOLA

(Autor ignorado. Adaptação: R.A.K)
Conta-se que os bichos determinaram criar uma escola porque o meio em que estavam vivendo começava a se tornar cada vez mais complexo já não podiam com seus instintos inatos enfrentar o meio que se havia complicado demais precisavam de uma escola para habilitá-los e prepará-los convenientemente para as novas estruturas do ambiente foi escolhido um corpo docente ótimo todo ele com grandes tí­tulos universitários e boa experiência isso envaideceu a todos para o currí­culo sem muita pesquisa do meio ambiente escolheram o seguinte elenco de disciplinas nadar correr voar galgar morros e superar obstáculos os primeiros alunos foram o cisne o coelho o gato e o pato começando o curso cada mestre preocupado apenas com a sua disciplina dava matéria a torto e a direito julgavam que assim procediam corretamente fazendo jus a seus tí­tulos acadêmicos e salários os alunos contudo iam se desencantando com a tão almejada escola o cisne nas aulas de correr de voar de subir morros apesar de todo esforço era mau aluno tirava notas péssimas ficava com os pés ensangüentados nas corridas e por causa de sua í¢nsia de voar alto e veloz fazia calos em diferentes pontos de suas asas o pior era que em decorrência de seu esforço nessas disciplinas começara a regredir na disciplina de nadar coisa em que antes era exí­mio o coelho por sua vez padecia nas matérias de nadar e voar como aprender a voar se não tinha asas em se tratando de nadar a tarefa era igualmente difí­cil se bem que um pouco menos do que voar o que o salvava eram duas matérias correr e galgar morros pois suas notas em nadar e voar eram de reprovação entretanto não havia dispensa de disciplina para ninguém o gato tinha o mesmo problema que o coelho em se tratando de nadar e voar com relação a voar ele insistia que se fosse o caso de voar de cima para baixo ele poderia ter relativo êxito o professor contudo não podia aceitar essa condição porque não estava de acordo com o programa oficial que deveria ser cumprido rigorosamente o pato finalmente era um aluno medí­ocre em tudo voava um pouquinho corria mais ou menos nadava até bem muito menos do que o cisne é claro subia morros até com certo desembaraço entretanto sua média geral era a melhor não tinha reprovação como o coelho e o gato por isso sua mediocridade em tudo o fazia sumamente brilhante na estatí­stica final conseqüementemente foi escolhido para orador da turma apesar da reclamação geral o coelho argumentava que corria e galgava morros muito melhor do que ele o cisne de ser melhor nadador cada um tinha sua queixa justificada contra a escolha do pato um único argumento porém fez com que todos se calassem ninguém tinha média superior í  dele por isso estatisticamente o pato era superior a todos.

XXVII -TEXTO-BASE (FRAGMENTO)

Num repente, relembrei estar em noite de lobisomem – era sexta-feira (…)
Já um estirão era andado quando, numa roça de mandioca, adveio aquele figurão de cachorro, uma peça de vinte palmos de pêlo e raiva (….)
Dei um pulo de cabrito e preparado estava para a guerra do lobisomem. Por descargo de consciência, do que nem carecia, chamei os santos de que sou devocioneiro:
? São Jorge, Santo Onofre, São José!
Em presença de tal apelação, mais brabento apareceu a peste. Ciscava o chão de soltar terra e macega no longe de dez braças ou mais. Era trabalho de gelar qualquer cristão que não levasse o nome de Ponciano de Azeredo Furtado. Dos olhos do lobisomem pingava labareda, em risco de contaminar de fogo o verdal adjacente. Tanta chispa largava o penitente que um caçador de paca, estando em distí¢ncia de bom respeito, cuidou que o mato estivesse ardendo. Já nessa altura eu tinha pegado a segurança de uma figueira e lá de cima, no galho mais firme, aguardava a deliberação do lobisomem. Garrucha engatilhada, só pedia que o assombrado desse franquia de tiro. Sabidão, cheio de voltas e negaças, deu ele de executar macaquice que nunca cuidei que um lobisomem pudesse fazer. Aquele par de brasas espiava aqui e lá na esperança de que eu pensasse ser uma súcia deles e não uma pessoa sozinha. O que o galhofista queria é que eu, coronel de í¢nimo desenfreado, fosse para o barro denegrir a farda e deslustrar a patente. Sujeito especial em lobisomem como eu não ia cair em armadilha de pouco pau. No alto da figueira estava, no alto da figueira fiquei.
(CARVALHO, José Cí¢ndido de. O coronel e o lobisomem. Apud FIORIN, José Luiz e SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. São Paulo: ítica, 199O. p. 197)

REFLEXí•ES E ATIVIDADES

1. Considerando as referências textuais Ponciano de Azeredo Furtado e Lobisomem,
a) faça uma lista das palavras ou expressões usadas pelo autor para denominar esses personagens;
b) explique os efeitos de sentido que as diferentes denominações causaram na caracterização de cada personagem. (Se o autor tivesse repetido sempre a mesma palavra/expressão para denominar um personagem, ou se apenas se referisse a ele através de pronomes – ou elipses – , o sentido teria sido o mesmo?)
2. Faça uma nova versão do texto mudando seu foco narrativo.
3. Com o auxí­lio do dicionário, faça a seguinte pesquisa:
a) Extraia do texto as palavras que não fazem parte do léxico (vocabulário) da Lí­ngua Portuguesa Padrão, buscando, para cada uma delas, uma palavra equivalente nessa variedade lingüí­stica.
b) Explique os efeitos de sentido das palavras novas (neologismos) encontradas no texto.
4. Tendo em conta o ordenamento dos termos na oração e das orações no perí­odo,
a) assinale alguns enunciados em que ocorre ordem inversa;
b) transcreva os mesmos enunciados em ordem direta;
c) justifique a ordem inversa adotada pelo autor.

ATIVIDADES COMPLEMENTARES: ORDEM DIRETA X ORDEM INVERSA

Passe para a ordem direta os textos ou fragmentos de texto abaixo:

1. “Introdução” de um edital:

“A Exma. Sra. Dra. Mylene Maria Michel,
MMa. Juí­za de Direito Diretora do Foro,
da Comarca de Santa Maria, RS.

FAZ SABER aos que o presente EDITAL virem, ou dele conhecimento tiverem, que encontra-se vago um (01) cargo de OFICIAL DISTRITAL de São Martinho, nesta Comarca de Santa Maria, de entrí¢ncia intermediária.”

2. Enunciados extraí­dos de “Paradigmas do Conhecimento” In: MARQUES, Mário Osório. Pedagogia: A ciência do educador. Ijuí­: Livraria Unijuí­ Editora, 1990, p. 13-50.

2.1. “Qualifica-se como tal o ser humano pelo grau de saber e autodeterminação com que produz e assume suas condições de existência. Somente no conhecimento como domí­nio das condições do existir e diretriz para as determinações do agir realizam-se na vida humana as capacidades de auto-organização e autocontrole.”
2.2. “Das demais modalidades, porém, distingue-se o conhecimento cientí­fico por ser, ao mesmo tempo, um saber de conteúdo e um saber do seu saber.”

3. “MAR PORTUGUíŠS”, de Fernando Pessoa:

í“ mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

4. Hino Nacional Brasileiro:
(Letra: Joaquim Osório Duque Estrada)

I
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.

Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!

í“ Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio ví­vido
De amor e de esperança í  terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e lí­mpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.

Gigante pela própria natureza,
í‰s belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.

Terra adorada,
Entre outras mil,
í‰s tu, Brasil,
í“ Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

II
Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e í  luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!

Do que a terra mais garrida
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
“Nossos bosques têm mais vida”,
“nossa vida” no teu seio “mais amores”.

í“ Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja sí­mbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro dessa flí¢mula
- Paz no futuro e glória no passado.

Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge í  luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra adorada,
Entre outras mil,
í‰s tu, Brasil,
í“ Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

XXVIII – RACIOCíNIO SOLIDíRIO DERROTA O ARBíTRIO E A INTOLERí‚NCIA

Atividade preliminar (a ser feita antes da leitura do texto):

As proposições abaixo constituem os dois primeiros parágrafos do texto, mas não têm coesão, pois estão fora de sua ordem seqüencial.
I – Sublinhe as palavras e expressões que constituem marcadores de ordem seqüencial.
II – Levando em conta esses marcadores, use os parênteses para numerar os enunciados na ordem seqüencial em que devem ocorrer.
III – Compare a resposta resultante da atividade “II” com a seqüência original do texto (transcrito depois desta atividade preliminar).

1º Parágrafo:
( ) Por isso, incumbiu um esperto ministro de descobrir um jeito de condená-los sem dar ao povo uma impressão de arbitrariedade
( ) Certo dia, um rei perverso resolveu executar três sábios porque discordava de suas opiniões.
( ) O ministro, então, engendrou uma saí­da: apresentou aos sábios uma bandeja com cinco chapéus, três pretos e dois brancos, a serem colocados na cabeça de cada um.
( ) Poderia simplesmente matá-los, mas uma atitude dessas poderia provocar uma grande revolta popular.

2º Parágrafo:
( ) “Qual é a cor de seu chapéu?”, perguntou o rei na primeira vez.
( ) Uma vez que tudo estivesse pronto, o rei perguntaria:
( ) Cada um dos sábios deveria responder quando tivesse certeza ou então permanecer em silêncio
( ) “Qual é a cor do seu chapéu?”, perguntou o rei novamente.
( ) Determinou, em seguida, que eles se mantivessem incomunicáveis, num lugar onde enxergassem apenas o topo da cabeça dos outros dois e não conseguissem ver a cor do próprio chapéu
( ) “De que cor é o chapéu em sua cabeça?”
( ) “Preto”, responderam todos e acertaram em cheio.
( ) Após três tentativas, quem não respondesse ou errasse a resposta seria condenado.
( ) Por isso, foram libertados e o rei teve de engolir o fracasso do plano de seu não esperto ministro.
( ) “Qual é a cor de seu chapéu?”, perguntou o rei pela terceira vez.
( ) Todos ficaram em silêncio.
( ) Nenhuma resposta.

TEXTO ORIGINAL:

Raciocí­nio solidário derrota o arbí­trio e a intolerí¢ncia

Por Luiz Barco
Certo dia, um rei perverso resolveu executar três sábios porque discordava de suas opiniões. Poderia simplesmente matá-los, mas uma atitude dessas poderia provocar uma grande revolta popular. Por isso, incumbiu um esperto ministro de descobrir um jeito de condená-los sem dar ao povo uma impressão de arbitrariedade. O ministro, então, engendrou uma saí­da: apresentou aos sábios uma bandeja com cinco chapéus, três pretos e dois brancos, a serem colocados na cabeça de cada um.
Determinou, em seguida, que eles se mantivessem incomunicáveis, num lugar onde enxergassem apenas o topo da cabeça dos outros dois e não conseguissem ver a cor do próprio chapéu. Uma vez que tudo estivesse pronto, o rei perguntaria: “De que cor é o chapéu em sua cabeça?” Cada um dos sábios deveria responder quando tivesse certeza ou então permanecer em silêncio. Após três tentativas, quem não respondesse ou errasse a resposta seria condenado. “Qual é a cor de seu chapéu?”, perguntou o rei na primeira vez. Todos ficaram em silêncio. “Qual é a cor do seu chapéu?”, perguntou o rei novamente. Nenhuma resposta. “Qual é a cor de seu chapéu?”, perguntou o rei pela terceira vez. “Preto”, responderam todos e acertaram em cheio. Por isso, foram libertados e o rei teve de engolir o fracasso do plano de seu não esperto ministro.
De que forma eles conseguiram esse resultado? Seguiram um raciocí­nio que eu chamo solidário, em que cada um tem de raciocinar bem e esperar que os outros também o façam. Se um dos três falhasse, todos estariam perdidos. Vamos tentar reconstituir o caminho percorrido pelos sábios. A bandeja tinha cinco chapéus, três pretos e dois brancos. Logo, se um deles enxergasse dois chapéus brancos, teria um preto na cabeça, é claro, já que estava vendo a totalidade dos brancos. O silêncio na primeira tentativa indicou a cada um deles que ninguém estava enxergando dois chapéus brancos. A única possibilidade era a existência de dois pretos ou de um preto e um branco.
Portanto, a primeira pergunta serviu para indicar que um chapéu branco estava fora da jogada. Na segunda pergunta, se qualquer dos três tivesse visto um chapéu branco aproveitaria a chance para dizer: “O meu é preto.” Como ninguém disse nada, eles deduziram que não havia nenhum chapéu branco na jogada e, assim, se valeram da última pergunta para responder sem titubear: “O meu chapéu é preto.” Observe que foi raciocinando para si e contando com o solidário raciocí­nio dos colegas que cada um dos sábios tomou a própria decisão. Se um só deles raciocinasse e concluí­sse mal, poria a perder o raciocí­nio dos outros dois. Esse fato ilustra bem um pequeno e ingênuo problema que, embora não pareça, é bem mais freqüente do que se pode imaginar. í‰ como se tivéssemos certeza de que ao produzir algo poluente sofrerí­amos as conseqüências desse ato.
Nós ou nossos descendentes seremos, sem dúvida, alcançados por nossas grandezas ou misérias. A questão de vida ou morte dos sábios revela que o procedimento solidário acabou derrotando o rei e salvando-lhes a pele. Esse problema, aparentemente simples, me levou í  conclusão de que se tentarmos estimular, sempre que possí­vel, esse tipo de raciocí­nio em nossas crianças, provavelmente gastaremos muito menos tempo tentando cobrar solidariedade de nossos adultos.
( Luiz Barco é professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo.
(Revista “SUPERINTERESSANTE” ANO 7, N. 1, JANEIRO 1993 – Seção “DOIS MAIS DOIS”, p. 47.)

ATIVIDADES

(Alerta ao professor: Não é produtivo, a partir de um mesmo texto, propor um grande número de atividades aos alunos. Isso pode desmotivá-los para a leitura e para a aprendizagem. Ou seja, as atividades abaixo exemplificadas, se aplicadas “ispsis litteris” aos alunos, seriam “massacrantes”. Insisto que o objetivo aqui não é elaborar atividades para serem aplicadas mecanicamente a alunos. Pretendo, isso sim, demonstrar aos colegas como certos textos apresentam elementos para a elaboração de atividades de aprendizagem.)

1. Divida o texto acima em duas partes:
a) parte em que o autor, predominantemente, assume uma atitude de relator (apresentando um “mundo narrado”):
b) parte em que o autor, predominantemente, assume uma atitude de comentador ou comentarista (apresentando um “mundo comentado”):
2. O autor interpõe comentários entre os fatos na parte relatada. Sublinhe os enunciados com os quais ele faz isso.
3. Transforme a parte em que o autor adota uma atitude de relator mudando-a para uma atitude de comentador.
4. Reelabore os enunciados abaixo (extraí­dos do terceiro parágrafo) conforme o solicitado:
a) Passe para o futuro: “Se um dos três falhasse, todos estariam perdidos.”
b) Reduza a locução verbal grifada (constituí­da de três palavras) a uma só palavra. (Atenção! Vai haver uma pequena alteração de sentido.): “Vamos tentar reconstituir o caminho percorrido pelos sábios.”
5. Reconstrua o seguinte enunciado, substituindo o verbo ter pelo verbo haver: “A bandeja tinha cinco chapéus, três pretos e dois brancos.”
6. Substitua a locução verbal por uma forma simples equivalente: “O silêncio na primeira tentativa indicou a cada um deles que ninguém estava enxergando dois chapéus brancos.”
7. Posicione-se quanto ao uso adequado ou inadequado do infinitivo (impessoal ou pessoal) nos enunciados abaixo:
a) Como ninguém disse nada, eles deduziram que não havia nenhum chapéu branco na jogada e, assim, se valeram da última pergunta para responder sem titubear: “O meu chapéu é preto.” (4º parágrafo)
b) í‰ como se tivéssemos certeza de que ao produzir algo poluente sofrerí­amos as conseqüências desse ato. (4º parágrafo)
8. a) Responda: A quem o autor está se dirigindo ao usar o imperativo no seguinte perí­odo? “Observe que foi raciocinando para si e contando com o solidário raciocí­nio dos colegas que cada um dos sábios tomou a própria decisão.” (4º parágrafo)
b) Tendo em conta o mesmo enunciado, mencione o termo que foi enfatizado pelo autor, bem como o mecanismo gramatical por ele usado para realizar a ênfase.
9. Reescreva o primeiro parágrafo do texto com base na seguinte introdução: “Certo dia, um rei perverso determinou que três sábios se mantivessem incomunicáveis, num lugar onde enxergassem apenas o topo da cabeça dos outros dois e não conseguissem ver a cor do próprio chapéu.” (Esse fato é narrado no iní­cio do 2º parágrafo do texto original.)
10. Localize enunciados em que haja formas verbais para as quais, de acordo com a Gramática Normativa da Lí­ngua Portuguesa, as flexões deveriam ser diferentes, ou para as quais, no mí­nimo, se admitiria outra flexão, sem prejuí­zo do sentido.

XIX – Foi Sonho

Mário de Andrade (Melhores Contos)

? Antão, Frorinda, que é isso! você tá lôca!…
Será que você qué abandoná seu negro pru causo de otra muié?… Inda que eu fosse um desses miserave que dêxum fartá inté pão im casa, mais eu, Frorinda! que nunca te deixei sem surtimento! E inté trago tudo de sobra pá gente pudê sê filiz… Quando que na casa de sua mãi ocê usô argola nas orêia, feito deusa? só eu, que quero ocê bunita sempre, bunita pr’eu querê bem, e não bunita pá gozá… Quando o Romero comprô aquela brusa de seda pra muié dele, num comprei logo um vistido intêro p’ocê?… Dêxa disso Frorinda, eu ixprico tudo! Num bamo agora se disgraçá pr’uma coisinha de nada!
… Eu onte caí­ na farra, tanta gente mascarado divirtino, você tava tão longe pr’eu í­ busca… Depois minha mulé num é pra farra não! eu quis mulé foi pá tá im casa me sirvindo cum duçura, intrei na premera venda e bibi. Antão me deu uma corage de sê o que num tenho sido, você bem sabe que num tenho sido, mais quis caí­ na farra uma veiz. Inté tava bem triste pruque de repente me alembrei que dê-certo o Romero tava im casa cum a famia, im veiz de andá sozinho cumo eu tava, feito sordado na vida… Porém já tinha bibido otra veiz, fiquei contente, puis num tenho que dá satisfação ninhuma p’u Romero, eu sô eu! Fui dexá as ferramenta na premera venda que eu sô cunhicido lá, tava todo sujo do trabaio, mai’justifiquei que pra caí­ na farra num caricia de me trocá. Farra é vergonha, pa sujo de pensamento, sujo de corpo num faiz má.
Agora nem num sei si devo contá o resto, Frorinda, pruque eu quero é num te martratá, já tava bem tanto quano incontrei ela. Nunca tinha visto simiante criatura mais ela vinha vistida de apache, que agora as muié deu pra visti carça no Carnavá… Vai, ela oiô pra mim e falô ansim. “í”ta mulato proletaro, bam’ fazê cumunismo pa i no baile do Colombo junto.” Eu inté num achei graça, mais porém todos tavum rindo do meu jeito, num quis ficá purtrais, me ri tamem. Intão ela s’incostô todinha e suspirô fingido. Todos cairam numa gargaiada que num sei o que me deu: pensei logo cumigo que seu negro, Frorinda, é hôme pra uma, duas, déiz muié, eu tava mêrmo tonto, inté jurguei que ocê havia de ficá sintida de seu hôme num demostrá que era capais de tudo, dei um tapa na padaria dela que ela vuô longe. Antão ela chegô otra vêiz, sem brincadêra, e segredô baixinho: “Bamo”? Praque que hei-de falá… mais me deu ua vontade de i cu’ela. Todos tavum reparando e senti satisfação. Garrei na cintura dela e fui andano. Minha tenção era chegá nargum lugá sem gente e dá o fora, porém, você me discurpe, Frorinda, era só tenção, cheguemo no Colombo.
Foi a conta! Ansim qu’inxerguei aquela gentarada na maió imoralidade, me cunvinci difinitivo que tinha caí­do na farra, era tudo um sonho, nada num fazia má, bibi, dancei, caçuei c’os otro, ela só se ajeitando pa meu lado… Despois, quano me convidô pá i cu’ela, eu disse: “eu vô”.
E agora você num qué mais eu só pur causo dessa mulé!… Ocê tá maginano que tenho argum amô pur aquela pirdida!… Eu inté paguei ela!… Foi que ela me falô que o pai apareceu lá im casa da patroa e pidiu cinco mirréis, dizendo que batia nela, eu tive dó, arrispundi: “Pur isso não, você tá quereno i cumigo, intão bamo que despois de eu fazê o sirviço, te dô os cinco mirréis.” Também quantas veiz lá no trabaio, passa o bananero, me dá ua vontade, “í“ia aqui, me dá duzentão de bana”, você zanga? Pago, como, num trago niúma pr’ocê, você zanga? diga!… Home quano vê muié jeitosa, mermo que num seje sua mulé, vontade ele tem memo… Me deu vontade cumo das banana. Tamém cumi, paguei, num truxe nada pro ocê. E ocê zangô!…
Isso de “nossa cama”, “nossa cama”, bamo dexá de bobage, Frorinda! Eu tava bebo, bêbado não! tava só tonto, num sei que tontice me deu, num tinha lugá, mato eu num gosto, levei ela pra nossa casa. Eu tava bebo memo, puis você divia riagi… Im veiz de saí­ de casa toda chorano, me chamando de “sem vergonha”, sem-vergonha não! que eu sempre tive vergonha na vida, num robo, num bebo, nunca fiz má pra ninguém! Vô fazê má é pra mim, pruque si ocê me dexá sinto que vô sofrê demais de te vê disgraçada.
… Nem sei si levei ela im casa na tenção de sê na nossa cama, eu quiria é lugá siguro… você acordô c’u riso dela. Mais porém quano ocê me chamô de sem-vergonha na frente dela, me bateu, um ódio de tá manera, eu disse: Ha-de sê na tua cama, quente de teu corpo, sua!… E fiz. Você divia riagi!
Puis é… Hoje de-manhãzinha ela me apareceu lá im casa, fazeno um bué danado. Fui me acordando e pricurei logo ocê, era o custume. Ocê num tava… Antão veio tudo num crarão e logo pircibi que tinha feito ua bestera. “í“i, que eu falei pr’ela, é mió você num metê cumigo não, qu’eu já sô de otra.” Ela garrô chorano arto pr’us vizinho, diz-que eu tinha tirado a honra dela… Fiquei surprindido, mais depois sortei ua gargaiada, “ôh negrinha, ocê num vem cum parte não! que quantos num te cunheceru, heim, negra”!… Mais ela num vê de pará, tava juntano gente, ela gritava que era virge, que inté o Sandrino c’o Romero vinherum pa meu lado, falando que si caricia de tistimunha, eles tavum pa me ajudá. Eu antão fiquei tão cego que crisci pra cima dela, mia vontade era matá, me sigurarum. Daí­ ela saiu correno, gritano que ia na Puliça. Foi quano o Romeu priguntô de ocê, eu fui, fiquei bem carmo, arrispundi que ocê tinha ido na casa de sua mãi. Filizmente que ninguém num tinha iscutado a increnca da noite…
Antão arresorvi vim buscá ocê. í“i, Frorinda, ocê bem sabe que num sô home pra tá tirano a honra de muié… Só tirei a honra de uma, foi você, pruque nóis dois se pirtincia. Mais porém te dei a minha, que ocê é que guarda a honra de seu negro, num é mesmo?… diga! E agora, será que ocê tá quereno me dishonrá… Antão você vai dá de mostrá pr’us otro que tu é uma disgraçada, quano num é!…
Eu inté num gosto de jurá pruque sô home cumpridô de sua palavra, mais… ói! te juro que nunca mais hei-de oiá para outra mulé, é ocê que eu quero bem, te juro! Bamo fingi que tudo o que sucedeu, num sucedeu, foi sonho, e hei-de te prová que foi sonho memo, num dexô siná. Bamo cumigo, Frorinda…

REFLEXí•ES E ATIVIDADES

ORIENTAí‡íƒO: Em todas as atividades devem ser explicados os efeitos de sentido decorrentes das reformulações.

1. Traduza partes do texto (í  sua escolha) para a variedade da Lí­ngua Portuguesa Padrão.
2. Transforme, nas partes traduzidas, o tratamento “você” dado í  Frorinda para “tu”.
3. Identifique e classifique atos de fala primitivos e derivados realizados pela personagem principal do texto.
4. Formule uma regra gramatical que se refira a um aspecto bem delimitado da linguagem usada no texto, assinalando as passagens que fundamentam a regra por você inferida.

XXX – IMPESSOALIZAí‡íƒO DE TEXTOS ATRAVí‰S DA OMISSíƒO DOS AGENTES

1. Orientação teórica
Para impessoalizar um texto, você deve omitir (sempre que possí­vel) os agentes das ações verbais. Para tanto, você pode valer-se de mecanismos tais como:
a) usar a voz passiva analí­tica ou sintética em verbos que exigem objeto direto, omitindo o agente da passiva;
b) usar o mesmo mecanismo (voz passiva) juntamente com auxiliares modais (dever, poder…);
c) usar o pronome “se” como í­ndice de indeterminação do sujeito (para verbos intransitivos e transitivos indiretos);
d) transformar, quando lingüisticamente viável, pacientes, causas, instrumentos, em agentes da ação verbal. (Ex.: O moleque quebrou a vidraça da prefeitura com uma pedra. X Uma pedra quebrou a vidraça da prefeitura. O vento abriu/bateu a porta. X A porta abriu/bateu.);
e) usar predicados cristalizados, adaptando estruturalmente a respectiva frase (“é preciso/ é necessário que……”; “é importante/importa que…..”; “convém que…..”; “urge que….”, etc.);
f) nominalizar orações, transformando o respectivo verbo em substantivo.

2. Atividade: Realize a impessoalização de algumas ações relatadas na ata abaixo transcrita:

ATA N.º 04/90

Aos dezessete dias do mês de abril de mil novecentos e noventa, na sala 1210 do Centro de Artes e Letras, í s quinze horas e trinta minutos, realizou-se mais uma reunião do Colegiado do Curso de Letras, com a presença dos seguintes membros: Prof. Roque Amadeu Kreutz, presidente e Coordenador do Curso; Profa. Marta Eliza Liberalli, representante do Departamento de Metodologia de Ensino; Profa. Rejane Sampedro Ramos, representante do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas; Profa. Tí¢nia Taschetto, representante do Departamento de Letras Clássicas, Filologia e Lingüí­stica; Profa. Terezinha de Jesus Zadra, representante do CPERS; e as acadêmicas Circi Nayar Lourenço, Cristiane Rossatto e Elisabeth Konrad. O presidente do Colegiado, Prof. Roque Amadeu Kreutz, deu iní­cio í  reunião, solicitando que fosse feita a leitura da ata do dia 03/04/90. Após a leitura, a ata foi colocada em votação e aprovada com a seguinte emenda: “a acadêmica Valéria Machado não esteve presente í  reunião do Colegiado do dia 03/04/90, conforme consta na respectiva ata.” A seguir, o Prof. Roque Amadeu Kreutz leu os itens da pauta referentes í  presente reunião, submetendo-os í  apreciação dos presentes. A acadêmica Circi solicitou que fosse incluí­do mais um item: alteração do horário das reuniões do Colegiado. Todos concordaram com a inclusão solicitada, que passou a figurar como primeiro item da pauta. Por isso, iniciou-se a ordem do dia com a discussão desse item. A autora da proposta justificou a alteração do horário dizendo que a acadêmica Valéria Machado, por incompatibilidade com seu horário de aulas, está impedida de participar das reuniões do Colegiado nas datas e horários já estabelecidos. Entretanto, após a discussão da proposta, chegou-se í  conclusão de que não há possibilidade de alteração, já que terça-feira é o dia mais indicado para a maioria. O Prof. Roque também comunicou que, conforme decisão anterior do Colegiado, doravante as reuniões deverão ter iní­cio í s quinze horas, e não mais í s quinze horas e trinta minutos, conforme vinha acontecendo. Discutiu-se, a seguir, a homologação do horário de aulas do Curso de Letras para o próximo semestre. A Profa. Tí¢nia, que integra a comissão que elaborou a proposta de horário, passou explicar diferentes aspectos da proposta. O Prof. Roque, depois de agradecer e elogiar o trabalho da comissão, manifestou sua aprovação integral í  proposta elaborada. Depois de serem esclarecidas diversas dúvidas, a proposta de horário foi colocada em votação, sendo aprovada por unanimidade. Passou-se, então, ao próximo item da pauta: datas e horários da pré-matrí­cula. Ficou decidido que a pré-matrí­cula será realizada nos dias 24 e 25 de abril, na Secretaria do Curso, no horário das oito í s onze horas e trinta minutos, e das quatorze í s dezessete horas. Em seguida, foram analisados vários pedidos de alunos e emitidos os respectivos pareceres referentes í  dispensa de pré-requisitos para cursar disciplinas do currí­culo. Sobre o assunto, o Prof. Roque comunicou que o Departamento de Letras Vernáculas, bem como o de Letras Clássicas, Filologia e Lingüí­stica, já realizaram dispensas de pré-requisitos, restringindo estes a um pequeno número de disciplinas. Tendo em conta essa situação, a Coordenação do Curso divulgará o novo quadro de pré-requisitos ainda antes da pré-matrí­cula e o enviará ao DERCA, para fins de elaboração do novo guia de oferta de disciplinas. Antes de encerrar a reunião, o Prof. Roque informou que, no dia 19/04, será realizada uma assembléia geral do curso para a discussão e votação do regimento eleitoral relativo í s eleições de Coordenador, cujo resumo já foi divulgado através da circular de convocação da referida assembléia. Agradecendo a presença de todos, o presidente dos trabalhos encerrou a reunião. Nada mais havendo a registrar, eu, ………………………., secretária administrativa do Curso de Letras, lavrei a presente ata que vai datada e assinada por mim e pelos demais presentes. Santa Maria, 17 de abril de 1990.

XXXI – FORMAS “APRECIATIVAS” OU “NíƒO APRECIATIVAS” DE RETOMADA REFERENCIAL

1. Preencha as lacunas dos enunciados abaixo seguindo o modelo inicial:
“O buraco de ozônio já chegou ao Rio Grande do Sul. Esse(a) …… (fenômeno/desastre ecológico/catástrofe) pode trazer sérios prejuí­zos í  saúde dos riograndenses.

a) A baixa renda de milhões de brasileiros sempre é lembrada nas campanhas eleitorais. No entanto, esse(a) ………………. é esquecido(a) tão logo que os eleitos assumem o poder.
b) Em 1964, os militares assumiram o governo “para moralizar a administração pública e combater o comunismo”. Será que esses(as) ……………………… foram alcançados?
c) A “gota d’água” da derrubada de Jango foi o comí­cio da Central do Brasil, …………… que atemorizou os militares e a elite empresarial.
d) A atual Diretoria do DCE (PRA MUDAR DE CARA) afirma que a Diretoria anterior (ALTERNATIVA) deixou um rombo de milhões no caixa da …………………. Esse(a) …………….. teve ampla cobertura da imprensa local.
e) Enquanto a TFP defende a estrutura hierárquica da sociedade e a obediência rí­gida í s tradições, o anarquismo defende uma organização social espontí¢nea em que vale tudo. Ambos(as) os(as)…………………… são extremistas.
f) Muitos defendem que a alegria ou a tristeza, a riqueza ou a pobreza são frutos de atividades e condições individuais. Outros afirmam que esse(a) ……………………… decorre de condições sociais. Ambos(as) os(as) …………………….. estão errados(as).
g) Pegue dois ovos e coloque-os, num canequinho metálico com água, sobre fogo brando. Quando começar a fervura, deixe-os ainda por três minutos; depois retire-os e os esfrie em água corrente. Todo(a) esse(a) …………….. garante que você obterá dois ovos cozidos “moles” para a sua refeição.

2. Construa grupos de enunciados em que, na “retomada”, se apliquem denominações genéricas tais como: fato (incidente, acidente, crime, delito – assalto, estupro, seqüestro, latrocí­nio), fenômeno, processo, operação, procedimento, atitude, comportamento, posicionamento, estado, situação, sentimento, realização, feito, trabalho, caracterí­stica (defeito, ví­cio, virtude), ato de fala (diálogo, pronunciamento, declaração, afirmação, ordem, pedido, súplica, pergunta, questionamento, insinuação, acusação, elogio, louvor, ameaça, promessa, mentira, inverdade, falsidade, falácia, sofisma, etc.)

XXXII – O VELHO AMBICIOSO

1. Um velho tinha um filho muito trabalhador. Não podendo ganhar a vida como desejava em sua terra, despediu-se do pai e seguiu viagem para longe a fim de trabalhar.
2. Ao princí­pio mandava notí­cias e dinheiro, mas depois deixou de escrever e o velho o julgava morto.
3. Anos depois, numa tarde, chegou í  casa do velho um homem e pediu agasalho por uma noite. Durante a ceia conversou pouco e deitou-se logo para dormir.
4. O velho, reparando que o desconhecido trazia muito dinheiro, resolveu matá-lo. Relutou muito, mas acabou cedendo í  tentação e assassinou o hóspede, enterrando-o no quintal do sí­tio.
5. Voltou para a sala e abriu a mala do morto. Encontrou as provas de que se tratava do próprio filho, agora rico, e que vinha fazer-lhe uma surpresa. Cheio de horror, o pai e matador foi entregar-se í  justiça e morreu na prisão, carregado de remorsos.
(CASCUDO, Luí­s da Cí¢mara. Contos tradicionais do Brasil. Rio: Edições Ouro, s/d. – Contos de Exemplo, p.217)

ATIVIDADES

1. a) Transcreva, separadamente, todas as palavras ou expressões que se referem a cada personagem do texto, indicando o parágrafo em que se encontram.
b) Sugira palavras ou expressões que poderiam substituir adequadamente as repetições (somente as repetições) constatadas na atividade “a”.
2. A relação entre as proposições do 2º parágrafo do texto (“Ao princí­pio mandava notí­cias e dinheiro, mas depois deixou de escrever e o velho o julgava morto.”) NíƒO ficaria CORRETA se a mesma frase tivesse a seguinte versão:
a) Ao princí­pio mandava notí­cias e dinheiro. Depois deixou de escrever e o velho o julgava morto.
b) Embora ao princí­pio mandasse notí­cias e dinheiro, depois deixou de escrever; por isso o velho o julgava morto.
c) O velho o julgava morto porque ao princí­pio mandava notí­cias e dinheiro, mas depois deixou de escrever.
d) Ao princí­pio mandava notí­cias e dinheiro; todavia, depois deixou de escrever. Por essa razão, o velho o julgava morto.
e) O velho o julgava morto. Por isso, ao princí­pio mandava notí­cias e dinheiro, mas depois deixou de escrever.
3. “Voltou para a sala e abriu a mala do morto. Encontrou as provas de que se tratava do próprio filho, agora rico, e que vinha fazer-lhe uma surpresa.” (parágrafo 5º). A falta de um conetivo que indique explicitamente a relação entre as idéias separadas por ponto autoriza mais de uma interpretação. Entretanto, uma das versões abaixo NíƒO PODE SERVIR DE INTERPRETAí‡íƒO AO ORIGINAL. Assinale-a.
a) Ao voltar para a sala e abrir a mala do morto, encontrou as provas de que se tratava do próprio filho, agora rico, e que vinha fazer-lhe uma surpresa.
b) Caso não tivesse voltado para a sala e aberto a mala do morto, não teria encontrado as provas de que se tratava do próprio filho, agora rico, e que viera para fazer-lhe uma surpresa.
c) Antes de encontrar as provas de que se tratava do próprio filho, agora rico, e que vinha fazer-lhe uma surpresa, voltara para a sala e abrira a mala do morto.
d) Por ter voltado para a sala e de ter aberto a mala do morto, encontrou as provas de que se tratava do próprio filho, agora rico, e que vinha fazer-lhe uma surpresa.
e) Quando voltou para a sala e abriu a mala do morto, encontrou as provas de que se tratava do próprio filho, agora rico, e que vinha fazer-lhe uma surpresa.
4. Na elaboração dos enunciados do texto, o autor usou ordem direta e ordem inversa. Nos perí­odos indicados, altere a ordem das orações e/ou dos termos, mas sem prejudicar a gramaticalidade e a clareza das proposições.
a) “Anos depois….. por uma noite.” (parágrafo 3º).
b) “Encontrou as provas ….. surpresa.” (parágrafo 5º).
5. Imaginemos que o velho, antes de morrer na prisão, tenha contado a sua história para um padre que foi atendê-lo em seu leito de morte. (Portanto, nesse caso, o foco narrativo do texto deve ser de “primeira pessoa”.) Por outro lado, imaginemos que o assassino tenha contado toda a história começando com a vinda de um desconhecido a sua casa (parágrafo 3º).
Com base nesses pressupostos, reconstrua todo o texto, contando os fatos pela boca do velho quando este se confessava. (Atenção! Não faça alterações desnecessárias.)

XXXIII – TEXTO: Como Sobreviver?

A riqueza do sertão ? vai falando o João ? é o gado e a colheita. O gado está caí­do. A colheita já caiu. Se não tem gado nem colheita, o que é que a gente tem? A gente pediu dinheiro nos bancos, para financiar as plantações ? o que se plantou não deu; a chuva não vem; o gado está caí­do, como é que vamos pagar os bancos? í‰ a desgraça. Agora, os bancos vêm cobrar a gente. A gente fala para os gerentes, mas como vamos pagar? Os gerentes não querem ouvir. Dizem que o povo está cheio de malandro, de gente irresponsável, que não quer pagar. Mas como pagar? As autoridades superiores vivem na bondade, nem querem ligar para a pobreza. Os gerentes estão ameaçando a gente com o cartório e com o xadrez.
Fui falar com o gerente do Banco do Brasil. Não quis me ouvir. Não adiantou falar do gado caí­do, da colheita morta, de meu pai, seu Odilo, doente. Coitado, se perde a fazenda, morre. Ameaçou com o cartório. Tem muita gente aqui na região perdendo tudo. E tem gente de fora, de outros Estados, que está vindo para cá. O dono perde tudo e fica só de morador, ou então vai viver em outro lugar. Escrevi uma carta ao Banco Central contando tudo, será que responderão? O chefe da carteira do Banco do Brasil diz que vão tomar a propriedade da gente. Aí­, o que é que se faz? Deus, a gente não pode perder tudo assim. A vida da gente é a terra. Querem matar a gente?
(FAERMAN, Marcos. Com as Mãos Sujas de Sangue. São Paulo, Global Ed. e Dist., 1979. p. 88.)

ATIVIDADES

1. João (o narrador) avalia/julga toda a situação que está descrevendo através de uma frase, no primeiro parágrafo. Sublinhe essa frase.
2. Copie do texto um ato de fala derivado e explique porque é derivado.
3. Transforme os dois primeiros perí­odos simples do segundo parágrafo em perí­odo composto. Para isso, use um conetivo que expresse adequadamente a relação lógico-semí¢ntica ou discursiva que ocorre entre as duas idéias.
4. Bastante no iní­cio do texto, substitua a expressão “a gente” por “nós, os colonos,”. Mantenha esse foco narrativo até o final do texto, fazendo os ajustes necessários.
5. Altere a modalização da seguinte frase: “O dono perde tudo e fica só de morador, ou então vai viver em outro lugar.”
6. Nas frases abaixo, a pontuação pode ser aperfeiçoada, de modo que esteja mais de acordo com as regras da Lí­ngua Portuguesa Padrão. Aperfeiçoe a pontuação das frases, fazendo alterações em dois sinais de pontuação no item “a”, e um em cada frase nos itens “b” e “c”. Para isso, reescreva as frases.
a) “A gente pediu dinheiro nos bancos, para financiar as plantações ? o que se plantou não deu; a chuva não vem; o gado está caí­do, como é que vamos pagar os bancos?”
b) “Escrevi uma carta ao Banco Central contando tudo, será que responderão?”
c) “Deus, a gente não pode perder tudo assim.”

XXXIV – BURACO DE OZí”NIO AMEAí‡A ALIMENTO

A radiação solar ultravioleta que passa pelo buraco do tamanho da América do Norte, aberto na camada de ozônio sobre a Antártida, já pode estar prejudicando a cadeia alimentar que sustenta a vida selvagem na região. O alerta foi feito por cientistas da Universidade do Texas, que fizeram experiências com plí¢ncton, vegetais microscópicos que servem de alimento para o krill, molusco que por sua vez entra no cardápio de peixes e baleias. A exposição excessiva í  radiação parece destruir a clorofila responsável pela fotossí­ntese do plí¢ncton.
Em 1989, a concentração de ozônio sobre a Antártida tende a ser menor ainda que nos anos anteriores ? a campanha mundial pela abolição dos clorofluorcarbonos, gases responsáveis pela erosão do ozônio, não produz resultados instantí¢neos. No Hemisfério Norte, enquanto isso, cientistas acreditam que os efeitos da radiação podem estar sendo neutralizados ? quem diria ? pela poluição. A falta de ozônio na alta atmosfera seria compensada por um aumento da concentração do gás perto da superfí­cie, por causa da descarga de automóveis e queima de combustí­vel nas indústrias. Para quem sufoca no ar envenenado das cidades, a hipótese é um amargo consolo. (SUPERINTERESSANTE : janeiro de 1991(?), p. 21.)

ATIVIDADES

1. Faça outra versão do primeiro perí­odo, transformando uma oração subordinada em principal e a principal em subordinada (sem alterar a informação básica do enunciado).
2. Mantendo as mesmas informações contidas no segundo perí­odo do texto, transforme as orações subordinadas e os apostos em perí­odos simples.
3. Mude a modalização nos enunciados indicados, transformando a atitude de dúvida para atitude de certeza:
a) último perí­odo do primeiro parágrafo: ___________________________
b) penúltimo perí­odo do segundo parágrafo: ____________________________
4. Explique sentido contextual de
a) “ainda” (na primeira frase do 2º parágrafo):____________________________
b) “quem diria” (frase parentética no 2º parágrafo): __________________________

XXXV – í€ espera dos robôs

Quem estiver interessado em acompanhar os progressos da robótica e da automação, no Brasil e no mundo, não pode deixar de ler regularmente o boletim mensal publicado pelo Departamento Intersindical de Estatí­stica e Estudos Sócio-Econômicos (DIEESE), de São Paulo. A publicação sempre traz informações recentes sobre o assunto. Entretanto, está longe de fazer a apologia da nova era que se avizinha.
Um documento publicado na edição de junho de 1983, por exemplo, explicitava que os sindicatos não poderiam ser contra o progresso tecnológico. Apenas queriam que os trabalhadores fossem beneficiários desse progresso, e não suas ví­timas. O progresso técnico deveria servir, por exemplo, para reduzir a jornada de trabalho e não para aumentar o ní­vel de desemprego. Eis porque o DIEESE se dedicava a divulgar, sistematicamente, estudos sobre as conseqüências da automação no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, insistia na necessidade de os sindicatos se prepararem para incluir, nas pautas de negociações com as entidades patronais, os termos em que se deverá dar a implantação de processos e máquinas automáticas de produção de mercadorias ou prestação de serviços.
Nada mais prudente. Bastam alguns exemplos extraí­dos do boletim do DIEESE, de junho de 1984, para percebermos a dimensão do que pode significar a automação indiscriminada:
- Estudos realizados em outros paí­ses mostram que um robô pode substituir de seis a oito trabalhadores na indústria automobilí­stica, de acordo com um relatório da Comissão de Estudos de Automação na Manufatura, da Secretaria Especial de Informática.
- O número de trabalhadores na indústria automobilí­stica nos EUA poderá ser reduzido de um milhão em 1978 para cerca de 800 mil em 1990, mesmo prevendo um modesto crescimento de 1,8% ao ano nas vendas, segundo o Sindicato dos Trabalhadores desse setor nos EUA.
- Uma fábrica de lí¢mpadas na Grande São Paulo produzia 20 mil unidades por turno de trabalho (8 horas) de 12 pessoas. Ao introduzir um processo de fabricação automatizada, essa fábrica passou a produzir 25,6 mil lí¢mpadas por turno com apenas cinco trabalhadores. Portanto, 5,6 mil lí¢mpadas a mais com sete trabalhadores a menos por turno.
- Uma siderúrgica de Minas Gerais, utilizando determinada aciaria (conjunto de equipamentos), produziu num ano 915 mil toneladas de aço com o trabalho de 271 pessoas. Na mesma empresa, existe uma aciaria mais automatizada, que produziu 1.620 mil toneladas ocupando apenas 115 pessoas. Cada trabalhador dessa aciaria produz quatro vezes mais que os trabalhadores da antiga aciaria.
(“Quadro” do artigo “Não há vagas”. In: PEREIRA, Raimundo Rodrigues et al. Retrato do Brasil, vol II, Editora POLíTICA, 1985. p. 269.)

ATIVIDADES

1. Preencha as lacunas com os sujeitos das frases, resgatando-os do texto:
a) “Entretanto, _______ está longe de fazer a apologia da nova era que se avizinha.” (final do 1º parágrafo)
b) ______ “Apenas queriam que os trabalhadores fossem beneficiários desse progresso, e não suas ví­timas.” (segunda frase do 2º parágrafo)
c) “Ao mesmo tempo, _______ insistia na necessidade de os sindicatos se prepararem para incluir, nas pautas de negociações com as entidades patronais, os termos em que se deverá dar a implantação de processos e máquinas automáticas de produção de mercadorias ou prestação de serviços.”( frase final do 2º parágrafo)
2. Complete:
a) O autor do texto í€ espera dos robôs deixa transparecer claramente a sua posição sobre ______ usando a seguinte frase nominal: _______________
b) As três primeiras frases do 2º parágrafo constituem argumentos para a seguinte afirmação: _______
c) A palavra “assunto”, na última linha do 1º parágrafo retoma ___________
3. Explique em que lugar(es) do texto se encontram os argumentos que o autor utilizou para defender a sua posição (tese): _________________
4. Mencione o tipo de relação estabelecido pelo conetivo “e” na segunda e terceira frases do 2º parágrafo, justificando esse uso do “e”.
5. Complete: O autor, mesmo recorrendo a dados estatí­sticos nos parágrafos 4 e 5, não assume responsabilidade sobre eles. Para isso, indica a fonte desses dados (DIEESE) e usa, respectivamente, os conetivos ______ e ________, para atribuir responsabilidade sobre eles a _______ e ___________
6. Explique a importí¢ncia argumentativa do uso do artigo indefinido “uma” no iní­cio dos dois últimos parágrafos.
7. Substitua a palavra “dimensão” (3º parágrafo) por outra, mais carregada de negatividade, que se ajuste ao contexto.
8. O argumento do 5º parágrafo, graças a um recurso de modalização, é apresentado como uma possibilidade. Transforme-o para a modalidade da certeza.
9. Substitua a expressão “Eis porque”, no iní­cio da 4ª frase do 2º parágrafo, por outra equivalente.
10. Nominalize a primeira oração subordinada do 1º perí­odo do texto (“… em acompanhar os progressos da robótica e da automação…”), fazendo os ajustes necessários.
11. Junte as duas últimas frases do 1º parágrafo num só perí­odo, fazendo duas versões: uma com o conetivo concessivo “embora”, e outra com “apesar de”. Explique, depois, as diferenças estruturais e de sentido que provocaram essas transformações.
12. Reescreva o 2º parágrafo usando o presente como tempo básico. Explique as diferenças de sentido provocadas por essa transformação.
13. Levando em conta as afirmações contidas no 6º parágrafo, complete a última frase: “Portanto, ________ 5,6 mil lí¢mpadas a mais com sete trabalhadores a menos por turno.”
14. Sem alterar o sentido básico dos perí­odos em que se encontram, substitua as expressões “na necessidade” por “ser necessário”, e “dar a implantação” por “implantar” (última frase do 2º parágrafo), fazendo os ajustes necessários.

XXXVI – LATRINEIROS NA UNIVERSIDADE
(Cópia rigorosa de panfleto distribuí­do na UFSM em 1985, no decorrer da primeira campanha eleitoral para reitor.)

Causou estupor e indignação nos meios universitários locais, até agora envolvidos numa campanha eleitoral de alto ní­vel, a mal alinhavada colcha de impropérios dirigida contra três dos reitoráveis (livrando apenas um deles) escrita (?) por uma figura obtusa que já tinha conseguido certa notoriedade por jogar excrementos contra a figura de Bento Gonçalves.
O referido elemento chega í s raias da ofensa pessoal contra os candidatos Tabajara, Benetti e Mariano, deixando imaculada e figura de José Fernandes. Chama Tabajara de “desbotada figura local”, esquecendo-se de que o mesmo é figura humana í­mpar, admirado por seus alunos e colegas e com toda uma linha de conduta norteada pelo padrão cultural e pela sensibilidade. Coisas que o malsinado escriba (?) não pode compreender, uma vez que só teve acesso í s latrinas da UFSM para copiar inscrições das paredes das mesmas para realizar um estudo (?) interpretativo do pensamento universitário í  luz do intestino grosso. Cada um procura o seu habitat…
Acusa o nosso candidato de estar implicado no desfalque da ABS. Nosso candidato já contratou, ontem mesmo, os advogados que moverão contra tão asqueroso articulista processo de calúnia, infí¢mia e difamação. Pois Tabajara foi quem constituiu auditoria, fez todo o levantamento das irregularidades da ABS e encaminhou tudo para a Justiça para que os responsáveis sejam punidos. Diz – com a espantosa irresponsabilidade daqueles que não tem cultura – que Tabajara é “no mí­nimo, um dirigente que não apura corrupções”. Vamos ver se, no futuro, diante do juiz, o indiví­duo se sentirá tão í  vontade como diante do cadáver de Bento Gonçalves …
O que causa maior espécie é o fato de tal elemento não pertencer aos quadros da Universidade. Nem como professor, nem como funcionário, muito menos como aluno. Porque para freqüentar os bancos universitários é requerido, por lei, que o aluno complete seu segundo grau (coisa que tal “escritor” ainda não conseguiu) e ainda passar pelo crivo do vestibular que com todos os seus defeitos, ainda é um método para avaliar aqueles que precisam, para publicar seus textos, de severa correção de regência e de barbarismos gramaticais que fariam Camões dar voltas na tumba.
Como funcionário, tal elemento teria de fazer concurso público, disputa í  qual nunca se arriscou. Bem mais fácil é auto-intitular-se “pesquisador”.
Jogou lama nos outros candidatos. Não temos procuração para defendê-los. Sabemos, no entanto, do desconforto causado pela intromissão do indiví­duo alheio ao meio universitário, que – nisto faça-lhe justiça – veio cumprir seu coerente papel, isto é, macular tudo onde coloca suas mãos. Não foi í  toa que Antonio Fagundes lhe chamou de “corvo”.
Por isso, nosso candidato colocou, na sua proposta de trabalho uma maior articulação com o ensino do primeiro grau. Para que elementos despreparados, como o obtuso pesquisador (?), “travestido de Che Guevara”, possa ganhar mais luzes. Para que seu espí­rito possa entender que não é visitando latrinas que se faz a história da Universidade. Mas “combatendo o bom combate” como dizia o apóstolo São Paulo. Coisa que, de resto, até agora os reitoráveis vinham fazendo. Até que este inoportuno vomitou na festa.
COMITíŠ PRí“ TABAJARA

ATIVIDADES

1. No texto acima estão explí­citas apenas duas das três pessoas gramaticais (quem fala e de quem ou de que se fala).
a) Faça uma lista das palavras ou expressões do texto que remetem í  primeira pessoa gramatical.
b) Infira a quem o texto é dirigido, justificando a sua resposta.
c) Copie, numa primeira coluna, substantivos e pronomes do texto que fazem referência direta ao personagem alvo do texto; e, numa segunda, os adjetivos, locuções adjetivas ou similares, que caracterizam esse personagem.
2. Atribua um sentido coerente aos pontos de interrogação colocados entre parênteses depois de certas palavras do texto.
3. Transcreva algumas expressões do texto que evidenciam uma atitude de valorização positiva do(s) autor(es) perante certas informações por ele(s) veiculadas.
4. Sugira alterações ou substituições que deveriam ser feitas no texto para torná-lo mais “educado”, isto é, valorativamente mais neutro.
5. Sob o ponto de vista estilí­stico, a última frase do segundo parágrafo é uma “frase fragmentária”, que exerce a função de aposto da frase anterior. Transforme-a numa frase sintaticamente independente, fazendo apenas os ajustes indispensáveis.
6. Tanto na primeira quanto na quarta frase do 3º parágrafo há elipse do sujeito.
a) Resgate o sujeito dessas frases.
b) Discuta com seus colegas (ou seu professor) em que contextos pode ser realizada a elipse do sujeito.
7. Aperfeiçoe a seqüência das frases do 3º parágrafo, aproximando as que têm o mesmo sujeito.
8. Reestruture o 4º parágrafo de tal modo que
a) a 2ª frase (fragmentária) se reintegre naquela em que exerce função sintática;
b) a 3ª frase, introduzida pela conjunção coordenativa explicativa “porque”, se reintegre ao perí­odo composto por coordenação do qual faz parte;
c) a estrutura da oração “e ainda passar pelo crivo do vestibular” (situada depois da frase parentética) se ajuste í  estrutura da oração com a qual se liga pela conjunção “e” (exigindo construção paralela);
d) a pontuação fique de acordo com as normas de uso da lí­ngua portuguesa padrão.
9. Para aperfeiçoar seu desempenho na escrita, você ainda pode aproveitar o texto acima para atividades tais como:
a) discutir (ou refletir sobre) a regência do verbo “chamar” , no sentido como é usado no final do 6º parágrafo.
b) corrigir a pontuação de todo o texto;
c) analisar técnicas de construção e uso da frase fragmentária (observando a sua ocorrência no texto acima, sobretudo no último parágrafo e comparando-a com a ocorrência em outros textos).

XXXVII – TEXTO: LIBIDO – Entrada franca (reprodução aproximada)

(Abaixo de um clichê de Sandra Lindo, fotografada de um í¢ngulo frente-lateral, apoiada no piso sobre as mãos espalmadas e os joelhos, cabeça erguida olhando em direção ao espectador, pose que destaca suas “curvas”, encontra-se a seguinte legenda:)

A modelo carioca Sandra Lindo: as curvas mais perigosas da Linha Vermelha

LIBIDO
….
E n t r a d a f r a n c a

Modelos nuas provocam furor em
rua e praia do Rio de Janeiro

Traficantes, assassinos e seqüestradores que se tranqüilizem. Os soldados do 18º Batalhão de Polí­cia Militar, sediado no bairro carioca de Jacarepaguá, elegeram outro adversário muito mais agradável: modelos profissionais. O primeiro caso aconteceu com Cristina Mortágua, na sexta-feira, 23, quando a modelo era fotografada como veio ao mundo, para a revista Interview, numa praia pouco freqüentada na Barra da Tijuca. Depois de ser impedida pelos policiais de Jacarepaguá de continuar a sessão de fotos, Cristina só escapou de ser presa porque rachou Cr$ 5 milhões de seu cachê com os vigilantes da moral, segundo denunciou.
Na quinta-feira, 29, outro integrante do 18º Batalhão, o tenente-coronel Carlos Abel Costa, resolveu castigar a nudez de Sandra Lindo, que era fotografada sobre a armação metálica da Linha Vermelha. “Ela estava causando retenção no tráfego”, justificou-se o policial, tentando afastar a pecha de moralista. Sandra Lindo explicou, na delegacia, que produzia fotos promocionais para a peça, de sua autoria, Cristiane F., 29 anos, ainda drogada, ainda prostituí­da. “Eu estava fazendo meu trabalho, não queria chamar atenção”, defendeu-se ela. Ao fim do episódio, mais í  vontade, o tenente-coronel reconheceu a beleza da moça. “Ainda mais sem roupa”, completou.
(Revista “Isto é” n.º 1231, de 5/5/93, p. 18 – Seção “A Semana”)

ATIVIDADES

1. Complete:
a) Os dois fatos relatados exemplificam a seguinte tese implí­cita no texto: _______________
b) O tom irônico dos relatos pode ser comprovado por passagens do texto, tais como: _________.
2. A frase inicial do texto resulta mais de um ato de fala exclamativo do que declarativo. Estruture a mesma frase de forma declarativa: __________________
3. Ao usar a palavra “denunciou”, no final do 1º parágrafo, o autor atribuiu a Cristina Mortágua uma atitude de reprovação frente ao ato praticado pelos policiais e de justificação da atitude da modelo. Se tivesse usado a palavra ______, o autor teria mantido maior dose de neutralidade em relação a esse fato.
4. Transforme a legenda referente í  foto de Sandra Lindo em frase ou frases verbais. (“A modelo carioca Sandra Lindo: as curvas mais perigosas da Linha Vermelha”).
5. Use discurso direto para reestruturar a seguinte frase, fazendo as adaptações necessárias: “Depois de ser impedida pelos policiais de Jacarepaguá de continuar a sessão de fotos, Cristina só escapou de ser presa porque rachou Cr$ 5 milhões de seu cachê com os vigilantes da moral, segundo denunciou.” (última frase do 1º parágrafo)
6. Nominalize as orações em negrito dos seguintes perí­odos: (Cuidado: As frases resultantes da nominalização devem ser gramaticalmente corretas.)
a) “Modelos nuas provocam furor em rua e praia do Rio de Janeiro.” (Subtí­tulo do 1º texto)
b) “Depois de ser impedida pelos policiais de Jacarepaguá de continuar a sessão de fotos, Cristina só escapou de ser presa porque rachou Cr$ 5 milhões de seu cachê com os vigilantes da moral, segundo denunciou.” (íšltima frase do 1º parágrafo)
7. Faça duas novas versões para a seguinte frase, enfatizando primeiro o sujeito e, depois, o objeto direto: “Ela estava causando retenção de tráfego.” (Frase pronunciada pelo tenente-coronel Carlos Abel Costa.)
8. De acordo com as regras ortográficas da Lí­ngua Portuguesa em uso no Brasil (um pouco diferentes das de Portugal), deve ser usado o trema em certos ditongos crescentes. Entretanto, no texto acima, a revista Isto é deixou passar esse uso em brancas nuvens. Revise o texto, usando o trema de acordo com as regras ortográficas.

XXXVIII – TEXTO
A I D S

Outro ponto fraco

Estudos mostram que o ví­rus
HIV também ataca o miocárdio

O ví­rus HIV, causador da Aids, também afeta o coração. í‰ o que comprovam dois estudos, pioneiros no Paí­s, feitos com pacientes do hospital Gafrée e Guinle, no Rio. No primeiro, realizado pela médica Maria do Carmo Valente Castro com 25 pessoas contaminadas com o HIV, constatou-se que dez delas, ou 40% do total, tinham lesão no miocárdio, o músculo do coração. Seis delas morreram em conseqüência de problemas cardí­acos. Outro trabalho, liderado pela imunologista pediatra Norma Rubini com 30 crianças doentes e assintomáticas, mostrou que quatro sofriam de cardiopatias provocadas pelo HIV. “Para conseguir resultados precisos, precisarí­amos fazer biópsias em doentes vivos, algo arriscado”, explica o chefe da décima enfermaria do hospital, Carlos Alberto Moraes de Sá. O AZT, de acordo com Moraes de Sá, mostrou-se eficiente na missão de estacionar o desenvolvimento das lesões no miocárdio provocadas pelo HIV.

(O texto acima é complementado por um quadro em que, além do tí­tulo, subtí­tulo e das frases transcritas abaixo, mostra a anatomia do coração humano sob a forma de desenho. Nele estão destacadas três partes numeradas, correspondentes í s legendas abaixo, igualmente numeradas):

CORAí‡íƒO MINADO

Como o ví­rus da Aids provoca insuficiência cardí­aca

1. Os ví­rus se alojam entre as fibras do miocárdio, o músculo cardí­aco, e provocam inflamações.

2. Essas inflamações dificultam o funcionamento do miocárdio, que fica com suas funções reduzidas. O quadro é chamado de insuficiência cardí­aca.

3. As conseqüências da presença dos ví­rus no miocárdio são sentidas no pulmão. Isso faz com que o problema seja confundido, algumas vezes, com tuberculose ou pneumocistose (um tipo de pneumonia), doenças comuns em pacientes com Aids.

ATIVIDADES
1. Divida a parte exclusivamente verbal do texto (1º parágrafo) nas seguintes partes, justificando essa divisão: (a) introdução; (b) 1ª parte do desenvolvimento; (c) 2ª parte do desenvolvimento; (d) conclusão.
2. Complete: “No primeiro ___________, realizado pela médica Maria do Carmo Valente Castro com 25 pessoas contaminadas com o HIV, constatou-se que dez delas, ou 40% do total, tinham lesão no miocárdio, o músculo do coração.”
3. Transforme o enunciado seguinte de tal maneira que se torne uma construção paralela com a do enunciado anterior (item 2): “Outro trabalho, liderado pela imunologista pediatra Norma Rubini com 30 crianças doentes e assintomáticas, mostrou que quatro sofriam de cardiopatias provocadas pelo HIV.”
4. Sem se desviar das regras da lí­ngua portuguesa padrão, passe as frases abaixo para a ordem inversa:
a) “Seis delas morreram em conseqüência de problemas cardí­acos.”
b) “O AZT, de acordo com Moraes de Sá, mostrou-se eficiente na missão de estacionar o desenvolvimento das lesões no miocárdio provocadas pelo HIV.”
5. No seguinte perí­odo, nominalize a primeira oração, fazendo as adaptações necessárias na segunda:
“Os ví­rus se alojam entre as fibras do miocárdio, o músculo cardí­aco, e provocam inflamações.” (Primeira frase do “quadro”).
6. Observe que, na seguinte frase (terceira frase) do texto, a primeira oração subordinada indica, também, o agente da ação expressa pela principal: “No primeiro, realizado pela médica Maria do Carmo Valente Castro, com 25 pessoas contaminadas com o HIV, constatou-se que dez delas, ou 40% do total, tinham lesão no miocárdio, o músculo do coração.” Mesmo assim, a voz passiva sintética do verbo principal impessoaliza esse agente. Sem alterar o sentido literal, reestruture todo o perí­odo, eliminando a impessoalização.
7. Conecte e adapte as frases transcritas de modo que formem um só perí­odo: “As conseqüências da presença dos ví­rus no miocárdio são sentidas no pulmão. Isso faz com que o problema seja confundido, algumas vezes, com tuberculose ou pneumocistose (um tipo de pneumonia), doenças comuns em pacientes com Aids.” (íšltima frase do “quadro”)
8. Pesquise e explique, através da análise (análise mórfica), o sentido das seguintes palavras do texto: miocárdio, imunologista, assintomáticas, cardiopatias, biópsias, pneumocistose.

XXXIX – TEXTO: Paí­s já foi potência sul-americana

ATIVIDADES

1. Numere as partes do texto abaixo de tal modo que o texto, como um todo, fique organizado em seqüência cronológica e lógica.

Paí­s já foi potência sul-americana
Hamí­lton Almeida

( ) Com menos da metade da população do Rio Grande do Sul e um Produto Interno Bruto (PIB) oito vezes menor, o Paraguai, quem diria, já foi uma potência da América do Sul. Hoje com uma população próxima de 4 milhões de habitantes e um PIB da ordem de US$ 4,7 bilhões, o Paraguai exibe grandes espaços vazios. Sua área é cerca de 50% maior que a de nosso Estado e a maior parte das suas atividades econômicas não aparece nos indicadores oficiais: o contrabando e o tráfico de drogas empregam mais de 30% da população economicamente ativa e geram 60% dos negócios locais.

( ) O Paraguai do final do século XX é um arremedo da nação que se desenhava na segunda metade do século passado. Quando se fala, atualmente, em indústria paraguaia, é comum ouvir risos. Ou logo alguém imagina tratar-se de mais uma oficina de falsificação.

( ) Mas em meados do século XIX, o Paraguai possuí­a uma base industrial de causar inveja: pólvora, munição e peças de artilharia; trilhos de trem, tecidos, papel, tinta e até navios. O Paraguai era a verdadeira “ilha da prosperidade” na América do Sul: não tinha analfabetos (hoje eles somam 12% da população) nem dí­vidas com a Inglaterra.

( ) A auto-suficiência paraguaia desgostou, obviamente, os interesses imperialistas brití¢nicos. Aproveitando-se das rivalidades fronteiriças existentes, os ingleses financiaram e armaram o Brasil, segundo o historiador Luiz Roberto Lopez, para destruir o projeto nacionalista paraguaio.

( ) MASSACRE – A Argentina, o Uruguai e o Brasil formaram a Trí­plice Aliança e esmagaram a potência emergente. A Guerra do Paraguai transcorreu de 1865 a 1870 e foi apresentada í  opinião pública como uma luta justa contra um tirano sanguinário – Francisco Solano Lopez.

( ) O massacre foi de tal ordem que 300 mil paraguaios morreram. A Guerra do Paraguai é, até hoje, o maior conflito já travado na América do Sul. Assim, o próspero Paraguai tornou-se tão ou mais pobre que o Haiti. Com o fim da guerra, o poder no Paraguai passou í s oligarquias; solicitaram empréstimos í  Inglaterra e uma geração de í­ndios miseráveis e incultos sucedeu a uma geração inteira exterminada nos campos de batalha.

( ) Um século depois, quando a América do Sul se afunda na maior crise econômica da sua história, é o Paraguai que, ironicamente, apresenta a maior taxa de crescimento do PIB. No perí­odo de 1981-1990, o PIB do Paraguai evoluiu 36%, segundo estimativas da CEPAL. O Brasil cresceu 17% no mesmo perí­odo, enquanto a Argentina e o Uruguai caí­ram: 13% e 0,9%, respectivamente.

( ) O Paraguai foi descoberto por Sebastião Caboto em 1530. Juan de Ayolas fundou Assunção (1539), o primeiro centro de população espanhola no Rio da Prata. O paí­s era ocupado por í­ndios guaranis que não ofereceram resistência forte aos conquistadores. Os jesuí­tas colonizaram o paí­s até 1767, quando foram expulsos. O Paraguai foi, então, incorporado ao Vice-Reino de Buenos Aires.

( ) Do antigo vice-reino do Prata saí­ram três repúblicas: Argentina, Paraguai e Uruguai. O Paraguai foi o primeiro a se declarar independente, em 1810.

(Quadro da reportagem “O PARAGUAI BUSCA DESENVOLVIMENTO” – Zero Hora – Caderno de Economia, p. 8 – 31.03.91)
RESPOSTAS DA ATIVIDADE N. 1: 8, 7, 3, 4, 5, 6, 9, 1, 2.

2. Reescreva o texto “Paí­s já foi potência sul-americana”, de Hamí­lton Almeida, em ordem cronológica e lógica, eliminando os elementos supérfluos (para esta versão), e acrescentando conetivos adequados entre as partes da nova seqüência.

REALIZAí‡íƒO DA ATIVIDADE N. 2:

Paí­s já foi potência sul-americana
Hamí­lton Almeida

(1) O Paraguai foi descoberto por Sebastião Caboto em 1530. Juan de Ayolas fundou Assunção (1539), o primeiro centro de população espanhola no Rio da Prata. O paí­s era ocupado por í­ndios guaranis que não ofereceram resistência forte aos conquistadores. Os jesuí­tas colonizaram o paí­s até 1767, quando foram expulsos. O Paraguai foi, então, incorporado ao Vice-Reino de Buenos Aires.

(2) Do antigo vice-reino do Prata saí­ram três repúblicas: Argentina, Paraguai e Uruguai. O Paraguai foi o primeiro a se declarar independente, em 1810.
(3) (Mas) Em meados do século XIX, o Paraguai possuí­a uma base industrial de causar inveja: pólvora, munição e peças de artilharia; trilhos de trem, tecidos, papel, tinta e até navios. O Paraguai era a verdadeira “ilha da prosperidade” na América do Sul: não tinha analfabetos (hoje eles somam 12% da população) nem dí­vidas com a Inglaterra.

(4) A auto-suficiência paraguaia desgostou, obviamente, os interesses imperialistas brití¢nicos. Aproveitando-se das rivalidades fronteiriças existentes, os ingleses financiaram e armaram o Brasil, segundo o historiador Luiz Roberto Lopez, para destruir o projeto nacionalista paraguaio.

(5) MASSACRE – A Argentina, o Uruguai e o Brasil formaram a Trí­plice Aliança e esmagaram a potência emergente. A Guerra do Paraguai transcorreu de 1865 a 1870 e foi apresentada í  opinião pública como uma luta justa contra um tirano sanguinário – Francisco Solano Lopez.

(6) O massacre foi de tal ordem que 300 mil paraguaios morreram. A Guerra do Paraguai é, até hoje, o maior conflito já travado na América do Sul. Assim, o próspero Paraguai tornou-se tão ou mais pobre que o Haiti. Com o fim da guerra, o poder no Paraguai passou í s oligarquias; solicitaram empréstimos í  Inglaterra e uma geração de í­ndios miseráveis e incultos sucedeu a uma geração inteira exterminada nos campos de batalha.

(7) O Paraguai do final do século XX é um arremedo da nação que se desenhava na segunda metade do século passado. Quando se fala, atualmente, em indústria paraguaia, é comum ouvir risos. Ou logo alguém imagina tratar-se de mais uma oficina de falsificação.
(8) (Com menos da metade da população do Rio Grande do Sul e um Produto Interno Bruto (PIB) oito vezes menor, o Paraguai, quem diria, já foi uma potência da América do Sul.) Hoje com uma população próxima de 4 milhões de habitantes e um PIB da ordem de US$ 4,7 bilhões, o Paraguai exibe grandes espaços vazios. Sua área é cerca de 50% maior que a de nosso Estado e a maior parte das suas atividades econômicas não aparece nos indicadores oficiais: o contrabando e o tráfico de drogas empregam mais de 30% da população economicamente ativa e geram 60% dos negócios locais.
(9) Mesmo assim, um século depois (do massacre), quando a América do Sul se afunda na maior crise econômica da sua história, é o Paraguai que, ironicamente, apresenta a maior taxa de crescimento do PIB. No perí­odo de 1981-1990, o PIB do Paraguai evoluiu 36%, segundo estimativas da CEPAL. O Brasil cresceu 17% no mesmo perí­odo, enquanto a Argentina e o Uruguai caí­ram: 13% e 0,9%, respectivamente.

Paí­s já foi potência sul-americana
(Versão copiada do original)
Hamí­lton Almeida

Com menos da metade da população do Rio Grande do Sul e um Produto Interno Bruto (PIB) oito vezes menor, o Paraguai, quem diria, já foi uma potência da América do Sul. Hoje com uma população próxima de 4 milhões de habitantes e um PIB da ordem de US$ 4,7 bilhões, o Paraguai exibe grandes espaços vazios. Sua área é cerca de 50% maior que a de nosso Estado e a maior parte das suas atividades econômicas não aparece nos indicadores oficiais: o contrabando e o tráfico de drogas empregam mais de 30% da população economicamente ativa e geram 60% dos negócios locais.

O Paraguai do final do século XX é um arremedo da nação que se desenhava na segunda metade do século passado. Quando se fala, atualmente, em indústria paraguaia, é comum ouvir risos. Ou logo alguém imagina tratar-se de mais uma oficina de falsificação. Mas em meados do século XIX, o Paraguai possuí­a uma base industrial de causar inveja: pólvora, munição e peças de artilharia; trilhos de trem, tecidos, papel, tinta e ate navios. O Paraguai era a verdadeira “ilha da prosperidade” na América do Sul: não tinha analfabetos (hoje eles somam 12% da população) nem dividas com a Inglaterra.

A auto-suficiência paraguaia desgostou, obviamente, os interesses imperialistas brití¢nicos. Aproveitando-se das rivalidades fronteiriças existentes, os ingleses financiaram e armaram o Brasil, segundo o historiador Luiz Roberto Lopez, para destruir o projeto nacionalista paraguaio.

MASSACRE – A Argentina, o Uruguai e o Brasil formaram a Trí­plice Aliança e esmagaram a potência emergente. A Guerra do Paraguai transcorreu de 1865 a 187O e foi apresentada í  opinião pública como uma luta justa contra um tirano sanguinário – Francisco Solano Lopez.

O massacre foi de tal ordem que 3OO mil paraguaios morreram. A Guerra do Paraguai é, até hoje, o maior conflito já travado na América do Sul. Assim, o próspero Paraguai tornou-se tão ou mais pobre que o Haiti. Com o fim da guerra, o poder no Paraguai passou í s oligarquias; solicitaram empréstimos í  Inglaterra e uma geração de í­ndios miseráveis e incultos sucedeu a uma geração inteira exterminada nos campos de batalha.

Um século depois, quando a América do Sul se afunda na maior crise econômica da sua história, é o Paraguai que, ironicamente, apresenta a maior taxa de crescimento do PIB. No perí­odo de 1981-199O, o PIB do Paraguai evoluiu 36%, segundo estimativas da CEPAL. O Brasil cresceu 17% no mesmo perí­odo, enquanto a Argentina e o Uruguai caí­ram: 13% e O,9%, respectivamente.

O Paraguai foi descoberto por Sebastião Caboto em 153O. Juan de Ayolas fundou Assunção (1539), o primeiro centro de população espanhola no Rio da Prata. O paí­s era ocupado por í­ndios guaranis que não ofereceram resistência forte aos conquistadores. Os jesuí­tas colonizaram o paí­s até 1767, quando foram expulsos. O Paraguai foi, então, incorporado ao Vice-Reino de Buenos Aires.

Do antigo vice-reino do Prata saí­ram três repúblicas: Argentina, Paraguai e Uruguai. O Paraguai foi o primeiro a se declarar independente, em 181O.
(Quadro da reportagem “O PARAGUAI BUSCA DESENVOLVIMENTO” – Zero Hora – Caderno de Economia, p. 8 – 31.O3.91)
3. Tendo em conta a versão original do texto, responda:
Em relação í  guerra do Paraguai, Hamí­lton Almeida (autor do texto) manifestou-se
( ) a favor ; ( ) contra. Justifique a sua resposta com provas extraí­das do texto: ________________.
4. Modalize
a) o tí­tulo do texto, através de metáfora temporal;
b) a primeira frase do 2º parágrafo, através de outro recurso de modalização.
5. Para “ignorar” ou “mascarar” ações condenáveis, o autor, seguidamente, recorre í  impessoalização. Que recursos o autor utilizou na impessoalização das duas orações abaixo?
a) “…. e foi apresentada í  opinião pública como uma luta justa contra um tirano sanguinário – Francisco Solano Lopez.” (Veja o final do 4º parágrafo)
b) “O massacre foi de tal ordem que 300 mil paraguaios morreram.” (Veja a primeira frase do 5º parágrafo)
6. Pessoalize a segunda e a terceira frases do 2º parágrafo (“Quando se fala …. ouvir risos.” “Ou logo …. falsificação):
a) _______________________ b) _______________________
7. A primeira frase do 4º parágrafo (“A Argentina…. emergente”) é um perí­odo composto por coordenação. Transforme-o em perí­odo simples, mantendo o sentido original. Para tanto, você pode nominalizar as duas orações (coordenadas) e usar o verbo “ocorrer” como verbo principal (de sentido neutro), além de usar um conetivo para introduzir a primeira parte do perí­odo.
8. Classifique as relações lógico-semí¢nticas ou discursivas existentes entre as proposições (separadas por X) apresentadas na segunda parte desta questão de acordo com as indicações apresentadas na primeira. (Atenção: í‰ possí­vel que haja itens que não se enquadrem nas relações lógicas ou discursivas listadas. Se for o caso, deixe os respectivos parênteses em branco.)
(1) Disjunção/alterní¢ncia (2) Temporalidade
(3) Conformidade (4) Modo
(5) Condição (6) Finalidade/mediação
(7) Causalidade (8) Adição/conjunção
(9) Oposição (1O) Contraste
(11) Conclusão (12) Explicação/justificativa
(13) Comprovação (14) Generalização/extensão
(15) Especificação/exemplificação (16) Comparação
(17) Correção/redefinição
( ) … a maior parte das suas atividades econômicas não aparece nos indicadores oficiais: X o contrabando e o tráfico de drogas empregam mais de 30% da população economicamente ativa e geram 60% dos negócios locais. (Ver final do 1º parágrafo)
( ) Quando se fala, atualmente, em indústria paraguaia, X é comum ouvir risos. (2º perí­odo do 2º parágrafo)
( ) “Aproveitando-se das rivalidades fronteiriças existentes, X os ingleses financiaram e armaram o Brasil (…).” (Ver segunda frase do 3º parágrafo)
( ) “(….)os ingleses financiaram e armaram o Brasil (….), X para destruir o projeto nacionalista paraguaio.” (Ver final do 3º parágrafo.)
( ) “(…) e foi apresentada í  opinião pública X como uma luta justa contra um tirano sanguinário (…)” (Ver final do 4º parágrafo)
( ) “O massacre foi de tal ordem X que 300 mil paraguaios morreram.”
(Iní­cio do 5º parágrafo)
( ) “Assim, o próspero Paraguai tornou-se tão ou mais pobre X que o Haiti.” (Terceira frase do 5º parágrafo)
( ) “No perí­odo 1981-1990, o PIB do Paraguai evoluiu 36%, X segundo estimativas da Cepal.” (Segunda frase do 6º perí­odo).
( ) “O Brasil cresceu 17% no mesmo perí­odo, X enquanto …. respectivamente.” (íšltima frase do 6º perí­odo.)
( ) “O paí­s era ocupado por í­ndios guaranis X que não ofereceram resistência forte aos conquistadores.” Segunda frase do 7º parágrafo).

XL – NOTíCIA – UMA PROPOSTA DE ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM

Introdução
Entre os diferentes tipos de texto que encontramos no nosso dia-a-dia, destaca-se a notí­cia.
O “Aurélio”, entre outros conceitos, atribui í  palavra notí­cia o seguinte significado: “3. Resumo de um acontecimento. 4. Escrito ou exposição sucinta de um assunto qualquer.” (FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Lí­ngua Portuguesa. 1ª ed., 15ª impressão. Rio: Nova Fronteira, s/d. p.979).
O Jornal “A Razão”, na primeira página do caderno “A Razão de Ler” de 10.11/10/98 (sábado/domingo), além de ilustrar com fotos uma explicação da “notí­cia em quatro quadros”, apresenta a seguinte orientação para a sua elaboração:
Para escrever um bom texto, o repórter precisa responder pelo menos a seis perguntas abaixo:

O que?
í‰ a explicação propriamente dita do fato que vai ser contado, logo no primeiro parágrafo. Exemplo: “Uma chuva forte atingiu ontem í  tarde Santa Maria, provocando estragos em dezenas de casas. O Corpo de Bombeiros agiu rapidamente e resgatou quatro pessoas de uma mesma famí­lia, que estavam debaixo dos escombros de sua casa, no bairro Jardim. O serviço de meteorologia avisou que o mau tempo foi provocado pela chegada de uma frente fria vinda do Sul.” Quem?
í‰ contar, preferencialmente também no primeiro parágrafo, os personagens envolvidos na história. Exemplo: “Uma chuva forte atingiu ontem í  tarde Santa Maria, provocando estragos em dezenas de casas. O Corpo de Bombeiros agiu rapidamente e resgatou quatro pessoas de uma mesma famí­lia, que estavam debaixo dos escombros de sua casa, no bairro Jardim. O serviço de meteorologia avisou que o mau tempo foi provocado pela chegada de uma frente fria vinda do Sul.” Quando?
Em geral, os fatos retratados na edição ocorreram no dia anterior e são chamados de factuais. Exemplo: “Uma chuva forte atingiu ontem í  tarde Santa Maria, provocando estragos em dezenas de casas. O Corpo de Bombeiros agiu rapidamente e resgatou quatro pessoas de uma mesma famí­lia, que estavam debaixo dos escombros de sua casa, no bairro Jardim. O serviço de meteorologia avisou que o mau tempo foi provocado pela chegada de uma frente fria vinda do Sul.” Onde?
Significa situar o leitor geograficamente, para que ele possa compreender melhor o impacto do fato narrado. Exemplo: “Uma chuva forte atingiu ontem í  tarde Santa Maria, provocando estragos em dezenas de casas. O Corpo de Bombeiros agiu rapidamente e resgatou quatro pessoas de uma mesma famí­lia, que estavam debaixo dos escombros de sua casa, no bairro Jardim. O serviço de meteorologia avisou que o mau tempo foi provocado pela chegada de uma frente fria vinda do Sul.” Como?
í‰ dizer de que forma o fato aconteceu, contando suas principais caracterí­sticas. Exemplo: “Uma chuva forte atingiu ontem í  tarde Santa Maria, provocando estragos em dezenas de casas. O Corpo de Bombeiros agiu rapidamente e resgatou quatro pessoas de uma mesma famí­lia, que estavam debaixo dos escombros de sua casa, no bairro Jardim. O serviço de meteorologia avisou que o mau tempo foi provocado pela chegada de uma frente fria vinda do Sul.” Por quê?
A própria pergunta diz tudo: é narrar a origem do fato, com o motivo principal e seus detalhes. “Uma chuva forte atingiu ontem í  tarde Santa Maria, provocando estragos em dezenas de casas. O Corpo de Bombeiros agiu rapidamente e resgatou quatro pessoas de uma mesma famí­lia, que estavam debaixo dos escombros de sua casa, no bairro Jardim. O serviço de meteorologia avisou que o mau tempo foi provocado pela chegada de uma frente fria vinda do Sul.”

Atividades de aprofundamento teórico:
1. Mencione alguns fatos da atualidade que NíƒO foram notí­cias.
2. Responda, depois de refletir sobre o assunto:
a) Quem seleciona os fatos que serão notí­cias?
b) Quais são os critérios para essa seleção?
c) Quais são os critérios que você adotaria?
3. Para construir um conhecimento mais sólido sobre a transformação de fatos em notí­cias, discuta as respostas do item 2 com seus colegas e o(a) professor(a).

Carro cai no Cadena
Três pessoas ficaram feridas em um acidente ocorrido na avenida Walter Jobim por volta da 1h da madrugada de ontem. Segundo informações da Brigada Militar, o Kadett, placas IGF 6906, caiu no Arroio Cadena quando ia no sentido Bairro – Centro.
O condutor do veí­culo, Heron Dutra Pessanha, 19 anos, perdeu o controle do automóvel, bateu na mureta da ponte e depois caiu no Cadena. O motorista teve escoreações e outras passageiras: Diulhei Dutra Pessanha, 17 anos, fraturou os braços e Bárbara Borges Veleda, 14 anos, também teve escoreações.
Os três foram atendidos no Hospital de Caridade e até a tarde de ontem continuavam internados.

Observação: No jornal, a notí­cia acima é precedida por uma foto, abaixo da qual se lê: “Veí­culo bateu na mureta da ponte e depois caiu no Arroio Cadena.”
(Fonte: Jornal “A Razão” de Santa Maria – Seção “Polí­cia”, p. 19 – Terça-feira, 13/10/98.)

ATIVIDADES

1. Identifique cada um dos elementos da notí­cia no texto “Carro cai no Cadena”.
2. Enriqueça seus recursos expressivos, substituindo os termos indicados por outros equivalentes (portanto, sem prejuí­zo do sentido básico do texto):
a) ficaram feridas (1ª linha): ____________________________
b) quando ia (3ª linha): ________________
3. Reconstrua o 2º perí­odo do texto de tal modo que o sujeito da oração principal seja “a Brigada Militar”.
4. Identifique o núcleo do sujeito da 1ª oração do 2º parágrafo. Reconstrua, depois, a mesma oração selecionando outro núcleo do sujeito e avalie a diferença de sentido provocada pela mudança.
5. Identifique o sujeito dos predicados “bateu na mureta da ponte e depois caiu no Cadena” (1º perí­odo do 2º parágrafo). Reconstrua, depois, todo o perí­odo orientando-se pelas regras de uso da elipse do sujeito. (Em que contextos pode-se fazer a elipse do sujeito?)
6. Caracterize/descreva os desvios sintáticos (os problemas de construção) da 2ª frase do 2º parágrafo. Reconstrua essa frase corrigindo os problemas encontrados (inclusive um de ortografia).
7. Considere a última frase do texto para responder:
a) Por que o uso do masculino – “Os três” – na retomada dos sujeitos das orações anteriores?
b) Quem foi que atendeu os três feridos? (Será que o agente da passiva, sob o ponto de vista sintático, é mesmo um termo integrante? E, sob o ponto de vista semí¢ntico ou pragmático, é sempre relevante?)
c) Que tipo de verbo é “continuavam”, na última oração? Qual é a relação de certos verbos auxiliares (ou de ligação) com a duração de ações, estados ou fenômenos?

Polí­cia investiga acidente com draga

O Delegado Cesar Renan Rodrigues dos Santos, titular da delegacia do 4º Distrito Policial, em Camobi, está instruindo inqu-érito* para apurar as circunstí¢nci-as* da morte do operário Cézar Augusto Vinques, de 39 anos, que por volta das 12h30min do dia 13 de junho, quando trabalhava na extração de areia para a firma A. Stangarlin, na altura do quilômetro 12 da rodovia BR 392, localidade de Passo do Arenal, foi sugado pelo cardan de uma draga tipo artesanal.
Segundo registro feito no mesmo dia, no Centro de Operações da Polí­cia Civil, por José Alberto Stangarlin, irmão do patrão da ví­tima, Airton Antônio Stangarlin, trata-se de um acidente de trabalho. Cézar, que trabalhava sozinho, vestia um macacão que enroscou no cardan da máquina. Com isso morreu trágicamente, pois perdeu a tampa da cabeça, parte do abdome que foi seccionado na região umbilical, perdendo também todo o braço esquerdo, amputado na altura do ombro; o antebraço direito e as pernas.
O trabalho policial se resume em apurar se houve ou não culpa de alguém pela morte do operário. í‰ investigada as condições de trabalho, possibilidade de negligência do patrão ou imprudência da ví­tima. Uma fotografia juntada aos autos mostra que o cardan estaca** exposto. Para feitura de prova o delegado Renan vai solicitar nos próximos dias a presença, em Santa Maria, de técnicos do Instituto de Criminalí­stica de Porto Alegre, que irão examinar a draga. Cézar Augusto era casado e pai de quatro filhos. (Neuzimar Pacheco).

Observação: O original do texto acima está acompanhado de uma foto – busto do delegado – abaixo da qual se encontra a seguinte legenda: “Delegado Cesar Renan quer perí­cia do IC”
(Fonte: Jornal “A Razão” de Santa Maria – Seção “Polí­cia”, p. 19 – Terça-feira, 13/10/98.)
____________________
* Separação silábica adotada no texto original para fazer a translineação.
** Transcrição fiel do texto original.

ATIVIDADES
1. Complete: O assunto/tema do texto é _________. As provas de que esse é o assunto/tema são as seguintes: ______________.
2. Analisando o texto í  luz das seis perguntas propostas pelo jornal “A Razão” para a elaboração de um bom texto jornalí­stico (ver a “introdução” das atividades referentes ao texto anterior), conclui-se que o texto “Polí­cia investiga acidente com draga” não responde explicitamente í (s) seguinte(s) pergunta(s):¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬ _________________________________.
3. Com base na constatação da questão anterior, discuta com o professor e os colegas: Quando o(s) elemento(s) de narração identificado(s) na atividade 2 pode(m) ser implí­cito(s) e quando deve(m) ser explí­cito(s)? ___________________________.
4. Com base nas normas de uso da lí­ngua portuguesa padrão, classifique e corrija problemas de desempenho na escrita do texto, conforme as indicações seguintes:
a) Ortografia (incluindo separação silábica e acentuação): _______________________
b) Pontuação: ________________________________
c) Concordí¢ncia: ________________________________
5. Reescreva o final do 1º parágrafo aperfeiçoando o texto quanto í  localização do acidente. ________________________________________.
6. Interpretando corretamente os apostos da 1ª frase do 2º parágrafo, responda:
a) Quem é José Alberto Stangarlin? ______________________
b) Quem é Airton Antônio Stangarlin? ____________________
c) Como poderia ser estruturado o mesmo enunciado para tornar seu conteúdo mais claro? _______________________
7. De acordo com a informação da última frase do 2º parágrafo, quais são as partes do corpo que o operário César Augusto Vinques perdeu? __________________
8. Qual seria uma classificação sintática plausí­vel para a oração reduzida de gerúndio (“perdendo…”) no final do 2º parágrafo? ________________
9. Reconstrua o último perí­odo do 2º parágrafo tornando-o mais claro e gramaticalmente correto.
10. Descubra uma localização (um enquadramento) mais adequada para a última frase do texto.

Cesta Básica terá três litros de leite longa vida
Brasí­lia – A partir de novembro, a cesta básica do governo para as famí­lias atingidas pela seca do Nordeste, Norte de Minas e Norte do Espí­rito Santo passará a contar com três litros de leite longa vida para cada famí­lia. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) lançará já na próxima semana o edital para a compra de 6,5 milhões de litros de leite que serão destinados ao programa.
A distribuição vai atingir 892 municí­pios que estão em situação de emergência, selecionados pela Sudene. Para os demais municí­pios atingidos pela seca, o Conselho Executivo do Programa de Distribuição de Alimentos deverá definir nos próximos dias a inclusão na cesta básica do leite em pó.
A distribuição do leite, segundo o presidente da Conab, Eugênio Stefanelo, além de ajudar as famí­lias carentes do Nordeste vai contribuir com a pecuária leiteira nacional.
(Fonte: Jornal “A Razão” de Santa Maria – Seção “Economia”, p. 28 – SíBADO/DOMINGO, 10.11/10/98.)

ATIVIDADES
1. Com base no texto, complete: De acordo com o 1º parágrafo, o foco da notí­cia seria a inclusão de três litros de leite “longa vida” na cesta básica das famí­lias atingidas pela seca. Entretanto, o segundo e o terceiro parágrafos contradizem esse foco, mudando-o para _______________. Conseqüentemente, a manchete da notí­cia poderia ser: __________________________.
2. Comparando os assuntos dos textos “Carro cai no Cadena” e “Cesta básica terá três litros de leite longa vida”, infere-se que os assuntos de uma notí­cia podem referir-se tanto a um tempo _________ quanto a um tempo __________.
3. Reconstrua a 2ª frase do texto transformando o substantivo “compra” em verbo, explicando as diferenças sintáticas provocadas por essa transformação.
4. Identifique problemas ou alternativas referentes ao uso da ví­rgula em todo o texto, propondo e justificando modificações nesse uso.
5. Desloque o complemento nominal da 2ª frase do 2º parágrafo de tal sorte que fique ao lado do nome que o exige. (Observe, também, a contribuição desse deslocamento para a clareza do enunciado.)
6. Coordene as orações do último parágrafo usando a conjunção “e” e explique as diferenças estruturais e as diferenças de sentido provocadas por essa mudança.

Os jornais
Rubem Braga
Meu amigo lança fora, alegremente, o jornal que está lendo e diz:
- Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças? Não! Os jornais é que falsificam a imagem do mundo. Veja por exemplo aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traí­a. Eu não afirmo que isso seja mentira. Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que noticia. O jornal quer fatos que sejam notí­cias, que tenham conteúdo jornalí­stico. Vejamos a história desse crime: “Durante os três primeiros anos o casal viveu imensamente feliz…” Você sabia disso? O jornal nunca publica uma nota assim:
“Anteontem, cerca de 21 horas, na rua Arlinda, no Méier, o sapateiro Augusto Ramos, de 28 anos, casado com a senhora Deolinda Brito Ramos, de 23 anos de idade, aproveitou-se de um momento em que sua consorte erguia os braços para segurar uma lí¢mpada para abraçá-la alegremente, dando-lhe beijos na garganta e na face, culminando em um beijo na orelha esquerda. Em vista disso, a senhora em questão voltou-se para o seu marido, beijando-o longamente na boca e murmurando as seguintes palavras: “Meu amor”, ao que ele retorquiu: “Deolinda”. Na manhã seguinte, Augusto Ramos foi visto saindo de sua residência í s 7,45 da manhã, isto é, dez minutos mais tarde do que o habitual, pois demorou, a pedido de sua esposa, para consertar a gaiola de um canário-da-terra de propriedade do casal.”
A impressão que a gente tem, lendo os jornais – continuou meu amigo – é que “lar” é um local destinado principalmente í  prática de “uxoricí­dio”. E dos bares, nem se fala. Imagine isto:
“Ontem, cerca de 1O horas da noite, o indiví­duo Ananias Fonseca, de 28 anos, pedreiro, residente í  rua Chiquinha, sem número, no Encantado, entrou no bar “Flor Mineira”, í  rua Cruzeiro, 524, em companhia de seu colega Pedro Amí¢ncio de Araújo, residente no mesmo endereço. Ambos entregaram-se a fartas libações alcoólicas e já se dispunham a deixar o botequim quando apareceu Joca de tal, de residência ignorada, antigo conhecido dos dois pedreiros, e que também estava visivelmente alcoolizado. Dirigindo-se aos dois amigos, Joca manifestou desejo de sentar-se í  sua mesa, no que foi atendido. Passou então a pedir rodadas de conhaque, sendo servido pelo empregado do botequim, Joaquim Nunes. Depois de várias rodadas, Joca declarou que pagaria toda a despesa. Ananias e Pedro protestaram, alegando que eles já estavam na mesa antes. Joca, entretanto, insistiu, seguindo-se uma disputa entre os três homens, que terminou com a intervenção do referido empregado, que aceitou a nota que Joca lhe estendia. No momento em que trouxe o troco, o garçom recebeu uma boa gorjeta, pelo que ficou contentí­ssimo, o mesmo acontecendo aos três amigos que se retiraram do bar alegremente, cantarolando sambas. Reina a maior paz no subúrbio do Encantado, e a noite foi bastante fresca, tendo dona Maria, sogra do comerciário Adalberto Ferreira, residente í  rua Benedito, 14, senhora que sempre foi muito friorenta, chegado a puxar o cobertor, tendo depois sonhado que seu netinho lhe oferecia um pedaço de goiabada.”
E meu amigo:
- Se um repórter redigir essas duas notas e levá-las a um secretário de redação, será chamado de louco. Porque os jornais noticiam tudo, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida…
Maio, 1951
(ANDRADE, Carlos Drummond de, SABINO, Fernando, CAMPOS, Paulo Mendes, BRAGA, Rubem. Para gostar de ler: crônicas. São Paulo: ítica, 1979-8O. 5 v. p. 46-7)

ATIVIDADES

1. Substitua o tí­tulo por outro que esclareça melhor o tema (ou assunto) do texto. ____________
2. Considerando o texto “Os jornais” como um todo, pode-se afirmar que suas principais caracterí­sticas são de
a) notí­cia.
b) reportagem.
c) conto.
d) crônica.
e) relatório.
3. Por outro lado, considerando o terceiro e o quinto parágrafos como partes isoladas, podemos dizer que apresentam o estilo de
f) notí­cia.
g) reportagem.
h) conto.
i) crônica.
j) relatório.
4. Sublinhe as frases que, no texto, expressam a fala do narrador.
5. Agora responda: A quem devem ser atribuí­das as demais frases do texto? _____________
6. a) Quantos fatos que se transformaram em notí­cias foram mencionados no texto? ______.
b) Quantos foram construí­dos por um dos personagens? ________.
7. Um dos personagens, ao dirigir-se a seu interlocutor, trata este por ________ (tu/você). Marque as palavras do texto que deveriam sofrer alterações se o tratamento fosse invertido. Depois, faça as modificações necessárias (escrevendo-as por cima das linhas).
8. I – Copie, do 2º parágrafo do texto, o tipo de frase que se pede.
a) Declarativa: _____________________________.
b) Interrogativa: ____________________________.
c) Exclamativa: _____________________________.
d) Imperativa: _______________________________.
II – Discuta, com colegas, a seguinte questão: Será que as frases interrogativas do 2º parágrafo têm realmente a função de pergunta? Apresente a conclusão desse questionamento ao professor.
9. Observe a construção da seguinte frase: “Os jornais é que falsificam a imagem do mundo.” (2º parágrafo). Se você excluir a expressão sublinhada, a frase também estará certa. Qual é, então, o sentido de “é que”? Em que outras frases essa expressão pode ser usada? (Responda, consultando alguns colegas e/ou o professor.)
10. a) Marque, no 3º parágrafo, todas as expressões ou palavras que designam a mulher de Augusto Ramos.
b) Em seguida, leia o mesmo parágrafo substituindo as expressões e palavras marcadas por Deolinda.
c) Discuta o resultado dessa substituição com os colegas e o professor.
11. I – Analise as frases abaixo e responda quem realizou as ações designadas pelos verbos sublinhados:
a) “Na manhã seguinte, Augusto Ramos foi visto saindo de sua residência í s 7,45 da manhã …” (íšltima frase do 3º parágrafo): ________________.
b) “Passou então a pedir rodadas de conhaque, sendo servido pelo empregado do botequim, Joaquim Nunes.” (Frase do 5º parágrafo).
II – Com base nas atividades de 11. I, tire alguma lição do uso da Voz Passiva e discuta-a com os colegas e o professor. (Que relação existe entre o agente da passiva indeterminado e o sujeito indeterminado?)
12. Busque o significado da palavra “uxoricí­dio” no texto (4º parágrafo) seguindo as seguintes etapas:
a) Será que é algo positivo ou negativo? ___________
b) Que semelhança essa palavra tem com homicí­dio, genocí­dio, infanticí­dio? ______________.
c) Será que ela deve ser atribuí­da a homens ou a animais? _______________
d) O que poderá significar cada uma das partes (ou morfemas) dessa palavra? ________.
e) Qual é o significado atribuí­do a essa palavra pelo dicionário? ___________________.
13. Lembre-se de que uma notí­cia, para ser bem redigida, deve responder a seis perguntas: O que? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê? Tendo em conta esses elementos, avalie a notí­cia apresentada no 5º parágrafo.
14. Responda: A que conteúdos do texto remetem os seguintes termos?
a) “desse crime” (na antepenúltima linha do 2º parágrafo): _______________________.
b) “assim” (última palavra do 2º parágrafo): ________________________________.
c) “isto” (última palavra do 4º parágrafo): ________________________________.
d) “essas duas notas” (1ª linha do último parágrafo): ________________________.
15. Use seus conhecimentos de análise sintática para resolver as questões abaixo referentes í  seguinte frase:
“Reina a maior paz no subúrbio do Encantado, e a noite foi bastante fresca, tendo dona Maria, sogra do comerciário Adalberto Ferreira, residente í  rua Benedito, 14, senhora que sempre foi muito friorenta, chegado a puxar o cobertor, tendo depois sonhado que seu netinho lhe oferecia um pedaço de goiabada.” (5º parágrafo).
a) Quem é dona Maria? _______________________________________.
b) Quem reside í  rua Benedito, 14? ________________________________.
c) O que há de estranho (ou errado) na coordenação das duas primeiras orações? ____________.
d) Que classificação sintática pode ser dada í s duas orações iniciadas por “tendo”? __________.
e) Como deveria ser reescrita a frase acima para se tornar mais compreensí­vel? _____________.
f) Que efeitos de sentido produz o estilo original da frase? ___________.
16. Transforme o primeiro fato do 5º parágrafo em narrativa do tipo “miniconto”, usando, inclusive, discurso direto.

LEITURA COMPLEMENTAR I

OS FATOS E SUAS VERSí•ES NA REALIDADE BRASILEIRA

Não é de hoje que a versão costuma ser mais importante do que o fato. Aliás, a própria história da humanidade é, geralmente, um somatório de versões, sobretudo, a leitura que dos fatos fizeram os vencedores.
í‰ clássica a norma para pessoas de vida pública: “í€ mulher de César (imperador romano) não basta ser honesta; precisa parecer honesta”.
Todavia, são impressionantes as dimensões que alcançou entre nós esta superioridade da versão sobre o fato. E í s vezes a versão está predeterminada a ser negativa seja qual for o resultado de um fato. Recorrendo ao adágio popular, no caso, temos uma tendência a determinar que as pessoas – especialmente os polí­ticos – sejam presas por terem cão ou sejam presas por não possuí­rem cão. O que interessa é que sejam presas.
Quando escrevo, não sei ainda qual será o resultado de julgamentos importantes esta semana no Congresso de parlamentares de influência acusados pela CPI que investigou desvios de conduta a respeito da elaboração orçamentária e da gerência na libertação de recursos.
Mas, posso adivinhar as versões. Se forem absolvidos não se questionará se as provas eram realmente insuficientes e de que, afinal, é basilar princí­pio de cidadania não ser condenado sem provas. A versão será a da pizza, de conchavo, do acórdão.
Se forem condenados não se perquirirá a importí¢ncia de um corpo legislativo acusar e punir membros seus tão importantes. Será dito apenas que os congressistas votaram de olho na próxima eleição, para salvarem a pele própria condenaram outros e assim por diante.
Com cão ou sem cão, a determinação é censura í  conduta legislativa.
Fui deputado federal por três legislaturas. Conheço a história do nosso Parlamento em toda a República. Acompanho a vida parlamentar de outros paí­ses. Durante toda a nossa vida republicana nunca o próprio Congresso julgou e condenou tantos dos seus membros; por ausência í s sessões, por falsidade ideológica, por falta de decoro parlamentar. Olhando para fora do Brasil encontraremos em toda a história da democracia ocidental apenas dois ou três casos de tantas condenações e punições dentro de um Legislativo.
Isto deveria ser lido como algo extraordinariamente esperançoso. Sociedade civil e estamento polí­tico num esforço conjunto pela ética. Mas, a leitura é exatamente contrária: estamos diante do desapreço da opinião pública pelas instituições e os que as integram, o Congresso motiva raivas, ironias e desapreços. Um sentimento de impotência e cansaço marca os seus nabros mais corretos e í­ntegros.
Para onde está nos levando esta insistente versão dos fatos?
(COELHO, João Gilberto Lucas. Os fatos e suas versões na realidade brasileira. Seção “Opinião” do Jornal “A Razão” – Santa Maria (RS) – 11/05.94, p. 2).

LEITURA COMPLEMENTAR II

(Ler: FIORIN, José Luiz & SAVIOLI, Francisco Platão. Lição 28: Viés. In: Para entender o texto: leitura e redação. São Paulo: ítica, 1990. p. 250-9.)

BIBLIOGRAFIA
ABREU,Antônio Suárez. Curso de Redação. 3 ed., S. Paulo: ítica, 1991.
FIORIN, José Luiz et SAVIOLI, Francisco Platão. (Ou: PLATíƒO & FIORIN.)Para Entender o Texto: Leitura e Redação. São Paulo: ítica, 199O.
FRANCHI, Carlos. Criatividade e Gramática. São Paulo: SE/SENP, 1988. (Xerox)
GARCIA, Othon Moacir. Comunicação em Prosa Moderna. 11 ed., Rio: Fundação Getúlio Vargas, 1983.
ILARI, Rodolfo et GERALDI, João Wanderley. Semí¢ntica. São Paulo: ítica, 1985. (Série Princí­pios, n.º 8)
KOCH, Ingedore G. Villaça. A Coesão Textual. 3a. ed., São Paulo: Contexto, 1991. ______________. A inter-ação pela linguagem. São Paulo: Contexto, 1992.
KREUTZ, Roque Amadeu. Leitura de certas conexões frasais: alguns “pontos” de costura textual. In: Educação para Crescer: Projeto Melhoria da Qualidade do Ensino – Português – 1º e 2º graus. Rio Grande do Sul- Secretaria da Educação, 1992. p. 139-59.
SERAFINI, Maria Teresa. Como escrever textos. São Paulo: Globo, 1989.(Tradução de Maria Augusta Bastos de Mattos; adaptação Ana Maria Marcondes Garcia)
TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus. São Paulo: Cortez, 1996.

ANEXO

ORIENTAí‡í•ES PARA A ELABORAí‡íƒO DE ATIVIDADES: GRAMíTICA EM FUNí‡íƒO DO TEXTO

Objetivo geral: aperfeiçoar a leitura e a produção textual.

Objetivos especí­ficos:
a) reconstruir textos mudando a situação discursiva;
b) avaliar os efeitos de sentido decorrentes de mudanças efetuadas;
c) apreender e justificar o sentido explí­cito e implí­cito de um texto.

TIPOS DE ATIVIDADES:

1.Transformar textos orais em textos escritos (e vice-versa: dramatização…).
2. Traduzir a entonação em pontuação (e vice-versa).
3. Traduzir um dialeto em outro.
4. Passar de um registro ou ní­vel de linguagem para outro: transformar textos mais quentes em textos menos quentes (processo de esfriamento de textos), ou vice-versa. (Ver ABREU, 1991, p. 67-79).
5. Mudar o tratamento dado ao enunciatário (em propagandas, receitas, cartas, etc.)
6. Adaptar o texto ao conhecimento prévio do enunciatário. (A hipótese do enunciador deve fundamentar-se em dados objetivos: idade, ní­vel de escolaridade, ní­vel sócio-econômico, crenças, vivências, etc.).
7. Transformar um tipo textual em outro: texto temático em figurativo (dissertação argumentativa, provérbio, etc. em fábula ou estória de exemplo); carta ou receita em relato; notí­cia em crônica ou texto opinativo; etc.
8. Mudar o foco narrativo: primeira x terceira pessoa.
9. Alterar o foco enunciativo: enunciador em primeira pessoa do singular x primeira pessoa do plural x impessoal
10. Impessoalização x pessoalização de textos:
a) indeterminação x determinação do sujeito;
b) orações sem sujeito x orações com sujeito;
c) orações subordinadas substantivas subjetivas e predicativas (seu valor pragmático);
d) voz passiva sintética + voz passiva analí­tica com omissão do agente x voz ativa;
e) nominalização x verbalização.
11. Transformar a atitude do enunciador perante o enunciado ou a proposição (modalização):
a) dar nova orientação argumentativa através de outro recorte do tema, incluindo “silêncios” ou omissões do enunciador, e excluindo aspectos que prejudicam o novo enfoque do tema;
b) transformar valorização positiva em negativa (e vice-versa) através de recursos tais como morfemas, palavras ou expressões descritivas x apreciativas/avaliativas, sufixos aumentativos e diminutivos, substantivos, adjetivos, advérbios, verbos de sentido positivo e negativo;
c) escamotear ou explicitar a atitude apreciativa do enunciador através da camuflagem ou evidenciação dos controladores das ações verbais, bem como através do uso de recursos já citados acima;
d) mudar a atitude de relator para comentador (e vice-versa), através de recursos tais como: tempos verbais do mundo narrado x tempos verbais do mundo comentado;
e) mudar o grau de comprometimento do enunciador com o que diz, transformando a certeza em dúvida ou verdade provisória (fatos x boatos; discurso autoritário x polêmico/aberto), usando recursos tais como:
- modos verbais e/ou verbos auxiliares modais (como parecer, poder, dever, etc.);
- impessoalização x pessoalização;
- orações subordinadas substantivas subjetivas e predicativas;
- recursos de modalização já citados anteriormente.
12. a) Mudar um ato de fala primitivo em derivado: pergunta ou exclamação em asserção/declaração (e vice-versa); ordem em pedido; desejo (positivo) em imprecação (negativa), etc.
b) Mudar a expressão de um mesmo ato de fala: ordem através do imperativo, infinitivo, futuro do presente do indicativo; pergunta fechada x aberta; etc.
c) Formar atos de fala derivados: pergunta ou exclamação que é pedido; asserção que é ironia; ordem que é explicação/instrução.
13. Realizar ou eliminar o inter-relacionamento de campos lexicais.
14. Aperfeiçoar a precisão vocabular ou a polissemia (proposital) através da substituição de palavras ou expressões do texto.
15. Reconstruir descritiva ou apreciativamente referências textuais através do uso de sinônimos, hiperônimos, pronomes, elipses, palavras e expressões apreciativas, etc.
16. Transformar o tempo da enunciação em tempo do enunciado através do uso adequado de tempos verbais e advérbios de tempo: ontem x dia anterior; amanhã x dia seguinte; etc.
17. Mudar a seqüência ou ordem cronológica para ordem psicológica ou lógica através de recursos como “flash back”, uso do pretérito mais que perfeito, etc.
18. Transformar textos narrativos do passado (tipo relato) para o presente (tipo comentário) e para o futuro (tipo previsão).
19. Mudar a topicalização ou a ênfase de termos do enunciado:
a) passando enunciados da ordem direta para a ordem inversa (e vice-versa);
b) usando expressões enfáticas (é que, é…que) para termos que se pretende colocar em destaque;
c) usando objeto direto e indireto pleonásticos; o pronome “me” (sem função sintática) etc.;
d) usando os pronomes “mesmo” ou “próprio” para sujeitos que se quer enfatizar;
e) reconstruindo perí­odos compostos por subordinação pela transformação de oração subordinada em principal, passando esta a subordinada.
20. Converter discurso direto em indireto (e vice-versa): valor pragmático das orações subordinadas substantivas objetivas diretas.
21. Transformar descrições com frases verbais para descrições com frases nominais, usando ou omitindo verbos de ligação (esvaziados de sentido) ou proformas verbais (verbos de sentido genérico: fazer, acontecer).
22. Transformar perí­odos simples em compostos (e vice-versa).
23. Idem, orações subordinadas desenvolvidas em reduzidas (e vice-versa); orações adjetivas em adjetivos (e vice-versa); etc.
24. Transformar perí­odos compostos por subordinação em frases fragmentárias e vice-versa.
25. Usar diferentes recursos gramaticais e lexicais para expressar as relações lógico-semí¢nticas e discursivas que ocorrem entre:
a) proposição e um termo dessa proposição;
b) proposição x proposição;
c) unidade semí¢ntico-pragmática constituí­da por um grupo de proposições x unidade semí¢ntico-pragmática constituí­da por outro grupo de proposições;
d) unidade semí¢ntico-pragmática constituí­da de uma proposição x unidade semí¢ntico-pragmática constituí­da por um grupo de proposições;
26. Nominalizar orações e verbalizar sintagmas substantivos, adjetivos, adverbiais.
27. Justificar o sentido explí­cito de um enunciado através de sua decomposição em constituintes imediatos: determinante x determinado de cada ní­vel hierárquico.
28. Idem, através da formulação de perguntas especí­ficas, cujo foco abranja uma função semí¢ntico-sintática de cada vez. (O que é que pode ser perguntado e respondido através de nossa lí­ngua?)
29. Justificar o sentido implí­cito de um texto através da elucidação das circunstí¢ncias da enunciação e das marcas lingüí­sticas do enunciado ou texto.

ALGUNS EXEMPLOS DE ATIVIDADES: TRANSFORMAí‡í•ES MORFO-SINTíTICAS EM MINI-TEXTOS SEM QUE OCORRA ALTERAí‡íƒO DO SENTIDO DENOTATIVO (SENTIDO BíSICO):

1. Clivagem/transformação ênfase – O plano Bresser seguiu a trilha do Plano Cruzado. Foi o Plano Bresser que seguiu a trilha do Plano Cruzado. O Plano Bresser é que seguiu a trilha do Plano Cruzado. Foi a trilha do Plano Cruzado que o Plano Bresser seguiu. A trilha do Plano Cruzado é que o Plano Bresser seguiu.

2. Topicalização – O governo está fugindo de suas responsabilidades quando estimula campanhas como “Criança Esperança”. De suas responsabilidades o governo está fugindo quando estimula campanhas como “Criança Esperança”. Quando estimula campanhas como “Criança Esperança”, o governo está fugindo de suas responsabilidades.

3. Apassivação – Collor afirmou que mataria o tigre da inflação com apenas uma bala. Foi afirmado por Collor que mataria o tigre da inflação com apenas uma bala. Collor afirmou que o tigre da inflação seria morto por ele com apenas uma bala. Foi afirmado por Collor que o tigre da inflação seria morto por ele com apenas uma bala.

4. Modalização – (a) Sem alteração das funções sintáticas dos termos da oração matriz: Os partidos de esquerda acentuaram suas semelhanças para formarem um único partido forte de oposição ao governo neoliberal. Os partidos de esquerda podem/devem ter acentuado suas semelhanças para formarem um único partido forte de oposição ao governo neo-liberal. Os partidos de esquerda teriam acentuado suas semelhanças para…. Os partidos de esquerda certamente (provavelmente/posssivelmente) acentuaram suas semelhanças para…. (b) Com alteração da estrutura frasal: í‰ provável/possí­vel que os partidos de esquerda acentuaram suas semelhanças para formarem um único partido forte de oposição ao governo neo-liberal. A verdade é que os partidos de esquerda…

5. Permuta da oração matriz ou principal – Conforme foi denunciado pelo Sindicato dos Jornalistas, a grande imprensa brasileira fez uma montagem do confronto que ocorreu entre colonos sem-terra e Brigada Militar em Porto Alegre, porque estava a serviço de interesses polí­tico-ideológicos. Em Porto Alegre ocorreu um confronto entre colonos sem-terra e Brigada Militar, sobre o qual a grande imprensa brasileira fez uma montagem porque estava a serviço de interesses polí­tico-ideológicos, conforme foi denunciado pelo Sindicato dos Jornalistas. Foi denunciado pelo Sindicato dos Jornalistas que a grande imprensa brasileira, porque estava a serviço de interesses polí­tico-ideológicos, fez uma montagem do confronto que ocorreu entre colonos sem-terra e Brigada Militar em Porto Alegre.

6. Nominalização de orações e verbalização de sintagmas nominais (dos segmentos grifados) – (a) O operário trabalha e gera lucros para o patrão: O trabalho do operário gera lucros para o patrão. (b) Os patrões promovem os operários que geram mais lucros; isso mantém uma “sadia” competição entre os trabalhadores: A promoção, pelos patrões, dos operários que geram mais lucros mantém uma “sadia” competição entre os trabalhadores. (c) Como existe um grande contingente de desempregados, explicam-se a competição por um emprego e o achatamento salarial. Com a existência de um grande contingente de desempregados, explicam-se….. (d) Um fato intrigante da última eleição foi: muitos cidadãos humildes atribuí­ram uma enxurrada de votos a Sérgio Zambiasi. Um fato… foi a atribuição, por cidadãos humildes, de uma enxurrada de votos a Sérgio Zambiasi. (e) Desejo a condenação severa de todos os corruptos: Desejo que todos os corruptos sejam condenados severamente. Ou: Desejo que condenem severamente todos os corruptos. (f) Graças í  exploração de mão-de-obra barata existente no terceiro mundo, as multinacionais crescem geometricamente: As multinacionais crescem geometricamente porque exploram a mão-de-obra barata existente no terceiro mundo. (g) A notí­cia da execução de um senador, candidato ao Governo de Rondônia, por um pistoleiro, é mais importante do que a fila da miséria do povo, formada por candidatos a lixeiros de Brasí­lia: A notí­cia de que um pistoleiro executou um senador, candidato ao Governo de Rondônia, é mais importante do que a fila da miséria do povo, formada por candidatos a lixeiros de Brasí­lia.

7. Conexão implí­cita x conexão explí­cita – No mês passado, o governo enxugou ainda mais a liquidez. A inflação continua subindo. São monopólios e cartéis que controlam os preços aqui no Brasil. No mês passado, o governo enxugou ainda mais a liquidez, mas a inflação continua subindo porque são monopólios e cartéis que controlam os preços aqui no Brasil. Ou: Embora, no mês passado, o governo tivesse enxugado ainda mais a liquidez, a inflação continua subindo, uma vez que são monopólios e cartéis que controlam os preços aqui no Brasil.

8. Fragmentação x reconstrução de perí­odos – “(O sem-terra) passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar í  terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.” (Luiz Fernando Verí­ssimo – ZH de O2.10.86)

Artigo incluído por Romeu Eduardo Kreutz em 23.fevereiro.2010 • 
Assunto: Apredizagem produtiva

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Atum com bolachas

R. Amadeu Kreutz

Pela manhã, Geni deixava as crianças na escola. í€ tarde, os meninos quase sempre ficavam por conta própria, até que ela voltasse da rua.

Já na boca da noite, Geni apura o passo para chegar rápido em casa. Seus dois filhos, bem enturmados com a molecada da vizinhança, costumam passar as tardes nos becos, surrupiando aqui e ali algo para enganar o estômago. Ao chegar em casa, a varredora de rua, há anos abandonada pelo marido, chamou seus garotos pelos nomes. Pouco depois, viu-os saí­rem por detrás de um barraco. Logo se achegaram a ela.

- Maenhê, estou com fome, choramingou o mais novo.

- Eu também, acrescentou o mais velho.

- Primeiro vão se banhar, ordenou ela.

Enquanto os garotos enchiam um balde de água no velho tanque de cimento, Geni abriu sua sacola e dela tirou pão velho, além de algumas sobras de feijão e arroz que recebera de uma famí­lia generosa residente na rua onde ela trabalhava.

Depois do banho de caneca, os dois moleques rodearam o fogão esperando ansiosamente que a comida esquentasse. Colocando-a sobre uma mesinha rústica, Geni fez uma rápida prece agradecendo pelo dia sem desgraças e pela comida. E que Deus abençoasse também a famí­lia generosa que lhes oferecia, quase que diariamente, as sobras de comida.

Ato contí­nuo, todos se alimentaram com muito apetite até rasparem os restos de feijão e arroz da marmita. Na tarde seguinte, os meninos teriam que se contentar com o restante da doação: pão velho e seco.

Sempre era assim: Só depois de pagar as contas do mês – água, luz, aluguel do casebre, remédios – Geni se atrevia a comprar algo melhor para comer e, raramente, para vestir. Foi o que aconteceu no dia seguinte, sexta-feira. Ao passar pelo armazém, resolveu levar uma janta-surpresa para os filhos: uma latinha de atum e um pacote de biscoitos. Quando já ia saindo, voltou e pediu ainda uma garrafinha de refri.

Toda eufórica, apurou o passo, pois uma montanha de nuvens negras estava se desenhando no poente. Muito ansiosa para surpreender seus meninos com um lanche mais gostoso, entrou no casebre. A escuridão avançava rápida. No lusco-fusco, viu que seus moleques atravessaram correndo a pinguela sobre o valão do esgoto, cujo fluxo já mais volumoso que o normal. Era engrossado pela chuva do oeste, que estava se aproximando.

Com uma ventania, veio também uma chuva torrencial. E o valão cada vez mais alto, arrastando consigo uma imensidão de lixo. Não demorou para que essa torrente de lí­quido nojento rolasse em catadupas, atingindo os primeiros casebres das margens.

Quando a pobre mulher se deu conta do perigo, agarrou alguns pertences e, gritando ordens para os filhos, correu com eles, abaixo da enxurrada, até a varanda do barraco de sua comadre, em lugar mais alto. Lá, totalmente ensopados, foram acolhidos pela amiga. Pouco depois, as águas fétidas do valão também circundaram o barraco da comadre, tanto que todos ficaram ilhados. Temendo que a enchente aumentasse, a comadre içou uma bandeirola vermelha no cimo de uma longa taquara, sinalizando perigo para os voluntários da defesa civil.

Foi nessa situação crí­tica que a dona do barraco buscou algo para comer. Geni, agradecida pela acolhida, lembrou-se então da latinha de atum, dos biscoitos e da garrafinha de refri, que ainda conseguira apanhar antes de fugir da enchente. Extraindo da sacola de plástico os ingredientes desse saboroso lanche, colocou tudo ao lado dos demais comes. Com olhos arregalados, seus dois moleques já iam botando as mãos nesses quitutes, quando sua mãe repreendeu-os energicamente: tudo deveria ser partilhado com as pessoas da casa.

Apesar de ilhados e com roupas molhadas, os comensais, por alguns momentos, ignoraram a enchente e as demais carências de suas vidas. Graças a seu espí­rito de divisão igualitária, cada um pôde passar um pouco de atum em suas bolachas, ainda tendo direito a um gole de refri ao chegar sua vez.

Aos poucos, a chuva parou. Horas depois, as águas começaram a baixar. No dia seguinte, Geni pôde voltar para seu casebre, avaliar os prejuí­zos da enxurrada e recuperar o que era possí­vel. Era sábado. Ela e as crianças iriam ter um final de semana estafante.

Ilhados também estavam turistas brasileiros em íguas Calientes, na região de Machu Picchu, Peru. Seu drama foi relatado na reportagem Aventura não programada - O pesadelo vivido pelos brasileiros ilhados com outros turistas na região de Machu Picchu. Sobre um recorte desse incidente, Suzane G. Frutuoso e Verônica Mambrini (seção “Comportamento”, p. 67, Revista Istoé nº 2099, 03 fev 2010) assim se expressam:

“Um mutirão do governo local garantiu as refeições. Cada pessoa recebia um carimbo na mão – para não repetir o prato. Havia pão, café com leite, arroz, feijão e maçã. Na sexta-feira 29, Karina estava a caminho de Cuzco e planejava voltar no primeiro voo disponí­vel. No Brasil, Arisa, mãe de Karina, estava nervosa e preocupada. “˜Só quero que a tirem de lá.”™ O mesmo sentimento era compartilhado por Vaine Cordova, 51 anos, de Ribeirão Pires (SP), pai de Maria Carolina, 26 anos. “˜Ela chegou a jantar uma latinha de atum com bolacha. Quando fiquei sabendo, não dormi. Não consegui sair da televisão e da internet.”™”

Artigo incluído por em 11.fevereiro.2010 • 
Assunto: Estórias do vovó

1 Comentário

A vida ambí­gua de Arieli

R. Amadeu Kreutz

Seu nome completo era Arieli Sarb. De tão bela, parecia ser uma filha de Tupã. Era, porém, uma filha natural de um poderoso prí­ncipe de além-mar, que a concebera í  beira de um riacho. Graças a sua vida infantil em berço esplêndido, entrou na adolescência cheia de saúde, com faces bem coradas. Embora quisesse ser discreta, estava sempre no extenso palco do mundo. Até garbosos prí­ncipes de terras longí­nquas faziam suas investidas, alimentando secretas esperanças em relação a ela.

De perfil, o seu corpo era bem sinuoso. Suaves e longos cabelos dourados lhe desciam, em ondas, sobre a nuca e as espáduas. De dia, para encobrir sua nudez e suas jóias, apresentava-se num esvoaçante vestido verde, encimado por um manto de anil celeste. í€ noite, simbólicos lustres de cristal cintilavam numa imensa, distante e misteriosa abóbada, iluminando timidamente o contorno das belas formas de Arieli. Seu corpo encantador atraí­a não só os olhares ambiciosos dos nobres locais, mas também era objeto de adoração por parte dos trabalhadores mais humildes.

Um dos maiores prazeres da princesa era deitar-se de lado, nas imensas praias do reino, de modo que as ondas pudessem se quebrar em suas costas. Com essa hidromassagem, conseguia aliviar as tensões, provocadas pela pressão interesseira de seus inúmeros pretendentes.

O desejo dos poderosos era possuí­-la senão por inteiro, pelo menos em parte. Os humildes e pobres apenas ansiavam por um afago seu. Sonhavam em receber um pouco de atenção, um pouco de conforto em seu seio.

Tamanha era a beleza e a sensualidade tropical de Arieli que ela acabou sendo alvo de acirradas disputas entre os nobres do reino. Invejosos uns dos outros, ostentavam suas riquezas e trombeteavam o seu poder sobre os plebeus: não eram só os marqueses e os duques, mas também os barões e os condes que se julgavam no direito de possuí­-la. Até houve alguns duelos secretos em obscuros lugares do reino por causa dela. Mesmo assim, ela ficava impassí­vel, alheia a tudo.

Para evitar guerras civis e desgastes perante a plebe, os nobres se reuniram e fizeram um pacto: instituí­ram perí­odos de casamento com Arieli, durante os quais, sucessivamente, cada um teria a chance de ser o Cônjuge Máximo. Em seu perí­odo, poderia possuí­-la e exercer o seu poder sobre ela, mas teria que dividir o leito conjugal com os que lhe dariam sustentação.

De imediato, vários nobres levantaram objeções:

- E quem será o primeiro Cônjuge Máximo?

- Durante quanto tempo?

- Como se fará a sucessão?

Diante dessas dúvidas, os trabalhos dos legisladores foram suspensos.

A reunião seguinte aconteceu somente depois de um longo final de semana. Sem que tivesse sido combinado, cada membro da assembléia veio acompanhado de assessores e de burgueses bem aquinhoados. Assim armados, os poderosos do reino continuaram discutindo o processo de prostituição de Arieli. O Cônjuge Máximo seria aquele que conseguisse mais votos entre a plebe e, depois de cinco anos, se faria a sucessão nos mesmos moldes.

Já na saí­da, houve algumas alianças espontí¢neas: marqueses com marqueses; duques com duques; barões com barões… Entre si, eles disputavam a adesão dos burgueses í s suas fileiras. Agiotas, mercadores, donos de estaleiros, fabricantes de carruagens juntavam-se, em grupos, aos nobres de maior destaque, fervilhando como mariposas ao redor de lí¢mpadas acesas. Dessas articulações, saí­ram os candidatos pioneiros.

Graças aos conchavos com burgueses e agiotas, imensos gastos puderam ser feitos. Multidões eram convidadas para festas gratuitas, com farta comida e bebida. Cargas de alimentos passaram a ser distribuí­das entre a plebe em troca de votos. Até dinheiro aparecia nas carteiras de muitos pobres do reino. Na alta esfera, promessas de favorecimentos em licitações, superfaturamentos, sobras de campanha…

Depois das eleições, o Máximo teve sua noite de núpcias, mas não pôde completar a tão esperada lua de mel. De imediato, foi bombardeado pela cobrança de débitos feitos em troca de apoios.

- Se Vossa Excelência não me der um dos seios de Arieli, vou mobilizar a minha gente e desmontar os seus apoios.

- Se Vossa Excelência não me permitir que explore o vestido verde dela…

- Se Vossa Excelência não me autorizar que descubra as jóias que ela esconde…

- Se Vossa Excelência não me promover para ser o próximo no leito nupcial…

Assim consumou-se a prostituição da princesa. Só lhe restou submeter-se passivamente aos caprichos de seus amantes. Os beneficiados e apaniguados apenas aplicavam as lições aprendidas na própria bí­blia: “O Prí­ncipe”, de Maquiavel. Além das artes da dissimulação, aprenderam também o uso da força bruta para satisfazerem seus desejos pessoais e corporativos. E, para conquistar apoio cada vez maior, usavam os mais variados meios de sedução para transformar os próprios desejos em anseios do povo.

Depois de vários perí­odos de revezamento no leito nupcial de Arieli, articulou-se uma conspiração, com apoio de um poderoso império do norte: núpcias mais puritanas deveriam ser celebradas. No entanto, isso deveria acontecer não pela conquista de votos, mas por meios mais diretos. Isso porque a plebe tinha sido corrompida pelos pretendentes que, perí­odo após perí­odo, tinham disputado espaço na cama da prostituí­da. O jeito era seqüestrar a princesa e submetê-la í  força. A estratégia do estupro tornaria indesejáveis futuras pretensões de concorrentes não estrelados para o leito conjugal.

A execução do plano de golpe começou com a construção de um gigantesco e atraente cavalo. O í­dolo dos conspiradores deveria ser também o í­dolo do povo. Tudo foi preparado com o maior cuidado: porte majestoso, orelhas apontando para o céu, olhar firme para frente, grande ventre oco, relinchos arrebatadores, pêlo macio e brilhoso. Até o cheiro não foi esquecido, tanto que um estrelado lembrou que era melhor do que o cheiro do povo. Ao mesmo tempo, realizavam-se a denúncia das históricas articulações maquiavélicas ocorridas no reino; o anúncio de perigos decorrentes de situações forjadas, que eram estampadas, com estardalhaço, na grande imprensa nacional e internacional; a mobilização de plebéias e plebeus ingênuos em defesa da moral e dos bons costumes. Assim, o seqüestro de Arieli passou a ser aceito e justificado perante o povo.

No dia combinado, a grande surpresa: o cavalo era, na verdade, uma égua. Ao iniciar o trabalho de parto, inúmeros soldados armados saí­ram de seu ventre e tomaram conta das ruas. Logo se apoderaram dos pontos-chaves do reino, afugentaram o Máximo e subjugaram a princesa í  força.

Finalmente, houve uma nova ordem na casa de Arieli. Os que tentavam reagir, eram torturados, trancafiados nas prisões, expatriados. No reino, só se divulgavam notí­cias boas, favoráveis aos sucessivos cônjuges estrelados da princesa… As tarjas pretas dos jornais indicavam que havia luto no reino, mas quase ninguém sabia quem tinha morrido.

Com a rotina, os amantes que, sucessivamente, se aproveitavam de Arieli no leito conjugal, acabaram seduzidos pelo orgulho próprio. Imitando antigos heróis espartanos, desejavam apenas imortalizar-se com grandes feitos. Antes, porém, precisariam forrar os cofres do reino. Para isso, o Máximo e seus ministros voltaram-se aos grandes agiotas internacionais, que lhes ofereceram ajuda, desde que a garantia fosse a hipoteca da princesa Arieli.

Em pouco tempo, os cofres do reino ficaram abarrotados. Grandes obras, bem ou mal planejadas, foram executadas, sempre de acordo com os interesses dos credores. As fortunas de nobres muito poderosos, bem como de mariposas espertas que esvoaçavam a seu redor, cresceram astronomicamente. A euforia passou a tomar conta dos reinóis por sucessivos perí­odos. As vestes e as jóias de Arieli passaram a ser letras de marchinhas, ensaiadas para desfiles escolares e paradas militares. O bordão era: “Ame a Grande Pátria ou deixe-a.”

Com o tempo, porém, os credores agiotas começaram a exigir a sua parte. Por isso, a festa do “milagre” foi perdendo o seu colorido. Grande parte do vestido verde de Arieli já estava sob penhor e, no império do norte, já era descrito, em livros didáticos, como propriedade internacional. Além disso, muitas jóias da princesa tinham desaparecido por meio de transações clandestinas. Os tributos locais, apesar de serem exorbitantes, não eram suficientes. Todavia, graças í s habilidades do ministro das finanças, adepto do princí­pio “dí­vida não se paga; se rola”, as aparências puderam ser mantidas.

Seguiu-se uma temporada em que pairava no ar a ameaça de um novo seqüestro da princesa. Desta vez, o perigo vinha de longe, apontando para poderosos agiotas e prí­ncipes internacionais. Arieli passaria da condição de hipotecada para a de refém desses credores. Nesse contexto, o grupo dos estrelados, em cujo poder a princesa já se encontrava por vários perí­odos, abriu o jogo: seu próximo amante seria escolhido pelo voto dos nobres mais distintos. Futuramente, também o povo poderia participar da eleição, já que estava sendo onerado com altos tributos e seria responsabilizado pelo resgate da princesa.

O próximo Cônjuge Máximo nem chegou a dormir com a princesa: faleceu antes da noite de núpcias. í‰ por isso que, de lá em diante, Arieli ficou conhecida como “Viúva”. Com a vací¢ncia, a função de amante foi assumida pelo Segundo, que se tornou o Máximo por um perí­odo.

Para a sua sucessão, o povo elegeu um Máximo bajulador, que conseguira enganar a todos com a sua encenação de homem honesto, somado a seu charme de prí­ncipe boa pinta. Quando lhe arrancaram a máscara, teve que desistir dos fartos seios da Viúva e entregá-los ao Segundo que, apesar do topete, soube manter um relacionamento discreto com Arieli.

O sucessor do topetudo foi um prí­ncipe repleto de ideais humanitários, os quais tinha divulgado em livros acadêmicos. Queria bancar o Dom Quixote. Quando caiu na real, negou os seus escritos e adotou, para os dois perí­odos de seu reinado, a bí­blia de Maquiavel, tão badalada nas esferas do poder.

Por longos e sucessivos perí­odos, a Viúva continuou hipotecada. Apesar de estar tomada por forte desejo de mudar de vida, a infeliz se via forçada a manter sua condição de prostituta e a submeter-se a ambições e caprichos libidinosos da alta nobreza. Sua esperança de resgate estava no poder dos tributos, que oneravam cada vez mais os trabalhadores do reino. Todavia, em vez de serem usados para aliviar sua mí­sera condição, continuavam desaparecendo misteriosamente nos ralos do paí­s tropical e em cofres de agiotas, num pequeno reino do além mar.

Na eleição seguinte, o povo desconfiou das promessas da nobreza e apostou num simples plebeu. Além do desejo de libertar de Arieli de sua condição desumana, os trabalhadores e demais plebeus tinham a esperança de a transformarem numa dama feliz, no colo da qual poderiam então se aconchegar ternamente.

Mal tinha experimentado o leito nupcial, o Cônjuge Máximo Plebeu começou gestões para libertar a prostituí­da e transformá-la numa grande dama de respeito. Mas, por falta de força polí­tica, teve que fazer concessões a marqueses, duques, condes, barões, burgueses e… agiotas. Se não continuasse a dividir com eles o usufruto da princesa, esta acabaria sofrendo ainda maiores violências. Afinal, ela era filha de um prí­ncipe e deveria permanecer no cí­rculo da nobreza…

Muito habilidoso nas negociações, o Máximo Plebeu renunciou a parte dos ideais de sua classe e obteve apoios entre seus tradicionais opositores. Assim conseguiu diminuir os privilégios da nobreza e proporcionar certo grau de aconchego aos mais necessitados no regaço de Arieli. Ao mesmo tempo, reorientou a administração do tesouro para juntar reservas suficientes a fim de terminar com a hipoteca.

Apesar das manobras da oposição para provocar o divórcio entre Arieli e o Plebeu, este, com significativo apoio popular, conquistou um segundo perí­odo. Entretanto, seu leito conjugal era constantemente sacudido por implacáveis investidas dos nobres contra ele. Para não se divorciar, viu-se forçado a adotar e realizar negociações maquiavélicas, extraí­das da história dos Cônjuges Máximos dos perí­odos anteriores. Por ter adotado “know how” tão conhecido na Corte, sua estratégia foi logo identificada pelos cortesãos, que a fizeram vazar para imprensa. Seguiu-se então uma enxurrada de denúncias patrocinadas pela nobreza, aliás muito úteis e necessárias para sua futura reconquista do leito. Os crí­ticos sabiam que nada de inusitado tinha acontecido no reino, mas não admitiam que uma estratégia histórica, até então exclusiva da nobreza, fosse adotada por um “usurpador”, um plebeu. Conforme a sua ideologia, o atual casamento com a princesa não era legí­timo e, por isso, deveria terminar.

Embora muitas cabeças tivessem rolado, o Máximo Plebeu se manteve no leito conjugal. Além disso, continuou com seus esforços para terminar com a hipoteca de Arieli. Nesse intento obteve tanto sucesso que, apesar da crise econômica mundial, o tesouro do reino acumulou reservas suficientes para libertar a princesa. Tal economia nunca tinha acontecido antes na história do reino. Além disso, o Plebeu, com seus apoios, conseguiu elevar os í­ndices de renda das classes inferiores e satisfazer as necessidades básicas do povo mais sofrido.

Atualmente, talvez por inveja ou por ódio, talvez pela humilhação que sofreram, os nobres ortodoxos passaram a manipular os ingênuos, os analfabetos polí­ticos, para desmerecer e rebaixar os feitos heróicos do Cônjuge Máximo Plebeu. Criam caricaturas em que ridicularizam a sua fisionomia, o seu porte fí­sico, o seu modo particular de ser. Enfim, fazem exatamente aquilo que, no passado, eles mesmos condenavam em lições de moral e civismo: promovem toda sorte de desrespeitos a autoridades legalmente constituí­das.

E pior: mandam essas caricaturas desrespeitosas para pessoas que julgam ser ignorantes, certamente com o intuito de fazer-lhes uma lavagem cerebral, esperando trazê-las para as suas fileiras ideológicas. Assim, implicitamente, rotulam os destinatários de suas mensagens como atrasados, burros, analfabetos polí­ticos. Portanto, fazem proselitismo de sua religião maquiavélica, cujo maior mandamento é: “Os meus fins justificam os meios.” E, a partir desse mandamento, fazem inferências tais como: “Não importam os fatos; o que importa são as suas versões, a sua interpretação.” “Não é importante ser honesto; o mais importante é parecer honesto.”

Termino esta crônica com duas lições de sabedoria:

(1) “Os í­mpios dizem: Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da lei e nos reprova as faltas contra a nossa disciplina.” (Sb 2, 12)

(2) “Onde há inveja e rivalidade, aí­ estão as desordens e toda espécie de obras más.” (Tg 3, 16)

Artigo incluído por em 23.setembro.2009 • 
Assunto: Pessoal

2 Comentários

O uso da sintaxe no ensino

Roque Amadeu Kreutz

1. Introdução

Este trabalho constitui uma proposta metodológica de ensino da “Sintaxe do Português para Cursos de Licenciatura em Letras”. Seu objetivo é sugerir uma abordagem instrumental de conteúdos sintáticos e demonstrar a sua importí¢ncia para o bom desempenho de atividades práticas do professor de Português.

Para orientar estas reflexões, vale lembrar um princí­pio pedagógico já consensual entre a maioria dos professores de lí­nguas: O estudo da gramática não se justifica como um fim em si mesmo, mas como um meio para alcançar fins vinculados ao desempenho lingüí­stico do aluno. Desempenho que, certamente, deve ser otimizado na variante da Lí­ngua Portuguesa Padrão atual, com o objetivo de realizar a formação do profissional e do cidadão. Somente o aluno que conseguir bom desempenho em variante lingüí­stica socialmente prestigiada estará preparado para ser um bom profissional e um agente co-participante eficaz do processo social.

De acordo com o princí­pio apresentado, o estudo da Sintaxe do Português nos Cursos de Licenciatura em Letras deveria orientar-se por objetivos voltados ao preparo profissional dos licenciandos. Ou seja, deveria privilegiar conhecimentos teórico-práticos sobre a frase, unidade básica dos estudos da sintaxe, contemplando, pelo menos, os seguintes aspectos: (a) avaliação da gramaticalidade dos mais diferentes tipos de enunciados falados/escritos; (b) descrição da organização sintática dos enunciados, tendo como foco a sua significação; (c) produção e transformação de enunciados através do uso adequado dos mecanismos sintáticos da Lí­ngua Portuguesa Padrão (LPP). í‰ óbvio que as atividades de ensino-aprendizagem ligadas a esses aspectos da sintaxe não podem desvincular o estudo do enunciado do respectivo contexto (lingüí­stico ou pragmático).

Este trabalho contém uma seleção de conteúdos relevantes da sintaxe, orientados para os objetivos (a) e (b) acima explicitados mediante um enfoque instrumental. Trata-se, até certo ponto, de um relato de minha prática pedagógica na disciplina “Português VI” do Curso de Letras da UFSM, enriquecido com discussões crí­tico-construtivas de alunos e aperfeiçoado com reflexões pessoais.

2. Avaliação da gramaticalidade dos enunciados

2.1. Fundamentos teóricos

Sob um ponto de vista predominantemente sintático, a frase é a menor unidade de comunicação lingüí­stica. Resulta da combinação de unidades lingüí­sticas iguais ou maiores do que a palavra, que se vinculam entre si por meio de relações sintático-semí¢nticas.

Esse conceito de frase compreende tanto a “frase da lí­ngua”, também denominada de “frase gramatical”, quanto o enunciado ou a “frase da fala”. A frase da lí­ngua caracteriza-se como possibilidade de um sistema lingüí­stico especí­fico, por exemplo, como possibilidade da Lí­ngua Portuguesa Padrão. Já a frase da fala (enunciado) caracteriza-se como unidade de comunicação realizada concretamente num contexto ou numa situação, através da execução oral ou escrita de um falante ou escrevente, dirigida para um ou mais ouvintes ou leitores. A estruturação de uma frase da fala (enunciado) pode ou não coincidir com um padrão frasal da lí­ngua em que é executada.

As frases da lí­ngua – ou os padrões frasais inerentes a um sistema lingüí­stico – podem ser explicitadas por regras descritivas. As frases da fala (ou da escrita), para serem gramaticalmente aceitáveis, deveriam coincidir com esses padrões da lí­ngua. Entretanto, como conseqüência do prestí­gio de escritores clássicos brasileiros e portugueses, certas estruturas de enunciados, embora não coincidentes com os padrões frasais da lí­ngua, foram incorporadas í  Gramática Normativa através de regras prescritivas. í‰ por isso que, nas subseções seguintes, justifica-se uma explicação teórica sobre esses dois tipos de padrões frasais.

2.1.1. Padrões frasais da fala (enunciados)

Os padrões frasais da fala têm, geralmente, sua origem em construções de escritores consagrados (os “bons escritores” citados por gramáticos tradicionais). Não são previstos pelas virtualidades do sistema lingüí­stico, sendo, de fato, construções desviadas das regras normais. Sua incorporação no uso culto da lí­ngua deve-se ao prestí­gio social de seus autores e seus seguidores. Por isso acabaram se transformando em modelos da norma culta, constituindo saber teórico-prático indispensável para falantes e escreventes eruditos. Exemplos concretos desses padrões são as “figuras de construção ou de sintaxe”, cuja explicação se encontra em Gramáticas Normativas.

Também as classificações da frase quanto ao estilo podem ser consideradas padrões frasais da fala. Ao realizarem essas classificações, os gramáticos ora recomendam modelos que devem ser imitados, ora descrevem estruturas por eles consideradas ví­cios de linguagem, que, portanto, devem ser evitados.

Conhecer, na teoria e na prática, esses padrões de uso é uma das necessidades profissionais do atual e futuro professor de Português. Em outras palavras, é preciso que, além das figuras de construção ou de sintaxe, o professor esteja familiarizado com a classificação das frases quanto ao estilo. Somente assim estará capacitado a julgar criticamente construções produzidas por ele mesmo ou por seus alunos, fundamentando o seu parecer em regras prescritivas ou normativas da Lí­ngua Portuguesa Padrão.

2.1.2. Padrões frasais da lí­ngua

Os padrões frasais da lí­ngua (ou padrões gramaticais) são as regras de construção inerentes ao sistema lingüí­stico (no nosso caso, inerentes ao sistema da Lí­ngua Portuguesa Padrão). Mesmo que não tenhamos consciência de sua aplicação quando falamos ou escrevemos, são essas regras que comandam a combinação dos signos lingüí­sticos em frases menos ou mais extensas e complexas.

A estruturação gramatical da frase realiza-se pela aplicação (simultí¢nea ou não) de regras de constituição, ordenação ou colocação, concordí¢ncia, regência e conexão gramatical. Constatemos isso através do seguinte exemplo:

(1) As medidas de arrocho salarial estão ficando rotina nos últimos anos.

Na combinação dos signos lingüí­sticos, em ní­vel oracional, concorrem os seguintes tipos de regras:

a) regras de constituição: No exemplo, a constituição da oração efetua-se pela participação de um Sujeito + um Verbo de Ligação (no caso, uma locução verbal) + um Predicativo do Sujeito + um Adjunto Adverbial. A omissão de um dos três primeiros constituintes tornaria a oração agramatical. Isso significa que, para formação de uma oração, aplicam-se obrigatoriamente regras de constituição.

b) regras de ordenação ou colocação: A posição linear dos constituintes da oração não é aleatória. Uma ordenação do tipo “Estão ficando as medidas de arrocho salarial nos últimos anos rotina” é anormal e, salvo melhor juí­zo, agramatical. Embora a ordenação dos constituintes na oração seja bastante flexí­vel, há regras do sistema da L.P.P. que estabelecem parí¢metros de gramaticalidade.

c) regras de concordí¢ncia verbal: No exemplo (1), a concordí¢ncia verbal ocorre entre “As medidas de arrocho salarial” e “estão”.

d) regras de regência verbal: A regência verbal, no exemplo em foco, decorre da função gramatical do verbo “ficar” (verbo de ligação), e também da função gramatical do substantivo “rotina”, estabelecendo, entre ambos, uma relação sintática sem auxí­lio de conetivo.

e) regras de conexão: No exemplo (1), a conexão realiza-se entre os constituintes “As medidas de arrocho salarial estão ficando rotina” de um lado e, de outro, “os últimos anos”, através do conetivo subordinativo “em” (preposição). A conexão poderia, também, ocorrer por coordenação. Ocorreria se, no exemplo citado, o sujeito ou o predicativo se ampliassem, transformando-se em sujeito ou predicativo composto. Exemplos: “As medidas de arrocho salarial e a repressão sindical…”; “As medidas de arrocho salarial estão ficando rotina ou coisa sem importí¢ncia para o governo nos últimos anos.”

Os mesmos tipos de regras de combinação que se aplicam para a formação da oração aplicam-se também em construções lingüí­sticas de outros ní­veis hierárquicos, sejam eles inferiores ou superiores. Em outras palavras, para combinar elementos lingüí­sticos que, no seu conjunto, formam um constituinte menor do que a oração (por exemplo, um sujeito, um complemento verbal, um adjunto adverbial), ou que formam um perí­odo composto, valem regras do mesmo tipo: regras de constituição, ordenação/colocação, concordí¢ncia, regência, conexão.

Ilustremos esse princí­pio em dois momentos distintos: primeiro, analisando a estrutura do sujeito da frase (1); segundo, analisando a estrutura do perí­odo composto representado pelo exemplo (2), apresentado mais adiante.

Analisando a construção que funciona como sujeito da frase (1) – “As medidas de arrocho salarial” – verifica-se que, em outros enunciados, a mesma construção poderia exercer também a função sintática de objeto direto, aposto, etc. Por isso, justifica-se a sua classificação como sintagma nominal (SN), o que possibilita generalizar regras para a estruturação desse tipo de sintagma. Vejamos como as diferentes regras sintáticas atuam na estruturação do SN:

a) regras de constituição do SN: (Não vou me deter aqui com a formulação metódica dessas regras.) O SN referido está assim estruturado: Adjunto Adnominal + Núcleo Nominal + Complemento Nominal. No caso em pauta, enquanto a presença do segundo e do terceiro termos é indispensável para a constituição do sintagma especificado, a omissão do primeiro não prejudicaria  a sua gramaticalidade.

b) regras de ordenação/colocação dos constituintes no SN: Não seriam gramaticais, entre outras, as seguintes seqüências do exemplo: “medidas de arrocho salarial as”; “as de arrocho salarial medidas”.

c) regras de concordí¢ncia nominal: No SN do exemplo, enquanto uma regra de combinação determina a concordí¢ncia nominal entre “as” e “medidas”, outra determina que essa concordí¢ncia não deve ocorrer entre “medidas” e “de arrocho salarial”.

d) regras de regência nominal: No exemplo, ocorre regência nominal entre o núcleo “medidas” e seu complemento “de arrocho salarial”.

e) regras de conexão: Entre os constituintes “medidas” e “arrocho salarial”, a relação sintática é explicitada pelo conetivo subordinativo “de”. Outras conexões gramaticalmente viáveis entre os mesmos constituintes, embora com alterações semí¢nticas, seriam: “As medidas para ou por arrocho salarial…”; “As medidas sem ou contra (o) arrocho salarial…”. Não ocorre conexão por coordenação entre os constituintes do referido SN; ocorreria se o ampliássemos, vinculando mais um complemento nominal ao núcleo “medidas”. Exemplo: “As medidas de arrocho salarial ou de exploração cada vez maior do trabalhador…”.

Antes de finalizar esta subseção, quero ainda ilustrar de que modo atuam (separada ou concomitamente) as mesmas regras sintáticas na estruturação do perí­odo composto, formado por constituintes oracionais. Observemos isso no seguinte enunciado, tradicionalmente classificado como um perí­odo composto por coordenação e subordinação:

(2) Porque não agüentava mais a pressão social, a Ministra da Economia, no mês passado, entregou ao Senado um relatório que arrola os grandes saques de dinheiro ocorridos poucos dias antes do congelamento das aplicações financeiras, mas o Senado, até agora, não divulgou o nome dos implicados, nem se manifestou mais sobre o caso.

a) regras de constituição do perí­odo: A constituição do perí­odo acima compreende dois processos sintáticos que, segundo a Gramática Tradicional, denominam-se coordenação e subordinação. O resultado desses processos poderia ser assim explicitado: (oração subordinada 1 + oração principal + oração subordinada 2, também principal em relação í  oração subordinada seguinte + oração subordinada 3) + (oração coordenada 2) + (oração coordenada 3). Observemos que a oração coordenada 1 é constituí­da pelo conjunto hierárquico de orações mencionado no primeiro parêntese. Nessa construção, as orações subordinadas não podem desvincular-se da respectiva principal, sem prejuí­zo da gramaticalidade. Entretanto, a primeira principal, por não estar subordinada a nenhuma outra, poderia subsistir gramaticalmente, sem as subordinadas a ela vinculadas.

b) regras de ordenação/colocação das orações no perí­odo: Considerando o perí­odo do exemplo (2) na sua totalidade, não seriam gramaticais ordenações tais como: oração coordenada 3 + oração coordenada 1 + oração coordenada 2; OU: oração coordenada 3 + oração coordenada 2 + oração coordenada 1. Considerando, por outro lado, apenas a ordenação das orações que, em seu conjunto, formam a primeira oração coordenada (a qual apresenta as mesmas caracterí­sticas estruturais de um perí­odo composto por subordinação), seria agramatical uma ordenação do tipo: oração subordinada 2 + oração principal + oração subordinada 3 + oração subordinada 1.

c) regras de concordí¢ncia modo-temporal entre verbos de diferentes orações do perí­odo: No exemplo em foco, a concordí¢ncia modo-temporal ocorre entre os verbos “agüentava”, “entregou”, “divulgou”, “manifestou”.

d) regras de regência verbal ou nominal: Na frase-exemplo não se verifica regência verbal ou nominal trans-oracional; pode, contudo, ocorrer em perí­odos compostos por subordinação, bem como em perí­odos compostos por coordenação e subordinação, quando um complemento verbal ou um complemento nominal é constituí­do por oração subordinada.

e) regras de conexão gramatical: í‰ entre as orações do perí­odo que ocorrem, com maior freqüência, as regras de conexão gramatical. No caso em foco, a conexão acontece tanto entre as orações coordenadas (através dos conetivos coordenativos “mas” e “nem”) quanto entre as orações subordinadas (através dos conetivos subordinativos “porque” e “que”, bem como através do processo de nominalização da oração subordinada 3.

Muitas Gramáticas sistematizam as principais regras de concordí¢ncia e regência, bem como algumas regras de ordenação/colocação, estas geralmente limitadas í  colocação dos pronomes átonos. Apresentam, ainda, sem mencionar isso e sem sistematizá-las, as regras de constituição da oração através da análise sintática. Outras, mais modernas, explicitam e sistematizam as regras de constituição da oração sob o rótulo de “Padrões frasais ou oracionais”. Há, também, autores como Ingedore G.V. Koch e Othon M. Garcia (entre outros) que vão além: elucidam questões de conexão entre termos e orações mediante a análise da coordenação e do paralelismo; exploram as limitações dos conceitos de coordenação e subordinação; analisam os efeitos semí¢ntico-pragmáticos resultantes da ordenação das orações no perí­odo; etc. Todavia, não chegam a sistematizar regras sintáticas que esclareçam a gramaticalidade da frase sob as óticas acima explicitadas.

2.2. Prática docente fundamentada na teoria exposta

Na seção anterior, limitei-me a listar e ilustrar tipos de regras sintáticas que concorrem para a formação da frase e de seus constituintes através da combinação de unidades significativas de diferentes ní­veis. Com isso quis enfatizar que, nos cursos de licenciatura em Letras, também devem ser sistematizadas e estudadas as regras (sintáticas) de estruturação da frase, geralmente ignoradas nas explicações das Gramáticas Tradicionais.

Na prática docente tradicional, os professores utilizam-se dessas regras intuitivamente, tanto para produzir seus próprios textos quanto para avaliar a gramaticalidade dos textos dos alunos. Entretanto, há professores que, embora sejam capazes de identificar desvios gramaticais em textos escritos, não sabem caracterizar e classificar gramaticalmente esses desvios. Ou seja, não são capazes de explicar por que os problemas gramaticais identificados em redações de alunos constituem erros (em confronto com a Lí­ngua Portuguesa Padrão).

Para evitar essa situação em nossa prática docente, é preciso que saibamos identificar, descrever e classificar objetivamente os desvios de desempenho dos alunos. Só então teremos condições para prescrever adequadamente atividades que visem a solucionar os problemas diagnosticados.

2.2.1 Avaliação da gramaticalidade sintática de enunciados

Com o intuito de demonstrar como pode ser realizada a prática docente na área da sintaxe, apresentarei, nesta subseção, algumas atividades práticas de avaliação da gramaticalidade de enunciados. Para tanto, selecionei fragmentos de textos produzidos por acadêmicos de Letras, alunos de Português III do 1º semestre de l987. Trata-se de fragmentos de avaliações discentes escritas sobre o trabalho docente desenvolvido no mesmo semestre.

As barras e os números delimitam e identificam os desvios gramaticais cometidos, e remetem í  análise dos mesmos, feita depois dos exemplos.

I – Do meu ponto de vista, / a metodologia e a didática (1)empregada, / tanto (2)nos conteúdos como (2)na avaliação, / (3)é falha./ O professor não domina o conteúdo e foge í s perguntas dos alunos, / (4)além do mais /  não aceita a colocação dos alunos, criando uma barreira entre um e outros. Essas circunstí¢ncias, além de / (5)prejudicar / as relações (aluno-professor) também / (6)prejudica / o aprendizado do educando.

II – Quanto í  avaliação, não está condizente / (7) o / tipo de prova dada / (8)em relação í s / aulas ministradas. / Existem colocações crí­ticas em aula, / (9)mas / (10)como nesta prova / é exigido que o aluno decore a matéria e / (11) não internalize-a /.

III – Penso que / (12) a aplicação d / esse conteúdo pode continuar sendo aplicado dessa forma, mas seria interessante que / se (13)fizesse mais exercí­cios práticos /  para melhor fixar o conteúdo dado.

IV – Uma proposta que gostaria de deixar / (14)de / que estas disciplinas deveriam estar juntas, pois acho que / (15) seria bem melhor.

(1) O adjetivo “empregada” refere-se aos substantivos “metodologia e didática”. Temos aí­ um problema de concordí¢ncia nominal. Correção: “a metodologia e a didática empregadas”.

(2) O termo “tanto nos conteúdos como na avaliação” está relacionado ao termo “falha”: a metodologia e a didática são falhas em relação a alguma coisa, e não em alguma coisa. Assim sendo, o desvio detectado classifica-se como um problema de conexão entre o predicativo “falho” e o respectivo adjunto adverbial. Correção: “Tanto em relação aos conteúdos como (ou quanto) em relação í  avaliação…”

(3) O sujeito que se refere ao verbo e ao núcleo do predicativo “é falha” é composto: “a metodologia e a didática empregadas”. Trata-se, pois, de um problema de concordí¢ncia verbal, extensiva ao predicativo. Correção: “são falhas”.

(4) “além do mais” é ou era uma expressão conetiva inscrita em variantes lingüí­sticas populares (não prestigiadas socialmente). Talvez já tenha sido incorporada í  lí­ngua portuguesa padrão. Entretanto, a expressão equivalente da Gramática Normativa, é “além disso”. Assim sendo, trata-se de um problema de conexão. Correção (se for adotada): “além disso, (o professor) não aceita…”

(5) e (6) O sujeito ligado aos verbos “prejudicar” e “prejudica” é “Essas circunstí¢ncias”. Da observação desse fato depreendemos que, novamente, temos um problema de concordí¢ncia verbal. Correção: “Essas circunstí¢ncias, além de prejudicarem as relações aluno-professor, também prejudicam o aprendizado do educando.”

(7) Quem está condizente, está condizente com alguma coisa; não está condizente alguma coisa (sem preposição). Considerando que “condizente” é um adjetivo que exige complemento nominal, estamos diante de um problema de regência nominal. Correção: “Quanto í  avaliação, não está condizente com o tipo de prova dada…”

(8) O termo “em relação í s aulas ministradas” está vinculado sintaticamente ao termo “condizente”. Entretanto, essa relação não foi explicitada pelo respectivo autor, ou, se muito, mal explicitada através da expressão conetiva “em relação a”. Além disso, também o termo “com o tipo de prova dada” (analisado no item anterior) está vinculado ao termo anterior “condizente”. Portanto, “o tipo de prova dada” e “as aulas ministradas” são dois termos sintaticamente idênticos. Com base nesta análise, podemos detectar dois problemas de conexão: um deles refere-se ao uso inadequado da expressão conetiva “em relação a”; o outro é um problema de coordenação/paralelismo.  Correção: “Quanto í  avaliação, não está condizente com o tipo de prova dada e (com) as aulas ministradas.”

(9) Entre as orações coordenadas do perí­odo (“Existem colocações crí­ticas em aula” x “mas como nesta prova é exigido que o aluno decore a matéria e não internalize-a.”) há, simultaneamente, uma relação de oposição e de concessão. Ora, essa dupla relação lógico-semí¢ntica não pode ser expressa sintaticamente através de orações coordenadas ligadas por conjunção coordenativa adversativa (que, no caso, se limita a explicitar a relação de oposição), mas pode ser expressa através de uma oração subordinada adverbial concessiva relacionada í  respectiva principal por conjunção subordinativa concessiva. Dessas considerações podemos depreender que se trata de um problema de conexão, o qual pode ser assim corrigido: “Embora existam colocações crí­ticas em aula, é exigido que…”

(10) O termo “como nesta prova” articula-se, sintaticamente, com o termo “é exigido que o aluno decore a matéria e não internalize-a”. O primeiro problema se relaciona í  ordenação/colocação desse termo no respectivo enunciado. O seu reordenamento certamente explicitaria melhor essa relação: “é exigido que o aluno decore a matéria e não internalize-a como nesta prova.” Mesmo assim, continua havendo problema de gramaticalidade, desta vez, em relação í  constituição do próprio termo em foco. Na verdade, ele é sintática e semanticamente incompleto. í‰ preciso, pois, recuperar os elementos que faltam na sua estruturação. Assim sendo, o segundo problema se refere í  constituição do próprio termo. Correção: “assim como é exigido nesta prova”.

(11) De acordo com a prescrição do uso da LPP, há problema de eufonia na expressão “não internalize-a”. Por isso, a Gramática Normativa prescreve que o “não” atrai o pronome clí­tico, exigindo próclise. Portanto, de acordo com essa norma, trata-se de um problema de colocação (não exclusivamente sintático). Correção: “não a internalize.”

(12) Há uma identidade semí¢ntico-sintática entre núcleo do sujeito e o verbo principal da primeira oração subordinada (“que a aplicação desse conteúdo pode continuar sendo aplicado dessa forma”). Isso faz com que um desses termos seja excedente. Por conseguinte, trata-se de um problema de constituição, cuja raiz está no excesso de termos; pode ser corrigido por eliminação e reestruturação do núcleo do sujeito: “que esse conteúdo pode continuar sendo aplicado dessa forma.”

(13) O verbo transitivo direto “fizesse” está na Voz Passiva Sintética, fato que está marcado pela presença da partí­cula “se” que o antecede. No caso, o termo posposto ao verbo – “mais exercí­cios práticos” – exerce a função de sujeito. Por isso, mais uma vez estamos diante de um problema de concordí¢ncia verbal. Correção: “que se fizessem mais exercí­cios práticos…”

(14) Tudo indica que a preposição “de” tem o objetivo de vincular o constituinte posterior (“que estas disciplinas deveriam ficar juntas”) ao verbo antecedente “deixar”. Se assim for, trata-se de um problema de regência: o verbo “deixar” é transitivo direto, não exige preposição, e seu objeto direto é o pronome relativo “que”, explicitado anteriormente.  Portanto, a preposição está sobrando, devendo ser eliminada. Contudo, essa correção não elimina integralmente o problema da gramaticalidade da primeira oração coordenada do perí­odo, uma vez que ela está sem o seu verbo principal e, por conseguinte, incompleta.  Decorre, daí­, um problema de constituição (somado ao de regência acima descrito). Correção: “Uma proposta que eu gostaria de deixar é que estas disciplinas deveriam estar juntas…” (Observação: “Estas disciplinas” é uma expressão anafórica que se refere a Português III e Filologia Portuguesa).

(15) O sujeito que se refere ao predicado “seria bem melhor” não é facilmente recuperável pelo contexto; portanto, não se trata de simples “elipse” ou “sujeito oculto”. Trata-se, isso sim, da omissão do sujeito numa oração em que o verbo não é impessoal. Por isso, a oração tem problema de constituição. Correção: pois acho que isso seria bem melhor.

3. Leitura compreensiva de enunciados

Os conhecimentos de sintaxe, por parte dos professores de Português, não são apenas necessários para fundamentar a avaliação gramatical da escrita, mas também para orientar uma leitura mais compreensiva. í‰ nesse sentido que se justifica o segundo objetivo apresentado na introdução deste trabalho: (b) descrição da organização sintática dos enunciados, tendo como foco a sua significação.

Para tornar a leitura de enunciados mais produtiva, são necessários, além do domí­nio do vocabulário, os conhecimentos teóricos apresentados na seção 2, mas complementados por outros sobre a estruturação da frase. Ou seja, para apreender a significação de um enunciado (de uma oração, de um perí­odo, de um texto) não basta que estejamos familiarizados com o significado de cada uma das palavras que o compõem, mas precisamos identificar as relações entre as palavras ou os termos que constituem a significação como um todo.

A organização das palavras num enunciado um pouco mais complexo não se realiza apenas linearmente, mas também hierarquicamente. Constatemos essa hierarquização através de um exemplo:

(3) No próximo fim de semana, minha irmã mais nova me visitará.

O enunciado (3) está assim organizado: A primeira camada hierárquica é formada por dois segmentos, entre os quais ocorre uma relação sintática de determinação. De um lado “No próximo fim de semana” e, de outro, “minha irmã mais nova me visitarᔝ, em que o primeiro constituinte determina a significação do segundo.

Num ní­vel hierárquico imediatamente inferior, cada um desses segmentos, por sua vez, é constituí­do de novos pares. O primeiro deles é assim estruturado: “em” de um lado, e “o próximo fim de semana” de outro. Já o segundo segmento apresenta a seguinte estruturação: “minha irmã mais nova” de um lado, e “me visitarᔝ de outro. E assim a hierarquização prossegue até o ní­vel das palavras, onde, de acordo com a tradição dos estudos gramaticais, termina a organização sintática e inicia a organização morfológica.

Para apreender a significação de um enunciado, podemos optar por diferentes procedimentos de análise sintática. Entretanto, de acordo com o meu ponto de vista, um dos mais produtivos para esclarecer o sentido é o da análise do enunciado em constituintes imediatos (e mediatos), acima exemplificado. Através desse procedimento, revelam-se as implicações semí¢nticas recí­procas entre cada par de constituintes que forma o respectivo ní­vel hierárquico e, através dessas implicações, apreende-se a significação global do enunciado.

A análise da frase em constituintes imediatos fundamenta-se, predominantemente, em dois princí­pios teóricos:

a) Princí­pio do binarismo: A frase da lí­ngua (frase gramatical) é organizada em camadas hierárquicas, cada uma das quais é construí­da binariamente, desde o ní­vel sintático superior (perí­odo) até o ní­vel inferior (locução/sintagma).

b) Princí­pio das relações entre as unidades significativas: Entre o par de constituintes que forma a respectiva camada hierárquica da frase se estabelece uma relação sintática de determinação (em que “A” pressupõe “B”, mas “B” não pressupõe “A”); ou de interdependência (em que “A” pressupõe “B” e “B” pressupõe “A”); ou de constelação (em que nem “A” pressupõe “B”, nem “B” pressupõe “A”)

A esses princí­pios cabe acrescentar uma ressalva e uma questão prática: (I) Quando um enunciado ou um constituinte de qualquer ní­vel hierárquico do enunciado for formado por três ou mais constituintes relacionados entre si por constelação, não será possí­vel sua divisão binária em constituintes imediatos. (II) Embora a estruturação da frase da lí­ngua ou frase gramatical (prevista pelo sistema) seja binária, pode ocorrer a elipse de um dos constituintes em determinadas camadas hierárquicas de enunciados. No caso, o constituinte omitido pode facilmente ser recuperado através da própria análise por constituintes imediatos.

Ilustremos, através do exemplo abaixo, como os princí­pios da análise por constituintes imediatos esclarecem a significação de enunciados especí­ficos.

(4) Em vida, o mais antigo lí­der comunista brasileiro conseguia pouco espaço em nossos meios de comunicação de massa. (Observação: Recém falecido, foram concedidos dez minutos do Jornal Nacional da Rede Globo a Luiz Carlos Prestes.)

Antes de tudo, ressalte-se que o perí­odo (em itálico) constitui um enunciado gramaticalmente completo. Constitui, portanto, uma totalidade semí¢ntico-sintática modelar para a análise proposta a seguir. Para realizar essa análise, adotemos o número (1) para o enunciado como um todo, e números seqüenciais para os constituintes imediatos e mediatos.

Como um todo, o enunciado (1) é estruturado pelos seguintes constituintes imediatos: (2) “Em vida” de um lado, e (3) “o mais antigo lí­der comunista brasileiro conseguia pouco espaço em nossos meios de comunicação de massa” de outro. Entre esses constituintes, ocorre uma relação sintática de determinação, uma vez que a significação do constituinte (3) é determinada pelo constituinte (2). Isso significa, em termos de análise sintática tradicional (por funções), que “Em vida” não é apenas adjunto adverbial de “conseguia”, mas é um modificador (adjunto adverbial) de todo o constituinte (3).

Para prosseguir a nossa análise por camadas hierárquicas, voltemos ao segmento (2) – “Em vida”. Assim como a camada hierárquica imediatamente superior, há também nesse constituinte uma relação sintática de determinação: o valor semí¢ntico-sintático da preposição (4) “em” é atribuí­do ao substantivo (5) “vida”.

Passemos, agora, para a análise do constituinte (3). As duas unidades significativas que o constituem são, de um lado, (6) “o mais antigo lí­der comunista brasileiro” e, de outro, (7) “conseguia pouco espaço em nossos meios de comunicação de massa.” Entre ambos, acontece uma relação sintática de interdependência, uma vez que o constituinte (6) determina a significação do constituinte (7), e este, por sua vez, determina a significação do (6). Ou seja, nem o (6) subsistiria gramaticalmente sem o (7), nem o (7), sem o (6), de tal sorte que a omissão de qualquer um dos dois tornaria o enunciado agramatical.

Continuemos a nossa análise com a identificação dos constituintes imediatos do segmento (6) – “o mais antigo lí­der comunista brasileiro”. Tendo em conta que a relação sintagmática pode se estabelecer entre uma palavra individual de um lado, e um conjunto coeso formado pelas demais, de outro, podemos constatar que a palavra (8) “o” não determina apenas o núcleo do sintagma “lí­der”, mas determina todo o conjunto (9) “mais antigo lí­der comunista brasileiro”. Em outras palavras, a definitivização não recai apenas sobre “lí­der”, mas sobre “mais antigo lí­der comunista brasileiro”. Assim sendo, “o”, de acordo com a terminologia da análise sintática tradicional, não seria adjunto adnominal de “lí­der”, mas de “mais antigo lí­der comunista brasileiro”.

Voltemos, agora, ao constituinte (7) – “conseguia pouco espaço em nossos meios de comunicação de massa” – para analisar a sua estrutura em camadas hierárquicas binárias. De um lado temos (10) “conseguia pouco espaço” e, de outro, (11) “em nossos meios de comunicação de massa”. Entre esses constituintes ocorre uma relação de interdependência, uma vez que tanto (11) pressupõe gramatical e semanticamente (10) para sobreviver no enunciado, quanto (10) pressupõe (11).

Em ní­vel hierárquico imediatamente inferior do segmento (9), temos o constituinte (12) “mais antigo” determinando a significação de (13) “lí­der comunista brasileiro”. Outra hipótese seria a de que “brasileiro” formaria par com “mais antigo lí­der comunista”. Entretanto, a primeira alternativa parece ser mais plausí­vel pelo fato de que o atributo “mais antigo” não se refere apenas a “lí­der comunista”, de compreensão mais abrangente, mas a “lí­der comunista brasileiro”, de compreensão mais restrita e especí­fica. Por outro lado, a maior viabilidade da primeira hipótese comprova-se ainda pela inversão dos termos: “lí­der comunista brasileiro mais antigo” e não “lí­der comunista mais antigo brasileiro”.

Prosseguindo a nossa análise, ocupemo-nos com (10): “conseguia pouco espaço”. Por idênticas razões já apresentadas em itens anteriores, temos (14) “conseguia”, formando functivo par com (15) “pouco espaço”. Ambos se pressupõem mutuamente, graças í  natureza semí¢ntico-sintática do verbo conseguir, que exige um complemento, não ficando entre os que opcionalmente podem ter um complemento. Assim sendo, o verbo (14) pressupõe o complemento (15), assim como esse complemento pressupõe o verbo que o exige.

Na análise do segmento (11) – “em nossos meios de comunicação de massa” – cabe-nos atentar novamente para a função e a significação das preposições e de outros conetivos. No caso, o segmento (11) é constituí­do de (16) “em” e de (17) “nossos meios de comunicação de massa”, isso porque o efeito sintático-semí¢ntico de “em” abrange todo o segmento (17), determinando a significação deste.

Voltemos para o segmento (12) “mais antigo”. A sua estruturação sintoniza perfeitamente com os princí­pios da Gramática Tradicional. Trata-se do advérbio (18) “mais” que modifica/limita/restringe/intensifica o sentido do adjetivo-núcleo a que se refere: (19) “antigo”. Portanto, (18) determina (19).

No segmento (13) “lí­der comunista brasileiro”, se realizássemos mecanicamente a divisão recomendada pela análise sintática tradicional, terí­amos três constituintes imediatos: dois adjuntos adnominais conectados, com o mesmo grau de aderência, a um núcleo substantivo. Entretanto, através de uma análise mais cuidadosa, podemos constatar que o adjetivo “brasileiro” não restringe (delimita/determina/influencia) apenas a significação do substantivo “lí­der”, mas realiza esse processo em relação ao conjunto “lí­der comunista”. Assim sendo, há uma relação de determinação entre (21) “brasileiro” de um lado, e (20) “lí­der comunista” de outro.

Entre os constituintes imediatos do segmento (15) “pouco espaço” ocorre, igualmente, uma relação de determinação: (22) “pouco” (adjetivo) determina (23) “espaço” (substantivo).

O segmento (17) “nossos meios de comunicação de massa” é constituí­do de (24) “nossos” que determina (25) “meios de comunicação de massa”.

A análise do segmento (20) “lí­der comunista” realiza-se da mesma maneira como outros termos já analisados acima (constituí­dos de substantivo mais adjetivo): (26) “lí­der” é determinado por (27) “comunista”.

Resta-nos analisar (25) “meios de comunicação de massa”. Os constituintes imediatos e mediatos desse termo estão todos relacionados entre si, aos pares, por determinação. Sua estruturação é a seguinte: (28) “meios” forma par com (29) “de comunicação de massa”; (30) “de” determina (31) “comunicação de massa”; (33) “de massa” determina (32) “comunicação”; e, finalmente, (34) “de” determina (35) “massa”.

De toda essa análise podemos concluir que não se trata de mais uma divisão mecí¢nica de perí­odos em orações e de orações em termos, mas de um exercí­cio de leitura fundamentado na lógica e no sentido, cujo fundamento teórico é a estruturação do perí­odo. Por isso, cada análise feita deve ser orientada pela significação plausí­vel do enunciado em questão. Assim, enunciados de sentido ambí­guo terão mais do que uma análise plausí­vel.

Nas explanações deste trabalho, não tive a pretensão de elaborar receitas, nem a de produzir um saber pronto e acabado. í‰ mesmo possí­vel que haja falhas nos princí­pios teóricos sugeridos ou na análise dos exemplos apresentados. Isso, porém, não invalida o meu objetivo principal: expor e exemplificar alguns conhecimentos que poderão servir de pistas para a prática docente do professor de Português, especificamente na área da sintaxe. Conhecimentos que podem servir para diagnosticar deficiências de desempenho lingüí­stico em alunos, bem como para preparar e orientar atividades de correção e aperfeiçoamento. Eis a razão por que conteúdos e atividades desse tipo deveriam ocupar um lugar de destaque nos currí­culos dos cursos de Licenciatura em Letras.

Este artigo foi apresentado sob a forma de “comunicação” na Semana de Letras/90, em 25.10.90. A versão original – SINTAXE DO PORTUGUíŠS PARA CURSOS DE LICENCIATURA EM LETRAS - foi publicada na revista Letras, editada pelo Curso de Letras/UFSM, Volume 1, Fascí­culo 5,  1993, p. 141-159

BIBLIOGRAFIA

ALBUQUERQUE, Maria Aparecida D. O Ensino da Gramática da Lí­ngua Portuguesa no 1º Grau através da Técnica Prescritiva-Produtiva. Dissertação de Mestrado, UFSM/Santa Maria, 1982.

CARONE, Flávia. Morfossintaxe. São Paulo, ítica, 1986.

_________. Subordinação e Coordenação: Confrontos e Contrastes. São Paulo, ítica, 1988.

GARCIA, Othon Moacir. Comunicação em Prosa Moderna. Rio, Fundação Getúlio Vargas. 1983.

KREUTZ, Roque Amadeu.  A busca da verdade para a emancipação do homem através da interação comunicativa.  Revista Idéias. Santa Maria/UFSM/CAL/COORDENAí‡íƒO DE LETRAS. N. 2 – Março/Junho de 199O.  p. 2O-26.

Artigo incluído por em 23.setembro.2009 • 
Assunto: Enfoque crí­tico

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Desabrochando…


R. Amadeu Kreutz

Carlinhos está apanhando mais um caqui de chocolate quando percebe que alguém se aproxima. Pula da árvore e corre, emprenhando-se no vassoural, rápido como um mico. Os xingamentos da dona do pomar abandonado ainda lhe atingem os ouvidos:

- Tu me paga, desgraçado. Ainda vou te moê os fundilho com uma boa surra. Um dia te pego, seu ladrãozinho de uma figa!

Embora já fora de perigo, o piá continua disparando por uma trilha na macega. Arfando, vai correndo cerro acima, raspando os braços e as pernas em galhos e espinhos. Seus miolos andam em rebuliço:

- Quase que a desgraçada me pega, mas não tenho medo, não! Cachorro que ladra não morde… Eeeêpa! Cadê a minha sacola com os livro? Essa não! Tenho que vortá. Deixei ela em cima de uma pedra, perto do arvoredo.

Protegido pela vegetação, o menino volta de mansinho e apanha sua rústica sacola de brim diamantino. Examinando-a, verifica que lá dentro está seu único livro e seus dois ensebados cadernos. Aproveita a oportunidade para recolher o caqui que lhe caí­ra na fuga e se manda, atalhando o caminho por roças e potreiros até chegar em casa.

Casa? Um ranchinho encravado numa ladeira, na barranca do Uruguai, cercado de capoeira e de enormes pedras. Paredes feitas de costaneiras de coqueiro, em que as frestas fazem sobrar ventilação e iluminação. Os esteios são grandes forquilhas de madeira roliça, encimados por paus tortos que fazem o papel de vigas e caibros. Toda essa estrutura, já escorada por causa de sua inclinação para um lado, sustenta um telhado dividido entre cobertura de capim e de tabuinhas.

A parte semi-fechada da moradia é constituí­da de uma peça só, de uns 2,5 por 5 m. Um dos lados é ocupado por uma armação de paus e taquaras, sobre a qual se encontra um velho colchão de crina, coberto por lençóis remendados e uma colcha de retalhos. Em baixo, alguns trastes e caixotes.  O lado oposto é o lugar do fogo de chão, da marmita, de uma lata de água e de outras latas menores. No centro, um espaço vazio, onde se encontram vários cepinhos de madeira que servem de assento.

Quando o moleque chega em casa, o sol já está no horizonte. Entra no rancho e deixa sua sacola no prego. Tropeçando num dos cepinhos, diz uma besteira e sai porta afora. Depois de esconder, ao lado de uma pedra, a última fruta surrupiada, segue a trilha do rio. Topa com a mãe, Maria da Graça, que está voltando com um balaio cheio de roupas lavadas. Irritada pelo atraso, ela recebe o filho xingando:

- Onde é que tu tava até agora, Carlinhos? Anda, vai campeá umas lenha; já tá ficando noite. E se não qué levá uma bronca, dá um jeito de trazê lenha das boa.

- Sempre eu, mãe! A Teca nunca percisa fazê nada…

- Espera que eu te ensino respeito, moleque. Te manda já, se não o pau pega quando teu pai vorta.

Carlinhos desaparece na macega, apanha o caqui escondido, dando nele uma dentada raivosa. Depois de escolher um pau para lenha no eito atrás das pedras, vai arrastando a carga até o cepo do corte, perto do rancho.

Enquanto isso, Bastião e sua filha Teca voltam do bolicho, com uma minguada provisão de alimentos, proporcional ao crédito do comprador. Pouco depois, já com a lenha cortada, Bastião está com a famí­lia, ao redor do fogo, esperando que Maria da Graça prepare algo para comer. Durante a espera… chimarrão lavado e requentado, o mesmo da manhã, temperado com conversa solta:

- E daí­, meu véio, o bolichero te prometeu serviço?

- Sim, mas só pra esta noite. Vô puxá farinha pra ele. Por cada saco vai me dá cinco quilo.

Carlinhos, ansioso por uma aventura durante a noite no lado castelhano, não se contém:

- Eu vô também. Já güento bem um saco de farinha. São só 50 quilo…

- Nada disso. Tu quase nem agüentô o pau pra a lenha! Que dirá um saco de farinha! – intervém a mãe.

Bastião, apesar de conhecer o perigo desse tipo de “trabalho”, não resiste í  tentação de ganhar um dinheirinho a mais. Talvez assim possa diminuir sua dí­vida no bolicho e, quem sabe, acompanhar uma rodada de canha com os parceiros.

- Deixa que ele vá, muié. Só desta veiz. Assim posso trazê também umas traia pra nóis…

Noite escura. O barulho ritmado dos remos quebra a harmonia do marulhar das águas. Impulsionado por Bastião, o caí­que chega, finalmente, ao lado argentino. O silêncio parece tomar conta da noite. Depois de amarrarem o barco num tronco caí­do, pai e filho seguem cuidadosamente por uma picada no meio do mato. De vez em quando, uma rápida alumiada com o foque.

Conforme uma rotina já conhecida, o bolicheiro argentino fecha negócio com Bastião, confiando que o pagamento será feito outro dia.

Começa, então, a primeira etapa do transporte: um saco de farinha nas costas do pai, uma trouxa de azeite, batatinhas, mortadela e outras tralhas nos ombros do filho.

Na segunda jornada, parecia que tudo continuava em paz. De repente, já perto do caí­que, numa ação rápida e inesperada, dois “gendarmes” ofuscam os muambeiros com um facho de luz. “Vocês estão presos”, grita um deles em castelhano. Carlinhos não perde tempo: deixa cair sua trouxa e corre, sem destino, mato adentro. As pragas dos policiais o atropelam ainda mais. Bastião, sem tempo de reagir, é imobilizado por um dos gendarmes. O segundo, apesar de correr atrás de Carlinhos, perde-o no meio da escuridão.

Por sorte era o menino que tinha ficado com a lanterna. Depois de sua fuga desabalada sem rumo, encosta-se arfando numa árvore para tomar fôlego e avaliar sua situação. Certificando-se que nada de estranho havia entre os sons da noite e que os soldados tinham desistido de persegui-lo, começa a procurar o rumo do rio, evitando voltar ao ancoradouro do caí­que.

Enquanto isso, Bastião é obrigado a carregar a farinha e as mercadorias do chibo, fardo por fardo, até o depósito da “Gendarmeria”. A subida e a longa distí¢ncia, somadas ao calor e ao desí¢nimo, fazem com que o pobre homem quase desmaie sob a última carga. Minutos depois, o chibeiro é empurrado para dentro de um cubí­culo mal iluminado. Exausto, sem dar bola para os palavrões dos gendarmes, deixa-se cair sobre um ensebado colchão, estendido diante de uma das pestilentas paredes de madeira da cela. í‰ aí­ que vai ter que passar a noite.

Carlinhos, já recuperado do susto, procura um rumo morro abaixo. De vez em quando se atreve a dar uma rápida alumiada com o foque para evitar tombo em cima de tombo. Finalmente, consegue alcançar a margem do Uruguai.

Já mais aliviado, caminha rio abaixo, enfrentando pedras, espinhos, arbustos emaranhados. Tem esperança de que, nessa direção, possa achar algum morador. Sem ligar para os arranhões e a canseira, enfrenta os obstáculos em busca de ajuda.

Descansando um pouco sobre uma imensa pedra, dirige um olhar atento para a margem oposta do rio. Os olhos fixam-se numa tênue luz na encosta de um morro. Seu coração se acelera ao imaginar que, talvez, aquela seja a moradia de sua famí­lia. Lá, ao redor do fogo, estão certamente sua mãe, Maria da Graça, e sua mana Teca, esperando por ele e o pai. Apesar das bronquinhas do dia a dia, Carlinhos gosta delas. Dá-lhe, então, uma vontade de reclinar a cabeça no colo da mãe para descansar um pouco. Com a manga da camiseta, enxuga algumas lágrimas que a repentina moleza do coração produz em seus olhos.

Lutando contra seus sentimentos, o menino levanta-se e continua a caminhada. Depois de muitos tropeços, temperados com sustos e medos, encontra finalmente uma esperança: um gramado no meio de um mato ralo. Segue, então, por uma trilha feita pelo gado.

De repente, um leve barulho. Aguçando a vista, distingue um boi deitado de lado, ruminando com a cabeça erguida. Em seus chifres, está enlaçada uma soga presa num arbusto. Um pouco mais adiante, contra a luz das estrelas, consegue identificar algumas construções tí­picas da colônia: uma pequena casa de moradia, um paiol com varandas servindo de estrebaria e galpão.

Cansado e com medo, resolve, acomodar-se no galpão até o raiar do dia. Ao dirigir-se para aquelas bandas, uma vaca se levanta do seu cubí­culo. Quase no mesmo instante, um guaipeca dá o alarme, vindo ao encontro do intruso com latidos e um rosnar agressivo. Precavido, Carlinhos fica parado no mesmo lugar, enfrentando o cachorro com o facho de luz de sua lanterna. Apesar do susto, chama em alta voz: “Oh de casa! Oh de casa!…”

Sem demora, com um lampião de querosene na mão, surge, na soleira da porta, um homem de estatura mediana. Com voz grossa e firme, xinga o cachorro e se dirige ao garoto em castelhano:

- Quem é você? O que é que faz a essas horas no meu terreiro?

Carlinhos, temeroso diante do estranho, fica mudo por alguns instantes.

- Fala, muchacho. O que é que está se passando?

Assustado e meio gaguejando, o menino põe tudo para fora de uma só vez:

- Por favô, sinhor, perciso de ajuda. Sô brasilero e tou numa enrascada. Fugi quando meu pai foi preso chibeando farinha. Por amor de Deus, não me leva na polí­cia. Perciso í­ pra o otro lado do rio, expricá pra mãe a nossa desgraceira.

Com palavras já mais tranqüilas, o castelhano procura acalmar o garoto. Passo a passo, vai se aproximando dele para vê-lo de perto. Ao perceber sua roupa esfarrapada, pernas e braços arranhados e ensangüentados, fica com pena, lamentando a desgraça do menino. Enquanto isso, uma voz de mulher ecoa lá de dentro da casa:

- O que é que está acontecendo, Manolo? Por que não vens para dentro?

- Vem cá, Margarida. Temos aqui um menino perdido. Está pedindo ajuda.

Quando Carlinhos, conduzido por Manolo, cruza a soleira da porta, fica confuso diante de Margarida. Mesmo com a luz fraca do lampião, percebe que os cabelos pretos e lisos daquela mulher, emoldurando um rosto arredondado cor de bronze, assemelham-se aos traços fisionômicos de sua mãe.

Manolo e Margarida, num castelhano cochichado í s pressas, falam sobre o menino perdido na noite. Ainda assustado, Carlinhos fica esperando a decisão dos dois.

- Podes acomodar-te aqui até amanhã – fala-lhe a mulher. Vou arrumar-te um canto aqui na cozinha, onde podes dormir. Espero que sejas um bom menino.

- Muito brigado, sinhora! Vou me comportá bem – responde Carlinhos.

- Amanhã vamos ver o que podemos fazer por ti – intervém Manolo.

Depois de ajeitar alguns pelegos no chão e fornecer um travesseiro e um velho cobertor para o inesperado visitante, o casal castelhano deu-lhe boa-noite, retornando ao quarto de dormir. Carlinhos, dominado pela canseira, ajeitou-se sobre os pelegos, onde, minutos depois, caiu em sono profundo.

Ao acordar, o garoto esfregou de leve os olhos anuviados, percebendo, então, os contornos do ambiente. De iní­cio, teve que forçar a sua memória para saber onde se encontrava. Foi quando percebeu o perfil de uma menina junto í  chapa do fogão da cozinha. Ela estava lidando para acender o fogo. Quieto no seu canto, Carlinhos ficou a observá-la com a curiosidade de um adolescente.

Menina esbelta, de estatura mediana, aparentando uns doze anos. Longos cabelos pretos e lisos, presos por uma “maria chiquinha”. Rosto arredondado, olhos negros. No peito, duas pequenas saliências por debaixo da camiseta. Logo abaixo, um short bem justo, continuando com pernas lisas e bem torneadas. Pele bronzeada, denunciando caracterí­sticas de ancestrais nativos, semelhantes aos de sua própria famí­lia.

Envolvido por sensações e sentimentos inusitados, Carlinhos ficou encabulado, até mesmo com receio de se levantar. Esquecido de sua real situação, deixou-se embalar pela imagem da menina castelhana, passando alguns minutos deliciosos. Voltando í  realidade, procurou conduzir seu pensamento para os acontecimentos da noite anterior. Só então voltou í  realidade, se dando conta da enrascada em que se metera.

Para disfarçar seus recentes devaneios, espichou braços e pernas sobre os pelegos, deu um longo bocejo, insinuando para a menina que estava acordado. Ao levantar-se, ela parecia examiná-lo de cima até em baixo. Procurando fugir daquela situação embaraçosa, Carlinhos dirigiu-lhe um tí­mido “Buenos Dias” e, sem encarar sua interlocutora, procurou, na área de entrada da cozinha, uma gamela com água para lavar seu rosto, agora quase em fogo.

í€ luz do dia, pôde perceber que as instalações da propriedade eram bem cuidadas, limpas, tudo bem arrumadinho. Por um momento, sentiu-se envergonhado, como se aqueles castelhanos conhecessem o lugar onde ele morava com sua famí­lia. Ainda estava se enxugando quando Manolo e Margarida retornavam do estábulo, ela ocupada com um balde de leite.

Depois do café, Manolo dirigiu-se í  margem do rio para “sondar o terreno”. Enquanto isso, mãe, filha e “hóspede” se entretinham com conversas sobre seus afazeres e a vida de suas famí­lias.

Carlinhos sofreu um choque quando soube que a menina de suas emoções chamava-se Ramona. “Nome estranho – pensou ele – nem parece nome de menina!” Ficou mais conformado quando ela lhe disse que o nome era uma homenagem a seu avô Ramon.

Sempre que Dona Margarida não estava de olho nele, o brasileirinho dirigia um olhar discreto para a castelhaninha, procurando controlar-se para o coração não lhe saltar do peito. Ramona, percebendo o interesse do guri, incentiva-o através de leves sorrisos e piscadelas. Infelizmente, ambos tiveram que se contentar com tais mensagens subliminares, pois, sem demorar, Manolo voltou, anunciando que tudo estava limpo para a travessia.

- Tem que ser logo, antes que algum “gendarme” apareça nas cercanias.

Maria da Graça, depois de muita aflição, pôde, novamente, ter o sapeca de seu filho em casa. Também o marido Bastião foi libertado, depois que o patrão molhou a mão dos gendarmes … Só que, com isso, a dí­vida da pobre famí­lia com o bolicheiro cresceu ainda mais, implicando novos riscos, em chibos futuros e outros serviços perigosos.

Carlinhos nunca mais esqueceu a bela imagem de Ramona. Estava sempre a seu lado e em seu coração; em sonhos, lhe segurava delicadamente a mão. Ela passou a ser sua força quando pensava em gazear aula, não fazer as lições, não trabalhar. Lembrando-se sempre de que Ramona estava em situação bem melhor do que a dele, não perdia oportunidades para crescer em todos os sentidos, na esperança de, um dia, alcançar o mesmo ní­vel da bela castelhaninha. Só então iria procurá-la novamente, para, ao lado dela, alçar vôos mais altos…

Artigo incluído por em 12.setembro.2009 • 
Assunto: Estórias do vovó

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Pontos de costura textual: Sugestão de atividades práticas

(Fundamentação teórica: “Pontos de costura textual: conexões e conetivos” do mesmo autor)

Roque Amadeu Kreutz

Antes de tudo, vai aqui um alerta para evitar equí­vocos no ensino: para a aprendizagem da lí­ngua materna, não basta que se ofereçam aos alunos atividades de leitura e produção textual com base nas conexões lógicas e discursivas. Essas atividades representam apenas uma das muitas dimensões do processo de aprendizagem. Ou seja, constituem somente uma abordagem parcial das microestruturas textuais, já que estas também compreendem outros aspectos, ligados í  gramaticalidade e í  aceitabilidade dos enunciados de um texto.

Dentro desse espí­rito, apresentarei algumas atividades que considero úteis ao professor de lí­ngua materna. íšteis não para reproduzir em sua prática docente, mas para lhe servirem de pistas para desempenhar suas atribuições docentes com mais eficácia. Em outras palavras, espero que estas reflexões sobre o uso da lí­ngua interfiram em atividades docentes tais como: preparar leituras compreensivas mediante a elaboração de questões “inteligentes” para os alunos; propor atividades de produção textual também preocupadas com as microestruturas textuais; diagnosticar, adequadamente, problemas de desempenho dos alunos, sobretudo no que diz respeito a conexões entre proposições. Sobre essas três atividades docentes quero sugerir algumas atividades práticas.

1. Proposta de leitura compreensiva (restrita)

1.1 Texto:

DONO DE RESIDíŠNCIA REAGE A UM ASSALTO E MATA LíDER DE GANGUE

Grupo tentou invadir uma casa em Canoas e foi recebido a facão. Além de uma morte                               outro jovem saiu ferido na perna

(1º) Atacado por uma gangue que apedrejou e tentou invadir a sua residência, no número 1015 da Rua São Pedro Pescador, na Vila Santo Operário, em Canoas, ontem, í  1h30min, o proprietário da moradia, identificado como Jairo, investiu contra o grupo empunhando um facão. (2º) í‰lvio Chaves Antunes, 20 anos, foi morto com duas facadas no tórax e Marcos Aurélio Camargo Apieda, 20, ferido na perna esquerda. (3º) Diante da reação, os demais integrantes do grupo fugiram. (4º) Jairo abandonou a casa com a mulher e o filho para não ser preso em flagrante e prometeu se apresentar amanhã.

(5º) Um menor, com 17 anos, amigo de í‰lvio, afirmou que os jovens eram moradores da Vila Mathias Velho e que tinham sido atacados por um grupo rival ao entrarem na Vila Santo. (6º) Porém, sua versão foi desmentida por vizinhos de Jairo que a tudo testemunharam. (7º) Segundo eles, os rapazes entraram no terreno e passaram a atirar tijolos, pedras e pedaços de pau na porta da residência. (8º) “Eles queriam invadir a casa para roubar”, afirmaram os PMs Joelsio Canto e Cilon Nunes, do 15º BPM.

(9º) O proprietário armou-se com um facão e saiu a rua e passou a desferir pranchaços contra os integrantes da gangue e, como eles não recuavam, esfaqueou í‰lvio e Marcos. (10º) Ao verem os companheiros feridos, os outros fugiram. (11º) í‰lvio ainda tentou escapar, mas tombou na Rua dos Professores, a 100 metros da casa de Jairo. (12º) PMs encontraram Marcos caí­do num barranco e o levaram para o Hospital Nossa Senhora das Graças, onde ficou internado. (13º) Após o episódio, Jairo pegou a famí­lia e fugiu a pé.

(Texto da seção “Polí­cia” do jornal “Zero Hora”, de 26 de janeiro de 1992, p. 39.)

(A numeração dos perí­odos foi acrescida ao original para orientar a leitura analí­tica abaixo.)

1.2 Sugestão de leitura analí­tica fundamentada nas conexões lógico-semí¢nticas e discursivas

I – No tí­tulo (manchete), o autor estabelece uma conexão temporal – tempo simultí¢neo – entre duas proposições, marcada pelo conetivo “e”: (a) dono de residência reage a um assalto, (b) e (durante essa reação) mata lí­der de gangue. Os fatos são detalhados no texto.

II – No subtí­tulo – Grupo tentou invadir uma casa em Canoas e foi recebido a facão. Além de uma morte outro jovem saiu ferido na perna – ocorre uma conexão causal, marcada pelo conetivo “e” (com valor de “por isso”), entre as duas orações do 1º perí­odo. A mesma relação ocorre implicitamente entre o 1º e o 2º perí­odos: (Porque um) grupo tentou invadir uma casa em Canoas e (porque) foi recebido a facão (causas), além de uma morte outro jovem saiu ferido (conseqüências/efeitos). Observe-se que não só as proposições causais, mas também as que expressam conseqüências estão conectadas entre si por conexão aditiva explí­cita: “e” e “além de”, respectivamente.

III – No 1º perí­odo do texto, mais uma vez se verifica uma conexão causal (não marcada), entre “Atacado……. como Jairo (causa)”  e  “o proprietário ….. um facão (conseqüência)”.  Nesse mesmo perí­odo está explicitada, ainda, uma conexão aditiva entre duas ações da gangue: “apedrejou e tentou invadir a sua residência.”

IV – A conseqüência do 1º perí­odo (“o proprietário da moradia … investiu contra o grupo empunhando um facão”), por sua vez transforma-se em causa em relação aos dois fatos relatados no 2º perí­odo, cujas duas proposições estão conectadas entre si por adição explí­cita, objetivada  pelo conetivo “e”.

V – No 3º perí­odo, o jornalista retoma genericamente as ações de Jairo, através da expressão “Diante da reação”, categorizando esta como causa de “os demais integrantes do grupo fugiram” (conseqüência). Portanto, essa relação da causa-conseqüência está explicitada pela expressão conectora “diante de”.

VI – Entre o 3º e o 4º perí­odos ocorre uma conexão temporal não marcada (justaposição): o fato narrado no 3º perí­odo ocorre antes (tempo anterior) do que os narrados no 4º perí­odo (tempo posterior).

VII – As conexões do 4º perí­odo se tornam mais claras se forem consideradas em três ní­veis distintos: (a) Num primeiro ní­vel, há uma conexão opositiva, marcada pelo conetivo “e” (polissêmico), aqui com valor de “mas”. Portanto, apesar da aparente adição, existe oposição entre os conteúdos das proposições “Jairo…. em flagrante”  e  “prometeu….. amanhã”. (b) Num segundo ní­vel, deve ser focalizado apenas o primeiro segmento do perí­odo, no qual existe uma conexão “meio-fim”, marcada pelo conetivo “para”: “Jairo abandonou a casa com a mulher e o filho (meio) para não ser preso em flagrante (fim).” (c) Num terceiro ní­vel, ocorre uma conexão aditiva explí­cita entre os termos “a mulher” + ” o filho”, através do conetivo “e”.

VIII – No 5º perí­odo (segundo parágrafo), ocorrem as seguintes conexões: (a) Num primeiro ní­vel, há uma conexão conformativa, não marcada por conetivo, entre “Um menor…….. afirmou”   e   “que os jovens……… Vila Santo.” (b) Num segundo ní­vel, a situação traduzida por “os jovens eram moradores de Vila Mathias Velho”,  e o fato traduzido por “tinham sido atacados por um grupo rival” estão explicitamente conectados entre si pelo conetivo “e”. Tudo isso pode ser interpretado como a soma de dois argumentos para atenuar a ação praticada pela gangue.

IX – Aos argumentos apresentados no 5º perí­odo, opõe-se a afirmação contida no 6º (decisivo para uma nova versão dos fatos). Entre esses dois perí­odos, há uma conexão opositiva, marcada pelo conetivo “porém”.

X – (a) O conteúdo do 7º perí­odo, enquanto um todo, explica o conteúdo do 6º. Assim sendo, entre ambos pode ser identificada uma conexão explicativa/justificativa não marcada por conetivo. (b) Num primeiro ní­vel do 7º perí­odo, entre os segmentos “Segundo eles” e “os rapazes…..residência”, há uma conexão conformativa explicitada pelo conetivo “segundo”. (c) Num segundo ní­vel, ocorre uma conexão aditiva explí­cita entre “os rapazes entraram no terreno” + “passaram a atirar tijolos, pedras e pedaços de pau na porta da residência”, manifestada pelo conetivo “e”. Imbricada com essa conexão aditiva percebe-se também uma conexão temporal do tipo “tempo anterior – tempo posterior”. Predominantemente, porém, trata-se da soma de argumentos que incriminam os rapazes. (d) Finalmente, num terceiro ní­vel, realizam-se conexões aditivas entre os termos “tijolos, pedras e pedaços de pau”, sendo apenas a última marcada explicitamente.

XI – (a) Aos argumentos contidos no 7º perí­odo (contra os componentes da gangue) somam-se os do 8º. Entre esses dois perí­odos existe uma conexão aditiva não marcada. (b) No 8º perí­odo, por sua vez, encontra-se uma conexão conformativa, não marcada por conetivo, entre os segmentos “Eles queriam invadir a casa para roubar” e “afirmaram ….. BPM.” (c) Num segundo ní­vel do primeiro segmento, existe uma conexão “meio-fim”: “Eles queriam invadir a casa (meio) para roubar (fim)”. Já num segundo ní­vel do segundo segmento, há uma conexão aditiva explí­cita entre os PMs sujeitos da afirmação: ” Joelsio Canto” +  “Cilon Nunes”.

XII – No 9º perí­odo, ocorre uma conexão temporal “tempo anterior + tempo posterior/tempo anterior + tempo posterior”, depreensí­vel do conteúdo das proposições interligadas, conexão esta marcada pelo conetivo polissêmico “e”. Dentro da última dessas três proposições interligadas temporalmente, ocorre uma conexão causal marcada pelo conetivo “como”: “como eles não recuaram (causa), esfaqueou í‰lvio e Marcos” (conseqüência).

XIII – Entre a terceira proposição do 9º perí­odo e todo o 10º perí­odo, ocorre mais uma conexão temporal não marcada: tempo anterior + tempo posterior.  A mesma conexão se encontra também entre as duas proposições do 10º perí­odo, desta vez marcada  pelo conetivo “a” (ao) + infinitivo.

XIV – As duas proposições do 11º perí­odo estão interligadas por oposição, marcada por “mas”.

XV – O fato relatado no 11º perí­odo e os três fatos relatados no 12º estão todos interligados por conexão temporal: tempo anterior + tempo posterior/tempo anterior + tempo posterior…. A primeira e a terceira dessas conexões não estão marcadas por conetivo; a segunda está marcada por “e” (conetivo polissêmico).

XVI – No último perí­odo, o autor do texto recupera o conjunto dos fatos relatados anteriormente, denominando-os pelo nome genérico “episódio”. Estabelece entre esse “episódio” e a fuga de Jairo (com sua famí­lia) uma conexão temporal “tempo anterior + tempo posterior”, através do conetivo “após”.

A leitura analí­tica, explicitada acima, pode fornecer subsí­dios para leituras de natureza mais abrangente. Para uma leitura “global”, certamente é significativo que o primeiro parágrafo é dominado por uma conexão causal, seguindo-se uma temporal; o segundo, por conexões conformativas; e o terceiro, por nova conexão temporal, seguindo-se uma causal. Isso, por exemplo, poderia indicar que, no primeiro parágrafo, o autor aborda principalmente as causas do episódio; no segundo, algumas “versões” dadas ao episódio; e no terceiro, o fato em si, narrado em sua seqüência cronológica.

2. Atividades de produção textual em ní­vel microestrutural

Proposta: Produzir outras versões de proposições ou locuções interligadas no texto “Dono de residência reage a um assalto e mata lí­der de gangue”, sem alterar as relações lógicas ou discursivas existentes entre elas. (í‰ claro que cada versão terá uma conotação especí­fica.).

I – Conexão causal, no 1º perí­odo do texto: “Atacado por uma gangue que apedrejou e tentou invadir a sua residência, no número 1015 da Rua São Pedro Pescador, na Vila Santo Operário, em Canoas, ontem, í  1h30min, o proprietário da moradia, identificado como Jairo, investiu contra o grupo empunhando um facão.”

a) Porque (uma vez que/já que, visto que) foi atacado por uma  gangue……… investiu contra o grupo empunhando um facão.

b) Por ter sido atacado por uma gangue…….. um facão.

c) Como fosse atacado por uma gangue……. um facão.

d) Uma gangue apedrejou e tentou invadir uma residência, no número 1015 da Rua São Pedro Pescador, na Vila Santo Operário, em Canoas, ontem, í  1h30min; por isso, o proprietário da moradia, identificado como Jairo, investiu contra o grupo empunhando um facão.

e) O proprietário da moradia número 1015 da Rua São Pedro Pescador, na Vila Santo Operário, em Canoas, ontem, í  1h3Omin, identificado como Jairo, investiu contra uma gangue empunhando um facão. Ttinha sido atacado pelo grupo que apedrejou e tentou invadir a sua residência.

II – Conexão opositiva, no 4º perí­odo do texto (1º parágrafo), entre as duas proposições que constituem o primeiro ní­vel: “Jairo abandonou……… e prometeu se apresentar amanhã.”

a) Jairo abandonou………., mas (porém, todavia, entretanto) prometeu se apresentar amanhã.

b) Embora abandonasse a casa com a mulher e o filho para não ser preso em flagrante, Jairo prometeu se apresentar amanhã.

c) Mesmo abandonando a casa com a mulher e o filho para não ser preso em flagrante, Jairo prometeu se apresentar amanhã.

d) Apesar de abandonar a casa com a mulher e o filho para não ser preso em flagrante, Jairo prometeu se apresentar amanhã.

e) Jairo abandonou a casa com a mulher e o filho para não ser preso em flagrante. Prometeu se apresentar amanhã.

III – Conexão “meio-fim”, no 4º perí­odo do texto (1º parágrafo): “Jairo abandonou a casa com a mulher e o filho para não ser preso em flagrante(…).”

a) Jairo abandonou a casa com a mulher e o filho a fim de (com o objetivo de/com o propósito de) não ser preso em flagrante (…).

b) Jairo abandonou………. a fim de que não fosse preso em flagrante (…)

IV – Conexão conformativa, no 5º perí­odo do texto (2º parágrafo): “Um menor, com 17 anos, amigo de í‰lvio, afirmou que os jovens eram moradores da Vila Mathias Velho e que tinham sido atacados por um grupo rival ao entrarem na Vila Santo.”

a) Segundo (conforme, de acordo com) um menor, com 17 anos, amigo de í‰lvio, os jovens eram moradores da Vila Mathias Velho e tinham sido atacados por um grupo rival ao entrarem na Vila Santo.

b) Consoante a afirmação de um menor, com 17 anos….(Idem í  versão anterior.)

V – Conexão aditiva no segundo ní­vel do 7º perí­odo (2º parágrafo): “Segundo eles, os rapazes entraram no terreno e passaram a atirar tijolos, pedras e pedaços de pau na porta da residência.”

a) Segundo eles, os rapazes não só entraram no terreno, mas também passaram a atirar tijolos, pedras e pedaços de pau na porta da residência.

b) Segundo eles, os rapazes, além de entrarem no terreno, passaram a atirar tijolos, pedras e pedaços de pau na porta da residência.

c) Segundo eles, os rapazes entraram no terreno; além disso, passaram a atirar tijolos, pedras e pedaços de pau na porta da residência.

VI – Conexão temporal “tempo anterior + tempo posterior”, no 10º perí­odo do texto (3º parágrafo): “Ao verem os companheiros feridos, os outros fugiram.”

a) Quando (assim que, logo que, mal apenas) viram os companheiros feridos, os outros fugiram.

b) Vendo os companheiros feridos, os outros fugiram.

c) Depois de (após) verem os companheiros feridos, os outros fugiram.

Como se pode observar nas atividades acima realizadas, há substituições de conetivos ou expressões conectoras que exigem adaptações estruturais nas proposições ou locuções conectadas. Isso significa que, ao lado da aprendizagem das conexões, outras aprendizagens deverão ser promovidas.

Também cabe uma observação sobre simples deslocamentos de proposições ou termos no enunciado. Se tais deslocamentos forem considerados outras tantas versões dos respectivos enunciados, podemos multiplicar ainda mais as versões, realizando uma série de trocas de posição (sem mexer em outros aspectos estruturais das proposições). Por exemplo, proposições iniciais poderiam passar para posições finais, sempre que as regras gramaticais permitirem tais deslocamentos.

3. Práticas de avaliação textual em ní­vel microestrutural

Atividade: Identificar, classificar e propor soluções para problemas de conexão entre proposições e/ou locuções.

Objeto: Redação de uma aluna, transcrita fielmente do original.

O ATO DE REDIGIR

A prática de redigir é muito importante para a formação de grandes e pequenos comunicadores e profissionais.

A importí¢ncia de redigir não é só por causa da necessidade de escrever cartas, ofí­cios, artigos e demais correspondência, e sim porque a escrita tem sido um meio de comunicação muito usado em qualquer parte do mundo para longa ou pequena distí¢ncia.

Por conseguinte, o ato de redigir nos trouxe o aperfeiçoamento e o aparecimento de grandes escritores tanto na área jornalí­stica, na literatura, na polí­tica e outras. E muitos leitores de revistas, jornais e livros estão mais atentos em suas leituras buscando sempre a evolução e seleção dos bons textos, com isso, tornando-se crí­ticos em suas leituras, para que este leitor se torne um bom redator.

Por outro lado, a prática de redigir é fundamental porque é um excelente exercí­cio para o raciocí­nio e para o desenvolvimento da capacidade de se expressar.

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Antes de iniciar a avaliação das conexões microestruturais do texto transcrito, vou “arriscar” uma avaliação da possí­vel caminhada escolar da aluna-autora, com base em indicadores do próprio texto. Reconheço, no entanto, que uma única redação não é suficiente para validar uma conclusão decisiva sobre essa caminhada.

Na redação transcrita (fielmente) não ocorrem problemas de ortografia, nem de acentuação gráfica. Além disso, os problemas de concordí¢ncia, regência e colocação, se é que os há, são pouco representativos. Assim, o texto-exemplo revela um desempenho satisfatório em aspectos trabalhados no ensino tradicional do português: ortografia, acentuação, concordí¢ncia, regência, etc.

Todavia, quanto a seu aspecto geral, o texto revela um desempenho lingüí­stico problemático, contendo desvios em aspectos lógico-semí¢nticos, morfossintáticos, pragmáticos. Certamente trata-se de aspectos não trabalhados nas aulas de português da aluna. Assim, no ní­vel de escolaridade em que a aluna se encontra, o professor precisa identificar e classificar corretamente os problemas para, somente então, propor-lhe atividades adequadas de aprendizagem para superá-los.

Observemos, ainda, que, além da retificação das conexões problemáticas, a redação-exemplo exige uma série de outros aperfeiçoamentos. Embora a orientação desses aperfeiçoamentos não faça parte dos objetivos do presente trabalho, não podemos deixá-los de lado, uma vez que os diferentes aspectos de desempenho lingüí­stico estão interligados.

Avaliação do texto “O ATO DE REDIGIR”

I – Os problemas de conexão microestrutural do texto em foco iniciam já no 2º perí­odo (que coincide com o 2º parágrafo). Para somar argumentos a favor da importí¢ncia do ato de redigir, a aluna valeu-se das expressões conectoras “não é só”, na primeira proposição, e “e sim”, na segunda. O primeiro elemento indica que ela, certamente, pretendia usar a primeira parte da expressão conectora aditiva descontí­nua “não só… mas também”. Se assim for, o segundo elemento usado (“e sim”) também deveria ser substituí­do. O perí­odo corrigido teria, então, a seguinte redação: “A importí¢ncia de redigir é não só por causa da necessidade de……… correspondência, mas também porque……. distí¢ncia.”

II – Os demais problemas do perí­odo são de outra natureza. Mesmo assim, vamos descrevê-los: A aluna se propôs a listar argumentos (motivos) para justificar a importí¢ncia do ato de redigir. Estava, pois, falando do tema “ato de redigir”, atribuindo-lhe importí¢ncia e listando as razões dessa importí¢ncia. Portanto, o sujeito/tema da frase deveria ser o ato de redigir; por outro lado, aquilo que se afirma do tema, isto é, o “rema”, deveria ser o predicado (a importí¢ncia do ato de redigir, bem como os razões dessa importí¢ncia). Se reestruturarmos o enunciado com base nessa análise, teremos: “O ato de redigir (ou, simplesmente, “redigir”) é importante não só por causa da necessidade de escrever cartas, ofí­cios, artigos e demais correspondência, mas também porque a escrita tem sido um meio de comunicação muito usado em qualquer parte do mundo para longa ou pequena distí¢ncia.”

III – Antes de abordar um segundo problema de conexão nesse perí­odo, vejamos um problema de adequação vocabular, estreitamente vinculado a ele: correspondência é um nome genérico em cuja extensão estão incluí­dos cartas e ofí­cios, mencionados em posição anterior. Entretanto, o nome “artigos”, somado aos dois nomes anteriores (cartas + ofí­cios) e ao nome posterior (correspondência), pertence a outra categoria semí¢ntica. Por conseguinte, trata-se de uma cadeia de conexões aditivas (ou conjuntivas) inadequadas. Uma maneira de corrigi-las seria reordená-las, sem misturar categorias e sem misturar nomes genéricos com nomes especí­ficos: “(…) necessidade de escrever artigos, cartas, ofí­cios e outros tipos de correspondência (…)”

IV – No mesmo 2º perí­odo do texto, ocorre ainda um terceiro problema de conexão: falta de paralelismo entre as duas razões que justificam a importí¢ncia do ato de redigir. As regras de uso de certos conetivos aditivos exigem que as proposições ou locuções por eles interligadas sejam simétricas, isto é, que tenham a mesma natureza semí¢ntica e gramatical. Para a solução desse problema, podem ser adotadas duas versões: (a) “(…) não só porque é necessário escrever artigos, cartas, ofí­cios e outros tipos de correspondência, mas também porque a escrita tem sido um meio de comunicação muito usado em qualquer parte do mundo para longa ou pequena distí¢ncia.” (b) “não só por causa da necessidade de escrever artigos, cartas, ofí­cios e outros tipos de correspondência, mas também por causa de a escrita ser um meio de comunicação muito usado em qualquer parte do mundo para longa ou pequena distí¢ncia.” (A versão “b” ainda poderia ser contestada por usar uma expressão conectora própria de uma relação causal, em vez de uma própria da relação explicativa/justificativa…).

V – Um quarto problema de conexão aparece no iní­cio do 3º parágrafo: trata-se do uso inadequado do conetivo conclusivo. O conteúdo desse parágrafo não tem articulação dedutiva ou indutiva com o conteúdo anterior. í‰ antes uma soma de conteúdos ou argumentos a favor da importí¢ncia do ato de redigir. Assim, o 3º parágrafo deve ligar-se ao(s) anterior(es) por adição, a qual pode dispensar conetivo explí­cito.

VI – No 1º perí­odo do 3º parágrafo ocorre ainda outro problema de conexão: novamente a aluna iniciou uma conexão aditiva de termos, usando apenas um dos elementos de um par correlato, “tanto”, omitindo o seu conseqüente, “quanto”. Portanto, a reescritura deverá incluir o segundo elemento dessa expressão conectora descontí­nua: “(…) tanto na área jornalí­stica, na literatura, na polí­tica, quanto outras.”

Mesmo com esse ajuste, continua havendo problema de conexão, pois falta paralelismo entre os termos conectados: (1) entre “área jornalí­stica” (substantivo + adjetivo), de um lado, e “literatura” e “polí­tica” (substantivos), de outro. (2) entre essa série de substantivos e o pronome adjetivo “outras”. O primeiro problema é de natureza mais estilí­stica do que gramatical.

Para eliminá-lo, poderiam ser adotadas duas soluções: substituir “área jonalí­stica” por “jornalismo”, ou transformar as expressões “na literatura”, “na polí­tica” em adjetivos vinculados ao substantivo anterior “área”. Os resultados, respectivamente, seriam os seguintes: “(…) tanto no jornalismo, na literatura, na polí­tica, quanto outras.” Ou: ” (…) tanto nas áreas jornalí­stica, literária, polí­tica, quanto outras.”

O segundo problema (falta de simetria entre “outras” e os antecedentes) pode ser resolvido pelo acréscimo da preposição “em” ao último termo (presente nos demais termos da cadeia), bem como pelo acréscimo do substantivo-núcleo desse termo (“áreas”): “(….) quanto em outras áreas.”

VII – Também ocorre um problema de conexão entre o 1º e o 2º perí­odos do 3º parágrafo. Conforme me parece, a autora estabelece equivocadamente uma conexão aditiva onde deveria haver uma conexão causal (ou explicativa).  Numa primeira versão, a conexão entre esses dois perí­odos poderia ser assim estruturada: “O ato de redigir nos trouxe………. quanto em outras  áreas (causa). Por isso (decorre disso que) muitos leitores……… um bom redator (conseqüência).” Numa segunda versão, poderí­amos iniciar  pela conseqüência (“Muitos leitores……. um bom redator.”) e terminar com a causa (“Isso acontece – retomada da conseqüência –   porque o ato de redigir…….. quanto em outras áreas.”)

VIII – Para facilitar o nosso trabalho de correção do 2º perí­odo do 3º parágrafo, vamos descrever todas as conexões que nele ocorrem, mesmo as que estão gramaticalmente corretas.

(a) Entre as duas primeiras proposições (“muitos leitores……em suas leituras” de um lado, e “buscando….. dos bons textos”, de outro) há uma relação de explicação/justificativa. A explicitação dessas relações teria facilitado a legibilidade do enunciado: “muitos leitores….. tanto que buscam….. dos bons textos”.

(b) Há uma conexão “meio-fim/resultado” entre “com isso” (meio) e “tornando-se crí­ticos em suas leituras” (resultado). Já que a expressão “com isso” retoma a asserção e a justificativa apresentadas anteriormente, o conteúdo do “meio” encontra-se nessas proposições.

(c) Finalmente, a expressão conectora “para que” introduz uma proposição final. Entretanto, a essa “finalidade” deveria vincular-se um meio, mas isso não acontece. Trata-se, pois, de uma proposição final solta. Uma possí­vel interpretação desse fato seria a de que entre as duas últimas proposições estaria ocorrendo uma conexão aditiva, visto que ambas expressam resultado ou fim. No caso, ambas estariam conectadas a um mesmo “meio”, apresentado anteriormente pela expressão “com isso”. Assim sendo, a correção deveria ser feita de acordo com a seguinte reescritura: “(…) com isso, tornando-se crí­ticos em suas leituras e tornando este leitor um bom redator.

(d) Para não nos perdermos, vejamos como ficou o perí­odo com as correções até aqui sugeridas: “Isso acontece porque muitos leitores de revistas, jornais e livros estão mais atentos, tanto que buscam sempre a evolução e seleção dos bons textos, com isso, tornando-se crí­ticos em suas leituras e tornando este leitor um bom redator.”

IX – Como podemos constatar, mesmo com as correções sugeridas, o enunciado analisado continua tendo problemas, sobretudo no que tange a sua aceitabilidade ou legibilidade. Para resolvê-los, temos de apelar também para recursos lingüí­sticos e estilí­sticos não pertencentes ao quadro de referência exposto neste ensaio. Continuemos, pois, a nossa atividade docente, fundamentando-a em conhecimentos que vão além das conexões lógico-semí¢nticas e discursivas.

(a) Iniciemos por uma sugestão estilí­stica, segundo a qual os perí­odos muito extensos e/ou complexos são de difí­cil leitura. Por conseguinte, poderí­amos dividir o 2º perí­odo do 3º parágrafo em dois, fazendo as adaptações gramaticais necessárias: “Muitos leitores de revistas, jornais e livros estão mais atentos em suas leituras, tanto que buscam sempre a evolução e seleção dos bons textos. Com isso, tornam-se crí­ticos em suas leituras e tornam este leitor um bom redator.”

(b) Apesar desse aperfeiçoamento, continuam existindo problemas lingüí­sticos. O primeiro é de inadequação vocabular: O que é “buscar a evolução e seleção dos bons textos?” Estamos, agora, diante de um impasse, em que nós, professores de português, se não discutirmos o problema diretamente com a autora do texto, só podemos agir por “palpite”.  Talvez a aluna quisesse dizer: “(…) tanto que realizam a seleção e promovem a evolução dos bons textos.” O segundo é falta de simetria entre os termos conectados por adição: a evolução e seleção (sem “a”). O terceiro é um problema de referenciação: Qual é a referência da locução “este leitor”? De que leitor se trata? A determinação, realizada pelo demonstrativo “este”, exigiria uma referência catafórica; ou, se a aluna escreveu “este” em vez de “esse” por engano, exigiria uma referência anafórica. Talvez ela quisesse retomar anaforicamente a referência “muitos leitores” (iní­cio do perí­odo). Nesse caso, teria cometido um erro de concordí¢ncia. Fiquemos, todavia, com a última hipótese para reescrever o enunciado: “Com isso, tornam-se crí­ticos em suas leituras e tornam esses leitores bons redatores.” Com essa correção, se adotarmos um ponto de vista exclusivamente localizado no enunciado, a falha estaria resolvida. No entanto, “esses leitores” refere-se ao sujeito “muitos leitores” que domina os verbos das orações anteriores, bem como o próprio verbo da oração em apreço: “tornam”. Em outras palavras, o referente-sujeito “muitos leitores” e o referente-objeto “esses leitores” é o mesmo. Portanto, aplica-se a regra transformacional de reflexivização: muitos leitores “tornam-se”. Além disso, “tornam” e “se” são termos repetidos, pois já se encontram na oração anterior, em que o sujeito é o mesmo. Por isso, podemos aplicar mais uma regra transformacional, a de apagamento (elipse). Teremos, assim, a versão do enunciado: “Com isso, tornam-se crí­ticos em suas leituras e bons redatores.” Aplicando a essa versão uma regra de deslocamento (não necessária gramaticalmente, mas recomendada estilisticamente), teremos: “Com isso, tornam-se crí­ticos e bons redatores em suas leituras.”

X – No último perí­odo do texto (que coincide com o último parágrafo), ocorre, novamente, um problema de conexão: não há simetria entre os segmentos conectados pelo conetivo aditivo “e”.  Enquanto a locução “para o raciocí­nio” se refere ao beneficiário de uma atividade (no caso, um exercí­cio), a locução “para o desenvolvimento da capacidade de se expressar” refere-se a uma finalidade da mesma atividade. A correção desse erro realiza-se pela eliminação do conetivo aditivo. Entretanto, a essa correção pode ser acrescentada uma sugestão de natureza estilí­stica para eliminar a ambigüidade gerada pelo primeiro “para”, que poderia ser substituí­do pela preposição “de”. Assim, o único perí­odo do último parágrafo passaria ter a seguinte redação: “Por outro lado, a prática de redigir é fundamental porque é um excelente exercí­cio de raciocí­nio para o desenvolvimento da capacidade de se expressar.”

Para sistematizar a avaliação textual acima realizada, vou fazer a reescritura de todo o texto “O ato de Redigir”, facilitando a sua comparação com a redação original. Com isso, porém, não estou querendo sugerir que o texto reescrito esteja perfeito.

O ATO DE REDIGIR

A prática de redigir é muito importante para a formação de grandes e pequenos comunicadores e profissionais.

O ato de redigir é importante não só por causa da necessidade de escrever artigos, cartas, ofí­cios e demais tipos de correspondência, mas também por causa de a escrita ser um meio de comunicação muito usado em qualquer parte do mundo para longa ou pequena distí¢ncia.

O ato de redigir nos trouxe o aperfeiçoamento e o aparecimento de grandes escritores, tanto no jornalismo, na literatura, na polí­tica, quanto em outras áreas. Muitos leitores de revistas, jornais e livros estão mais atentos em suas leituras, tanto que realizam a seleção e promovem a evolução dos bons textos. Com isso, tornam-se crí­ticos e bons redatores em suas leituras.

Por outro lado, a prática de redigir é fundamental porque é um excelente exercí­cio de raciocí­nio para o desenvolvimento da capacidade de se expressar.

Artigo incluído por em 12.setembro.2009 • 
Assunto: Apredizagem produtiva

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Pontos de costura textual: conexões e conetivos

Roque Amadeu Kreutz

A composição de um texto pode ser comparada í  confecção de uma peça de vestuário; por exemplo, í  confecção de um paletó. O tecido (de um ou mais tipos) é recortado em pedaços de diferentes formas e tamanhos. As extremidades de cada pedaço são ligadas entre si por pontos de costura, transformando-se em partes com funções próprias: partes de trás, partes da frente, mangas, bolsos, gola, botões, barras … Todas essas partes, bem ajustadas, formam um todo harmônico chamado “paletó”.

Na junção das partes, são importantes os tipos de pontos da costura – pontos simples, duplos, em curva, em linha reta, em zigue-zague… – bem como os botões, os fechos, as barras, as sobreposições. Enquanto os botões e fechos, por exemplo, realizam ora conjunções, ora disjunções, as barras e as sobreposições evitam bordas abruptas e esfiapadas, garantindo o bom acabamento do produto.

Na construção de um texto, a junção das partes (palavras, locuções, frases, parágrafos) realiza-se ora por conetivos ou expressões conectoras, ora por simples justaposições. São seus diferentes pontos de costura, botões, barras, sobreposições, próprios para costurar um texto. O uso adequado desses recursos da lí­ngua facilita a compreensão do texto por parte do ouvinte/leitor (garante a sua “legibilidade”). Portanto, o conhecimento do sentido de cada conetivo ou expressão conectora é muito importante, tanto para o falante/autor quanto para o ouvinte/leitor do texto.

No entanto, o sentido global de um texto não se apresenta de maneira tão transparente como o “sentido” de uma peça de vestuário. Isso porque não se revela através de caracterí­sticas externas, mas através de uma leitura inteligente e bem conduzida. Leitura em que é importante identificar e compreender os diferentes tipos de junções ou conexões entre as partes. í‰ através da significação das partes e dos tipos de conexões existentes entre elas que podemos atribuir um sentido global a um texto.

Este ensaio contém apenas a significação de alguns tipos de conexão, especificamente as conexões que ocorrem entre pequenas partes de um texto. Partes estas que, na Lingüí­stica Textual, são conhecidas como microestruturas. Em outras palavras, contém somente algumas conexões lógico-semí¢nticas e discursivas que se estabelecem entre o conteúdo de proposições ou locuções. Conteúdo que expressa diferentes aspectos da realidade objetiva ou subjetiva, tais como situações, fatos, idéias, experiências pessoais, julgamentos, etc. Para explicá-las, vou ilustrar cada conexão com exemplos em que ocorrem recursos lingüí­sticos capazes de expressá-la adequadamente.

Todavia, antes de empreender essa tarefa, cabe-me esclarecer previamente os dois seguintes conceitos gerais: “conexões lógico-semí¢nticas” e “conexões discursivas”. De uma maneira simplificada, as conexões lógico-semí¢nticas são relações que ocorrem entre situações, fatos, fenômenos fí­sicos ou biológicos da realidade objetiva; e as conexões discursivas, relações estabelecidas subjetivamente pelo autor do texto (entre situações, fatos, conhecimentos, valores, sentimentos).

Para ilustrar essa distinção, tomemos, como exemplo de conexão lógico-semí¢ntica, a relação causa-efeito (causalidade): “A água da chaleira esquentou a 100 graus centí­grados (causa); por isso, ferveu (efeito)”.  E como exemplo de conexão discursiva, a relação comparado-comparante (comparação): “A palavra de Deus (comparado) é como a semente (comparante).” No primeiro exemplo, temos uma conexão entre dois fatos da realidade, cuja relação apresenta um alto grau de certeza. Já no segundo exemplo, a relação não pode ser constatada objetivamente, mas é estabelecida pelo autor do texto a partir de uma realidade pensada, criada ou assumida por ele.

Com base nessas reflexões, considero importante a distinção entre conexões lógico-semí¢nticas e discursivas, sobretudo para uma compreensão crí­tica e profunda de um texto. Entretanto, considerando o objetivo e os possí­veis destinatários deste ensaio, não vou adotar essa divisão complicadora. Ou seja, vou apresentar, indistinta e simplificadamente, as principais conexões lógico-semí¢nticas e discursivas, associadas aos recursos gramaticais[1] mais usados para expressá-las. E, para facilitar a compreensão de estudiosos iniciantes, vou simplificar ao máximo a nomenclatura, aproximando-a dos conceitos da gramática tradicional.

Objetivando introduzir uma discussão produtiva sobre o assunto em pauta, este ensaio restringe-se aos conceitos e ilustrações sobre as seguintes conexões lógico-semí¢nticas e discursivas: conexão aditiva (conjunção); conexão opositiva (contrajunção); conexão disjuntiva ou alternativa; conexão conclusiva; conexão causal; conexão explicativa ou justificativa; conexão temporal; conexão condicional; conexão de mediação ou de finalidade; conexão comparativa; conexão conformativa; conexão de correção/redefinição. Também abordarei alguns conetivos ou expressões conectoras polissêmicas.

1. CONEXíƒO ADITIVA (CONJUNí‡íƒO)

A primeira significação que o “Aurélio” nos dá para a palavra “conjunção” é  “união, encontro:  A  c o n j u n ç  ã o  das águas do rio Negro com as do Amazonas ocorre perto de Manaus.” (HOLANDA FERREIRA, s/d, p. 366). Com base nesse conceito, podemos dizer que, na conexão aditiva ou por conjunção, os conteúdos de dois ou mais enunciados (duas ou mais idéias, dois ou mais fatos, duas ou mais qualidades…) são adicionados, contribuindo para levarem o leitor a uma determinada conclusão.

A conexão aditiva pode realizar-se de forma explí­cita ou implí­cita. Realiza-se explicitamente por meio de conetivos e expressões conectoras aditivas tais como: e, além de, além disso, também, bem como, ainda, nem (= e não), não só … mas também, tanto… quanto (ou: tanto… como). Realiza-se implicitamente quando os enunciados adicionados estão simplesmente justapostos, não ocorrendo conetivos ou expressões conectoras entre eles; nesse caso, é o  sentido dos próprios enunciados que indica a sua conjunção.

Segundo o meu ponto de vista, a afirmação de que certas pausas na fala, ou certos sinais de pontuação na escrita (ví­rgula, ponto e ví­rgula, ponto final) são marcas de conexão aditiva é equivocada. Isso porque, de um lado, tais recursos lingüí­sticos são usados complementarmente com os próprios conetivos; de outro, interpõem-se também entre enunciados em que ocorrem outros tipos de relações (como veremos adiante).

EXEMPLOS

a) Conexões aditivas explí­citas:

(1) Paulo leu os livros indicados e assistiu a todas as aulas; além disso, fez os exercí­cios recomendados pelo professor; também participou de cí­rculos de estudos extraclasse. (Conclusão: Portanto, deve passar de ano sem recuperação.)

b) Conexões aditivas implí­citas:

(2) As mais  violentas gangues nos ameaçam nas ruas; polí­ticos corruptos se locupletam com o nosso dinheiro; colarinhos-brancos nos logram nos negócios; traficantes de drogas e de mulheres corrompem os nossos filhos; quadrilhas de bandidos seqüestram nossos familiares. Tudo isso acontece impunemente. (Conclusão: Portanto, somos ví­timas de um modelo de organização social e polí­tica imoral e falido.)

2. CONEXíƒO OPOSITIVA (CONTRAJUNí‡íƒO)

A conexão opositiva (contra+junção) relaciona conteúdos contrastantes (situações, fatos, idéias) que, se fossem ditos isoladamente, levariam o leitor a conclusões divergentes. Com base em certas peculiaridades, podemos distinguir dois tipos de conexão opositiva: conexão adversativa e conexão concessiva.

2.1. A conexão adversativa estabelece uma relação de oposição entre conteúdos ou argumentos de um segmento textual. No caso, a primeira parte do segmento produz, no leitor, uma expectativa de conclusão “X” (falsa expectativa). A segunda parte, geralmente introduzida explicitamente por um conetivo ou expressão conectora própria, contrapõe-se í  primeira, redirecionando e/ou limitando o conteúdo manifestado anteriormente. Assim, prevalece sobre a primeira, conduzindo o leitor para uma conclusão “Y” (tese do autor).

Na conexão opositiva adversativa explí­cita ocorrem conetivos ou expressões conectoras tais como: mas, porém, todavia, contudo, entretanto, no entanto (conjunções adversativas).

EXEMPLOS

(3) Carlos estudou muito, mas não foi aprovado no concurso.

(4) Durante seus 50 anos de vida, Jorge e sua famí­lia sempre viveram em regime de austeridade, economizando, trabalhando muito, progredindo profissionalmente. Entretanto, até hoje ainda não conseguiram juntar recursos suficientes para construí­rem sua casa própria.

(5) João casou com a menina de seus sonhos. Foi presenteado com uma mansão por seus pais. Tem um carro de luxo do ano, quitado. Ele e seus familiares gozam de perfeita saúde. Nunca experimentou crise financeira. Todavia, não é feliz.

2.2. A conexão concessiva – segundo tipo de conexão opositiva – é explicitada no iní­cio da construção: o autor, antecipadamente, orienta o leitor para uma conclusão diferente da primeira parte de sua construção, sem alimentar-lhe falsa expectativa. Já no iní­cio ressalva o conteúdo que está expressando; depois expressa o conteúdo decisivo.

Os principais conetivos e expressões conectoras responsáveis pela explicitação desse tipo de conexão opositiva são: embora, muito embora, se bem que, ainda que, posto que, conquanto, mesmo que, mesmo, por mais que, apesar de, a despeito de, não obstante, malgrado.

Para reafirmar que se trata de um segundo tipo de conexão opositiva, retomemos os exemplos (3) e (4), construindo as paráfrases correspondentes:

EXEMPLOS

(3.0) Embora Carlos tivesse estudado muito, não foi aprovado no concurso. OU: Apesar de ter estudado muito, Carlos não foi aprovado no concurso. OU: Mesmo tendo estudado muito, Carlos não foi aprovado no concurso.

(4.0) Não obstante João ter casado com a menina de seus sonhos, ter sido presenteado, por seus pais, com uma mansão, ter um carro de luxo do ano, quitado, ele e seus familiares gozarem de perfeita saúde, nunca ter experimentado uma crise financeira, não é feliz.

Da mesma forma como a conexão aditiva, também a conexão opositiva pode ocorrer por justaposição, sendo, então, implí­cita, isto é, depreensí­vel do sentido das proposições justapostas.

EXEMPLO

(6) “Maria não pôde comparecer í  cerimônia do casamento. Mandou aos noivos uma cesta de flores.” (KOCH, 1987, p. 95)

3. CONEXíƒO DISJUNTIVA OU ALTERNATIVA

Enquanto a palavra “conexão” significa “ligação”, a palavra “disjunção” significa “separação”. Estamos, pois, diante de um paradoxo: Como é que pode ocorrer uma ligação por separação?

Vejamos uma explicação plausí­vel para esse disparate: o primeiro conceito – conexão – nos remete í  parte concreta da linguagem, isto é, aos enunciados que ouvimos ou vemos na fala ou na escrita. Já o segundo conceito – disjunção – nos remete í  parte abstrata da linguagem, isto é, ao conteúdo dos enunciados, í quilo que captamos com a nossa inteligência. Assim sendo, por um lado podemos dizer que, nas partes visí­veis dos enunciados (7), (8) e (9) apresentados abaixo, os elementos lingüí­sticos “ou”  e  “ora… ora” funcionam como elementos conectores; por outro lado, para os conteúdos inteligí­veis dessas mesmas partes, funcionam como elementos disjuntores.

A conexão disjuntiva ou alternativa tanto pode indicar separação, quanto opção ou alterní¢ncia. São conetivos e expressões conectoras muito usados para realizar explicitamente essa conexão: ou, ou… ou,  ora… ora, já… já, seja… seja. Na linguagem escrita, a disjunção também pode ser indicada graficamente por paralelismo, a exemplo do que ocorre com os testes de conhecimentos, em que a alternativa considerada correta é marcada com “X”.

Nos exemplos (7), (8) e (9) ocorrem conexões disjuntivas que indicam, respectivamente, separação, opção e alterní¢ncia:

(7) O direito constitucional í  saúde deveria ser garantido a todos ou a ninguém.

(8) Hoje, í s 20 horas, vou ao cinema ou ao teatro.

(9) Ora o sol aparece, ora se esconde atrás das nuvens.

Na disjunção/alterní¢ncia, os conteúdos das proposições relacionadas jamais podem realizar-se simultaneamente no mundo real. Entretanto, existe um outro tipo de conexão com “ou”, que tanto pode ser “disjunção” (separação) quanto “conjunção” (adição). Nesse caso, os conteúdos das proposições relacionadas podem realizar-se ou isoladamente, ou conjuntamente (simultaneamente). Atualmente, essa conexão costuma ser indicada pelo conjunto “e/ou“.

EXEMPLO

(10) Para a próxima aula, os alunos deverão trazer um editorial de jornal ou uma reportagem de revista. (No caso, a professora considera tarefa cumprida qualquer uma das seguintes opções: (a) o aluno traz apenas um editorial de jornal; (b) o aluno traz apenas uma reportagem de revista; (c) o aluno traz um editorial de jornal e uma reportagem de revista.)

4. CONEXíƒO CONCLUSIVA

“Conclusão” refere-se, aqui, a um tipo de ligação que ocorre entre os conteúdos de duas ou mais proposições antecedentes e o conteúdo de uma proposição conseqüente. Nesse sentido, “conclusão” não significa “ato de terminar, findar algo”, mas “ato de deduzir, inferir algo” a partir de situações, fatos, idéias apresentadas explí­cita ou implicitamente em proposições anteriores, também relacionadas entre si.

A operação de concluir algo pela fala ou pela escrita pode ser comparada a de concluir algo por qualquer uma das quatro operações aritméticas: adição, subtração, multiplicação e divisão. A conclusão, no caso, seria equivalente ao “total” proveniente da soma das parcelas; ao “produto”, resultante do multiplicando e do multiplicador; ao “quociente”, resultante do dividendo e divisor.

Entretanto, na linguagem falada ou escrita, a conexão conclusiva se estabelece apenas através de duas operações: a dedução e a indução. Dessas operações é que resulta a conclusão. Vejamos separadamente cada uma dessas operações.

4.1. Conexão conclusiva dedutiva

A conexão conclusiva dedutiva normalmente é assim constituí­da: Inicialmente, ocorre uma proposição que expressa um conteúdo de valor universal (aceito por todos). Essa proposição (universal) articula-se com uma outra, de conteúdo particular, mais restrito. E, como corolário, segue uma conclusão, calculável ou depreensí­vel da relação existente entre os conteúdos dessas duas proposições.

Entre as duas primeiras proposições deve haver uma relação de inclusão: o conteúdo particular da segunda proposição deve estar compreendido no conteúdo universal da primeira. Essa relação pode ser explicitada pelo conetivo “ora”, normalmente usado para iniciar a proposição particular. Entre esse conjunto de duas proposições (uma universal e outra particular) e a conclusão deve ocorrer uma relação de inferência necessária. Essa relação, por sua vez, pode ser marcada por conetivos e expressões conectoras tais como: portanto, por conseguinte, então.

O conjunto articulado dessas três proposições recebe o nome de “silogismo”. A primeira proposição (de conteúdo universal) denomina-se “premissa maior”; a segunda (de conteúdo particular, mas implí­cito na primeira) chama-se “premissa menor”. E a terceira proposição do silogismo (resultante de um cálculo lógico realizado sobre as premissas) chama-se “conclusão”. Observemos essa organização no silogismo do seguinte

EXEMPLO

(11)     Todos os macacos são semelhantes ao homem (premissa maior, de valor universal).

Ora, os bugios são macacos (premissa menor, cujo conteúdo está incluí­do na premissa maior).

Portanto, os bugios são semelhantes ao homem (conclusão calculada ou depreendida necessariamente das premissas)

O conteúdo da premissa maior sempre é constituí­do de uma “verdade” não contestada pelos participantes do discurso. Pode tanto tratar-se de uma verdade cientí­fica como de uma verdade do senso comum. Muitas vezes, pelo fato de tratar-se de uma verdade “muito evidente”, essa premissa é omitida no encadeamento explí­cito da fala ou da escrita. Entretanto, é facilmente recuperável por quem conhece a operação mental da dedução. Observemos essa omissão no seguinte

EXEMPLO:

(12)     A professora Regina explica muito bem a matéria.

Portanto, ela é uma ótima professora.

No exemplo (12) subentende-se, facilmente, uma proposição de valor universal (premissa maior) pacificamente aceita pelos interlocutores: As professoras que explicam muito bem a matéria são ótimas. (Ora, a professora Regina……. Portanto, ….).

Há afirmações desse gênero em que pode ser bem mais difí­cil recuperar a premissa que falta. Confirmemos isso através de outro

EXEMPLO:

(13)     Em noites de lua cheia, Cabeleira é o único morador que finge não ouvir gritos lancinantes na cidadezinha de Resplendor.

Portanto, Cabeleira é lobisomem. (Recuperação da premissa maior: Quem – ou “todos os que” – na cidadezinha de Resplendor, em noites de lua cheia, finge(m) não ouvir gritos lancinantes é (são) lobisomem(ns).

Ora, Cabeleira é o único que finge……… Portanto, Cabeleira é……

4.2. Conexão conclusiva indutiva

A conexão conclusiva indutiva ocorre entre enunciados de conteúdos particulares – ligados entre si por conexão aditiva – de um lado, e um enunciado de conteúdo geral depreensí­vel dos primeiros, de outro. Trata-se, portanto, de uma operação de generalização. Essa operação está contida nos exemplos (1) e (2) apresentados anteriormente.

Por vezes, a generalização é realizada a partir de apenas uma situação, de apenas um fato, de apenas uma idéia particular.[2] í‰ o caso dos seguintes sofismas [3]:

EXEMPLOS:

(14)     Há muitos anos atrás, Paulo, embora pobre, era um esforçado contí­nuo (office boy) de Banco. Graças a seu esforço, hoje ele é um banqueiro de renome internacional. Portanto, quem – ou “todos os que” – for(em) esforçados contí­nuo(s) de Banco pode(m) chegar a banqueiro(s) de renome internacional.

(15)     Neusa não sabe guardar segredos. Aliás (de fato/realmente/na verdade), as mulheres não sabem guardar segredos.

Os conetivos ou expressões conectoras que explicitam a conexão conclusiva indutiva são os mesmos que realizam a conexão conclusiva dedutiva, mais alguns próprios da indução, tais como: aliás, de fato, realmente, é verdade que, na verdade.

5. CONEXíƒO CAUSAL

A conexão causal se realiza por operações muito semelhantes í s da conexão conclusiva dedutiva. Para percebermos, com clareza, certas semelhanças e diferenças entre ambas, observemos as duas versões de um mesmo fato, transcritas nos

EXEMPLOS:

(16)     O motor do meu carro fundiu (efeito) porque foi acionado sem óleo no cárter (causa).

(17)     Todos os motores de carro acionados sem óleo no cárter fundem.

Ora, o motor do meu carro foi acionado sem óleo no cárter.

Por isso, o motor do meu carro fundiu.

Ao compararmos a estrutura da construção (17) acima com a estrutura da dedução conclusiva (silogismo), constatamos que as duas construções são idênticas. Em (17), as duas proposições iniciais são, respectivamente, a premissa maior e a premissa menor; enquanto que a última é a conclusão, conectada í s premissas através da expressão “por isso”. Entretanto, ao lado das semelhanças entre a dedução e a causalidade, destacam-se também algumas diferenças: enquanto os conteúdos das premissas e da conclusão, na conexão conclusiva dedutiva, costumam designar seres, enfatizando suas qualidades ou atributos gerais (estáticos), as proposições correspondentes da causalidade costumam designar e enfatizar fatos, eventos, fenômenos especí­ficos (diní¢micos), acontecidos e constatados no mundo real.

Se omitirmos a primeira premissa da construção apresentada no exemplo (17), teremos uma primeira estrutura da conexão causal, em ordem direta: “O  motor do meu carro foi acionado sem óleo no cárter (causa); por isso, fundiu (efeito).” í‰ claro que, nessa mesma estrutura causal, em lugar de “por isso” podem ocorrer sinônimos tais como: por causa disso, em decorrência disso, em vista disso, uma conseqüência disso, graças a isso, etc.

Uma segunda forma de estruturar a conexão causal pode ser observada no exemplo (16): a premissa maior (de valor universal) está subentendida; a premissa menor (de valor particular) é introduzida pelo conetivo “porque”; e a conclusão ocorre antes da premissa explicitada. í‰ essa a ordem direta desse tipo de construção, marcada pela omissão da premissa maior e inversão da ordem silogí­stica das duas proposições articuladas. Isso, entretanto, não significa que a mesma construção não admita a ordem inversa (Porque foi acionado sem óleo, o motor do meu carro fundiu. Ou: Porque o motor do meu carro foi acionado sem óleo no cárter, fundiu.). Essa estruturação da conexão causal também aceita outros conetivos ou expressões conectoras, tais como: uma vez que, já que, visto que, porquanto, etc.

Caso forem utilizadas as expressões conectoras “por, pelo fato de, por causa de, em decorrência de, em vista de, como conseqüência de, graças a, etc.”, esse segundo tipo de conexão causal pode assumir diferentes versões (em ordem direta ou inversa) tais como:

(16.1)  Pelo fato de (por causa de, em decorrência de, etc.) o motor do meu carro ter sido acionado sem óleo no cárter, fundiu. OU: O motor do meu carro fundiu por (pelo fato de, por causa de, etc.) ter sido acionado sem óleo no cárter.

Uma terceira estrutura da conexão causal, í  primeira vista, parece não ter relação com a estrutura do silogismo. Tomemos, como ponto de partida, o seguinte

EXEMPLO:

(18)     No verão, a seca foi tão longa (causa) que matou a grama do jardim (efeito/conseqüência).

No exemplo (18), a ordem das proposições – que não admite ordem inversa – é a mesma do silogismo incompleto: premissa menor (a seca foi tão longa) e conclusão (que a grama do jardim morreu). Assim sendo, a reconstrução do silogismo originário, embora exija a substituição (adaptação) do intensificador “tão” e do conetivo “que” por outros correspondentes, não é difí­cil:

(18.0)  Todas as secas muito longas matam a grama do jardim.

Ora, no verão, a seca foi muita longa (causa).

Por isso, a seca matou a grama do jardim (efeito/conseqüência).

Uma quarta estrutura da conexão causal igualmente se realiza na ordem das proposições do silogismo e também não admite ordem inversa. Pode ser depreendida do seguinte exemplo:

(18.1)  Como a seca tivesse sido muito longa no verão, matou a grama do jardim.

Por último, cabe-nos destacar que a conexão causal (assim como outras conexões) pode estar implí­cita no sentido das proposições relacionadas, quando estas estiverem justapostas:

(19)     O motor do meu carro fundiu; foi acionado sem óleo no cárter.

(19.0)  Acionado sem óleo no cárter, o motor do meu carro fundiu.

6. CONEXíƒO EXPLICATIVA/JUSTIFICATIVA

A conexão explicativa/justificativa pode apresentar-se sob duas formas distintas: como “fachada” de causa, e como explicação/justificativa transparente. Entretanto, em ambos os casos, na sua forma de estruturação, apresenta semelhanças com a conexão conclusiva dedutiva e, por extensão, com a conexão causal. Ou seja, compreende a articulação de três proposições, das quais uma quase sempre está subentendida.

Para demonstrar essa estruturação, vejamos como os dois exemplos de conexão explicativa abaixo podem ser reconstruí­dos sob a forma de silogismos:

EXEMPLOS

(20) O motor do meu carro deve/pode ter sido acionado sem óleo no cárter, porque fundiu.

(20.1) Os motores dos carros fundem em decorrência de diversos fatores ou causas; uma delas é a de seu acionamento sem óleo no cárter. (Essa é a premissa maior, constituí­da mediante a seleção de uma lei fí­sica ou mediante a seleção de um fato empí­rico comprovado.)

Ora, o motor de meu carro fundiu. (Essa é a premissa menor, constituí­da por um fato constatado do mundo objetivo/real; trata-se do efeito de uma causa ainda não comprovada.)

Portanto, pode/deve ter sido acionado sem óleo no cárter. (Essa é uma conclusão “modalizada”, depreensí­vel das premissas, mas que não passa de um parecer/julgamento do enunciador. Expressa uma hipótese ou causa não comprovada.)

(21) “Não vá ainda, que tenho uma coisa importante para lhe dizer.” (KOCH, 1989, p. 66)

(21.1) Todos os que têm uma coisa importante para dizer não devem/não podem permitir que seus interlocutores vão embora antes que lhes seja dito essa coisa importante.(Essa premissa maior é constituí­da por um princí­pio normativo, supostamente aceito pelo senso comum.)

Ora, eu tenho uma coisa importante para lhe dizer. (Essa premissa menor constitui um motivo, uma razão, uma explicação/justificativa – e não causa – da conclusão seguinte:)

Portanto, não devo/não posso permitir que vá embora antes de dizer-lhe essa coisa importante. Ou: Portanto, não vá ainda.

Os exemplos acima representam as duas formas da conexão explicativa/justificativa. A primeira, como causa aparente, concretiza-se no raciocí­nio causal apresentado no exemplo (20). O “acionamento do motor do meu carro sem óleo no cárter” é um fato suposto, que pode ter ocorrido no mundo objetivo/real. Somente expressa uma causa hipotética de outro, “a fundição do motor de meu carro”, que realmente ocorreu no mundo objetivo/real. Este constitui um efeito constatado, mas de uma causa não comprovada. Por isso, dessas duas premissas só pode ser inferida uma conclusão hipotética (isto é, uma explicação plausí­vel).

Fica claro que, nessa forma de conexão explicativa/justificativa (com aparência de conexão causal), o conteúdo de uma das proposições não é conhecido pelo enunciador, mas fundamenta-se em seu mundo subjetivo; sua correspondência com o mundo objetivo não passa de uma possibilidade ou probabilidade.

Para indicar essa atitude de incerteza do enunciador perante um dos fatos por ele relatados na conexão explicativa, a lí­ngua nos oferece recursos de modalização. Entre estes estão, além de outros, os verbos poder e dever, bem como os advérbios certamente, possivelmente, provavelmente, etc.

Outra caracterí­stica que distingue esse primeiro tipo de conexão explicativa/justificativa da conexão causal é a ordem diferente das proposições conectadas entre si: Na causalidade, a frase inicia (normalmente) pela proposição que expressa o efeito, seguido pelo conetivo ou expressão conectora e pela causa, conforme ilustra o exemplo (16). Na explicação/justificativa, a frase inicia (normalmente) com uma possí­vel causa, seguindo-se o efeito, introduzido pelo conetivo ou expressão conectora , conforme ilustra o exemplo (20).

A conexão explicativa/justificativa apresenta-se também como uma espécie de dedução abreviada e invertida: a relação se estabelece  entre uma proposição conclusiva e uma proposição que corresponderia í  premissa menor. Vejamos outro

EXEMPLO:

(22) Fernando tem uma personalidade instável (proposição conclusiva), tanto que (prova disso é que) mudou de assinatura (premissa menor).

Se quisermos recuperar a premissa maior desse raciocí­nio, precisamos desdobrá-lo nas três proposições clássicas do silogismo:

(22.1) Quem muda de assinatura tem personalidade instável.

Ora, Fernando mudou de assinatura.

Portanto, Fernando tem uma personalidade instável.

Se compararmos as construções (22) e (22.1), podemos tirar a seguinte conclusão: Quando, no silogismo abreviado, ocorre inversão entre a conclusão e a premissa menor, a conexão conclusiva dedutiva identifica-se com a conexão explicativa/justificativa.

A mesma relação explicativa/justificativa, que se estabelece entre uma conclusão silogí­stica e uma premissa menor (como vimos acima), pode ocorrer entre a proposição conclusiva da indução e o conjunto das proposições que a fundamentam. Verifiquemos isso através do seguinte

EXEMPLO:

(23) Cí¢ndido Alegria provocou o acidente que matou Jerônimo Batista, tanto que (prova disso é que) mandou fazer um corte profundo nos arreios do cavalo encilhado de Jerônimo, deixando a cela apenas presa por um fio; quando este montou e saiu a galope, a cela se soltou, jogando o cavaleiro ribanceira abaixo.

O enunciado acima inicia por uma proposição conclusiva (de conteúdo mais geral), induzida pelo conteúdo (mais particular) das proposições que seguem (fatos concretos que autorizam a afirmação geral).

A segunda forma de conexão explicativa/justificativa (ilustrada no exemplo (21)) é menos capciosa. O conteúdo das proposições é constituí­do claramente, de um lado, por atos de fala de conteúdo subjetivo, que propõem e expressam ordem, pedido, súplica, desejo, sentimento, dever, ponto de vista; e, de outro, asserções que expressam os motivos, razões, explicações, justificativas (e não causas) desses atos de fala. Observemos isso nos seguintes

EXEMPLOS:

(24) Não fume, já que o cigarro é prejudicial í  saúde.

(25) Por favor, dê-me um pedaço de pão, pois estou morrendo de fome.

(26) Pelo amor de Deus, não me mate; tenho sete filhos para criar. (A ausência do conetivo/expressão conectora não altera a relação).

(27) Estou com ódio da cobra do paraí­so, uma vez que ensinou a sua maldade a muitos dirigentes brasileiros…

(28) Precisamos dar ajuda aos pobres, porque “quem dá aos pobres empresta a Deus”.

Em cada um desses exemplos, temos, de um lado, um ato de fala que expressa uma ordem, um pedido, uma súplica, um sentimento, um “dever”, sugerido ou proposto pelo enunciador ao enunciatário; de outro, uma justificativa que fundamenta esse ato.

A conexão explicativa/justificativa – assim como os demais tipos de conexão – também pode realizar-se implicitamente (na justaposição). Entretanto, quando ocorre explicitamente, realiza-se por conetivos e expressões conectoras que servem tanto para conectar efeito-causa (relação por causalidade), quanto asserção-justificativa (conexão por explicação/justificativa). Merecem destaque: porque, uma vez que, já que, pois, por, como, etc. Outras expressões conectoras, porém, são próprias ou da conexão causal (por causa de/isso, em decorrência de/isso, etc.), ou da conexão explicativa (por motivo de, em razão de/isso, etc.)

7. CONEXíƒO TEMPORAL

Desde a infí¢ncia, aprendemos a organizar cronologicamente experiências e acontecimentos de nosso dia-a-dia. Nas narrações ou relatos, nos acostumamos a contar primeiro o fato inicial, juntando os demais na ordem em que aconteceram no tempo, e terminamos com os mais próximos ao presente (momento de nossa fala).

Para fazer a ligação temporal entre os fatos que conta, a criança costuma usar as expressões conectoras mais simples: “e daí­”, “então”. Observemos isso no seguinte

EXEMPLO:

(29) Ontem, fomos ver a horta da escola; então a professora mostrou os canteiros; e daí­ ela disse que não era pra pisar em cima; e daí­ o Paulinho empurrou a Chiquinha e ela pisou em cima; então a professora xingou….

A conexão temporal do exemplo resume-se ao binômio “tempo anterior + tempo posterior”. Só que funciona assim: “tempo anterior + tempo posterior/tempo anterior + tempo posterior/tempo anterior…”. Ou seja: A segunda ocorrência funciona não só como tempo posterior em relação í  primeira, mas também como tempo anterior em relação í  terceira; a terceira, por sua vez, funciona como tempo posterior em relação í  segunda e como tempo anterior em relação í  quarta; e assim sucessivamente.

Além desse tipo de conexão temporal – tempo anterior + tempo posterior – existe outro: “tempo simultí¢neo”. Ou seja, quando queremos ordenar ocorrências, experiências, atividades em relação umas í s outras, só podemos fazer isso através desses dois tipos de conexão temporal.

Esses conceitos não devem ser confundidos com o da categoria gramatical denominada “tempo verbal”, marcada pela desinência modo-temporal. Nas noções de tempo anterior/posterior e tempo simultí¢neo, é preciso que haja dois ou mais verbos em relação. Trata-se, portanto, de um “tempo relacional”, somente identificável mediante a comparação do conteúdo de duas ou mais proposições conectadas entre si. Portanto, é impossí­vel que apenas um verbo contenha concomitantemente as noções de tempo anterior e posterior, ou de tempo simultí¢neo.

Observemos, também, que as conexões temporais situam-se dentro de três tempos históricos distintos: tempo em que se fala (aqui e agora); tempo que já passou; e tempo que ainda não chegou. Isso significa que podemos ter os seguintes arranjos temporais: (a) tempo anterior + tempo posterior no presente; tempo simultí¢neo + tempo simultí¢neo no presente; (b) tempo anterior + tempo posterior no passado; tempo simultí¢neo + tempo simultí¢neo no passado; (c) tempo anterior + tempo posterior no futuro; tempo simultí¢neo + tempo simultí¢neo no futuro. Constatemos isso através de vários

EXEMPLOS:

(30) Há pouco (antes/ontem/na semana passada) busquei informações sobre a conexão temporal; agora, estou tentando colocá-las no papel.

A ocorrência relatada na primeira proposição aconteceu em tempo relacional anterior do que a da segunda proposição. O ponto de referência, entretanto, é o tempo histórico presente, tempo em que se fala ou se escreve. A conexão temporal entre as duas proposições está explicitada não só pelas expressões “há pouco” e “agora”, mas também pelos tempos verbais: pretérito perfeito x presente.

(31) Enquanto estou escrevendo, minha esposa está preparando o almoço.

O conteúdo das duas proposições ocorre simultaneamente no tempo histórico presente, tempo em que se fala/escreve. O conetivo “enquanto” indica a simultaneidade; e o presente dos verbos indica o tempo histórico em que se fala.

(32) Agora estou escrevendo sobre a conexão temporal; depois vou escrever (escreverei) sobre a conexão condicional.

Novamente, a primeira ocorrência é anterior í  segunda, e ambas se referem ao tempo em que se fala. Trata-se, pois, de uma conexão temporal “tempo anterior + tempo posterior” situada no tempo histórico presente.

Depois de analisar a temporalidade dos exemplos (30), (31) e (32), estamos em condições de dar mais um passo: analisar a conexão temporal instaurada no tempo histórico passado.

(33) Em 1990, fui, pela primeira vez, ao Pão de Açúcar; já havia estado no Rio de Janeiro em 1960, mas, naquela ocasião, tive medo de subir naquele trenzinho pendurado num fio…

As duas ocorrências situam-se em tempo histórico passado; todavia, a que está relatada em primeiro lugar, aconteceu depois do que a relatada em segundo lugar. Há, portanto, uma conexão “tempo anterior + tempo posterior” (invertida) de duas ocorrências já passadas. Os verbos no pretérito situam ambas as ocorrências nesse passado histórico; o mais-que-perfeito situa uma delas em tempo anterior í  outra, representada pelo pretérito perfeito. Também as expressões conectoras “em 1990″ e “em 1960″ contribuem para explicitar essa conexão temporal.

(34) Quando você estava na praia, eu estava recuperando aulas.

Ambas as ocorrências, comparadas entre si, acontecem simultaneamente, situando-se em tempo histórico que já passou (passado). A simultaneidade está indicada pelo conetivo “quando” e pela dupla presença do mesmo tempo verbal: pretérito imperfeito.

(35) Oráculo dos búzios: “Enquanto (ao mesmo tempo em que) um terremoto sacudirá toda ilha, o rei procurará sair do palácio, as paredes ruirão sobre ele e soterrá-lo-ão sob os escombros.”

Todas as ocorrências do enunciado (35) situam-se em tempo histórico futuro, mas apenas a primeira (em negrito) acontece simultaneamente com as três demais. Estas ocorrem sucessivamente, conectando-se entre si por “tempo anterior + tempo posterior/tempo anterior + tempo posterior”.

(36) Quando (toda vez que/sempre que) você tiver algum dinheiro não comprometido, aplique-o na poupança da Caixa Econômica Federal.

A conexão temporal entre as duas proposições do exemplo (36) realiza-se por simultaneidade. O tempo histórico instaurado no enunciado é o futuro, indicado pelo futuro do subjuntivo. O imperativo (aplique) não tem marca temporal.

Sobreposta í  conexão temporal por simultaneidade, pode ocorrer a proporcionalidade. Nesse caso, duas experiências/ocorrências/atividades não só acontecem simultaneamente, mas também numa mesma progressão.

(37) í€ medida que (í  proporção que) subia a montanha, a paisagem tornava-se mais visí­vel e mais bela.

No exemplo (37), as duas ocorrências acontecem e progridem simultaneamente. Trata-se, pois, de uma conexão temporal por simultaneidade e proporcionalidade.

Esse tipo de conexão temporal pode realizar-se tanto em tempo histórico passado (como no exemplo acima), quanto em tempo histórico presente ou futuro. Vejamos, portanto, mais dois

EXEMPLOS:

(38) í€ medida que você está lendo, está aprendendo. (Progressão simultí¢nea no presente.)

(39) í€ medida que o povo brasileiro se conscientizar, a polí­tica se tornará mais honesta. (Progressão simultí¢nea no futuro.)

Nem sempre a conexão temporal é explicitada por conetivo ou expressão conectora. No exemplo (35), apenas a “simultaneidade” encontra-se explicitada através de “enquanto” ou “ao mesmo tempo em que”; as demais conexões, “tempo anterior + tempo posterior”, estão implí­citas no significado das proposições justapostas.

Justapostas í  principal também são consideradas as orações temporais reduzidas de gerúndio e particí­pio, uma vez que se ligam í quela sem o auxí­lio de conetivo ou expressão conectora. Nesse caso, o tipo de conexão temporal também está implí­cito no sentido. Já as temporais reduzidas de infinitivo conectam-se í  principal através do conetivo “a” (preposição), que contribui para esclarecer a natureza da conexão. Observemos a conexão temporal entre a oração principal e a reduzida nos seguintes

EXEMPLOS:

(40) Conversando demoradamente com o meu filho, dei-me conta que não o conhecia tão bem quanto imaginava. (Conexão temporal por simultaneidade.)

(41) Passada a euforia da boa notí­cia, comemoramos a nossa sorte com uma cervejada. (Conexão temporal por “tempo anterior + tempo posterior.)

(42) Ao anunciar o derrame de milhões de litros de petróleo no mar, o radialista falava com muita indignação. (Conexão temporal por simultaneidade.)

Ao finalizar esta explanação sobre a temporalidade, listemos alguns conetivos e expressões conectoras de natureza temporal, buscando subsí­dios em GARCIA (1983, p. 73). Segundo esse autor:

As mais importantes dessas partí­culas são as conjunções e locuções conjuntivas, que exprimem:

a) tempo anterior: antes que, primeiro que (….);

b) tempo posterior: depois que, assim que; logo que;

c) tempo imediatamente posterior: logo que, mal, apenas (…);

d) tempo simultí¢neo ou concomitante: quando, enquanto;

e) tempo terminal ou final: até que, até quando;

f) tempo inicial, i.e., tempo a partir do qual se inicia a ação: desde que, desde quando;

g) ações reiteradas ou habituais: cada vez que, toda vez que, todas as vezes que, sempre que.

A algumas dessas locuções conjuntivas agregam-se com freqüência partí­culas ou advérbios de valor intensivo: pouco antes que, muito antes que, imediatamente depois que, etc. (Os grifos são do autor citado).

8. CONEXíƒO CONDICIONAL

O conteúdo dos enunciados em que aparece a condicionalidade não expressa experiências, atividades, ocorrências reais (que aconteceram ou estão acontecendo no mundo real); expressa, isso sim, experiências, atividades, ocorrências que poderiam ter acontecido (no passado) ou que ainda poderão acontecer (no futuro). Teriam acontecido ou acontecerão se a condição estabelecida pelo falante tivesse se realizado ou se realizar. Para confirmar isso, analisemos os exemplos que seguem:

(43) Se você colocar chumbo sobre um fogo muito forte, então ele se derreterá.

A condição estabelecida pelo falante é a de “colocar chumbo sobre um fogo muito forte” (no futuro); realizando-se essa condição, realizar-se-á, também, o fenômeno previsto: o chumbo (ele) se derreterá. Portanto, se a condição, expressa no antecedente, for verdadeira, também o condicionado, expresso no conseqüente, será verdadeiro.

(44) Caso os portugueses e espanhóis não tivessem destruí­do os sete povos das Missões, hoje a geografia do Rio Grande do Sul seria diferente.

A condição estabelecida pelo falante já não pode mais realizar-se, isso porque se situa no passado, e não podemos voltar no tempo. Mesmo assim, o falante estabelece que, se a condição tivesse sido verdadeira, o condicionado seria obrigatoriamente verdadeiro.

A condicionalidade pode estar imbricada com outras conexões lógicas e discursivas. Em outras palavras, a condicionalidade nem sempre ocorre isoladamente: pode estar associada í  causalidade, í  temporalidade, í  oposição (contrajunção), manifestadas implicitamente no conteúdo das respectivas proposições.

No exemplo (43), a condicionalidade está imbricada com a causalidade: ao mesmo tempo em que o antecedente expressa condição, também expressa causa; o conseqüente, por sua vez, expressa condicionado e efeito simultaneamente. Já no exemplo (44), o antecedente expressa, concomitantemente, condição e tempo anterior; e o conseqüente, condicionado e tempo posterior.

Segundo GARCIA (1983, p. 76), as locuções conectoras “a não ser que”, “a menos que”, além de expressarem condição, expressam também oposição (contrajunção). Vejamos isso em exemplo emprestado do mesmo autor:

(45) “Não irei, a menos que (a não ser que) me convidem.”

Nesse enunciado, a condição é a de “me convidar”; e o condicionado, “ir” (Se me convidarem, irei). Além disso, os conteúdos das duas proposições se opõem. Portanto, sobreposta í  condicionalidade, há oposição.

Além das caracterí­sticas já mencionadas, o enunciado condicional apresenta outras, dentre as quais a de expressar a intencionalidade do falante. Pode este, por exemplo, ter apenas a intenção de desabafar: Ah, se eu tivesse sabido isso!… Nesse caso, a conexão (com uma proposição não expressa) fica por conta do interlocutor. Outras vezes, a intenção pode ser a de ameaçar o interlocutor: Se você não limpar essa sujeira, ficará dois dias sem sobremesa. Em casos semelhantes a esse, contrariamente í  regra geral da condicionalidade, a condição pode realizar-se sem que, obrigatoriamente, se realize o condicionado.

O conetivo condicional por excelência é “se“. Além dele, há outros instrumentos de conexão condicional: caso, contanto que (uma vez que, desde que, dado que), sem que (=se não), a menos que, a não ser que, com a condição de (na condição de, sob a condição de).

9. CONEXíƒO DE MEDIAí‡íƒO OU DE FINALIDADE (MEIO-FIM)

Apropriando-nos das noções mais elementares de planejamento, aprendemos, de imediato, a estabelecer a conexão meio-fim. Na prática do planejamento, geralmente os fins ou objetivos aparecem em primeiro lugar: elaboramos os nossos objetivos e, depois, listamos os meios (recursos, procedimentos) mais eficazes para alcançá-los.

Também nas atividades rotineiras fazemos essa conexão mental para agir produtivamente: escovamos os dentes (meio) para evitar as cáries (objetivo/fim); tomamos o ônibus (meio) para ir í  Universidade (fim); estudamos (meio) para nos habilitar profissionalmente (fim), etc. Em resumo, agimos (meio) para obter resultados pré-estabelecidos (fins).

A caracterí­stica essencial da conexão de mediação é que os conteúdos das proposições-fim expressam previsões, isto é, pretensões, intenções, metas ainda não realizadas ou não realizadas completamente. E os conteúdos das proposições-meio traduzem as ações planejadas para alcançar tais metas. Na exemplificação apresentada no parágrafo anterior, os fins (“evitar as cáries”, “ir í  Universidade”, “nos habilitar profissionalmente”) são previsões ou metas de um mundo possí­vel, e não algo já incorporado no mundo real.

Em relatos de projetos já realizados (no passado), as conexões meios-fins remetem mais í s ações planejadas do que í s ações realizadas. Ou seja, na conexão meio-fim, o conteúdo das proposições-fim não enfatiza os resultados obtidos, mas os objetivos do projeto em si.  Ilustremos isso através da análise do seguinte

EXEMPLO:

(46) Os farrapos lutaram para tornar o Rio Grande do Sul um paí­s independente. (Alcançaram parcialmente o seu objetivo, mas por pouco tempo.)

No enunciado acima ocorre a conexão meio-fim: “Os farrapos lutaram (meio) para tornar o Rio Grande do Sul um paí­s independente (fim).” Entretanto, a ênfase do enunciado está na justificativa (objetivo) da luta, portanto, está no projeto dos farrapos, mesmo que a luta (meio) constitua um fato do passado. Por outro lado, já que se trata de um projeto do passado, hoje temos informações sobre a sua realização. Portanto, í  luz dos fins pretendidos pelos combatentes, podemos avaliar os resultados obtidos (conforme proposição entre parênteses, no exemplo 46).

Nos textos (falados ou escritos), a relação meio-fim entre os conteúdos de duas proposições, ou entre um conjunto de proposições-meio e um conjunto de proposições-fim, nem sempre está muito clara. Algumas vezes, o emissor/autor (talvez propositadamente) nem sequer se preocupa com a explicitação dessa relação. Suponhamos, por exemplo, que o objetivo ou fim de um candidato a prefeito seja conquistar os votos dos eleitores desempregados. Em seu discurso, certamente vão aparecer proposições semelhantes í s seguintes:

(47) No perí­odo de meu mandato, haverá trabalho para todos. Ninguém ficará sem emprego e sem um salário digno. Ninguém mais precisará ver seus filhos catando restos de comida suja nas lixeiras. Todos terão alimentação, saúde, educação, moradia, lazer.

Tendo em conta a conexão meio-fim, podemos fazer duas interpretações do fragmento de texto acima: (a) Enquanto o fim (objetivo) do candidato é conquistar os votos dos desempregados, o meio por ele utilizado é dizer aquilo que vai satisfazer as expectativas deles. (b) O candidato listou certos objetivos de seu programa de governo, mas omitiu os meios necessários para concretizá-los.

A primeira interpretação foge aos objetivos deste trabalho, pois pertence a uma disciplina conhecida por Análise do Discurso. A segunda interpretação decorre do conteúdo das proposições, sobretudo do tempo verbal dos verbos, todos no futuro do presente. Essa marca modo-temporal indica que se trata de fins ou objetivos do falante.

A conexão meio-fim, além de poder realizar-se por justaposição, realiza-se por conetivos ou expressões conectoras tais como: para, para que, a fim de, a fim de que, com o propósito de, com a intenção de, etc.

10. CONEXíƒO COMPARATIVA

Sem o processo de comparação, certamente serí­amos ignorantes, pois a aprendizagem seria extremamente difí­cil, senão impossí­vel. Isso porque, na aprendizagem, costumamos comparar (consciente ou inconscientemente) uma informação nova com uma já conhecida. Por isso, o processo de comparação é uma estratégia muito produtiva para o ensino. Suponhamos que alguém não saiba o que é “golfinho”. Se esse alguém mora í  margem do rio Amazonas, podemos fornecer-lhe explicações tais como a do seguinte

EXEMPLO:

(48) Golfinho é um animal semelhante ao boto, só que vive no mar.

Entretanto, para os que não conhecem o boto, essa explicação por comparação é inadequada.  No caso, deverí­amos adotar comparações tais como a do seguinte

EXEMPLO:

(49) Golfinho é um animal que se parece com um peixe muito grande, pois seu corpo tem a mesma forma do que o corpo de um peixe. Seu habitat é a água salgada do mar ou dos lagos salgados. No entanto, não é peixe, porque os seus filhotes crescem na barriga da mãe, nascem e mamam como bebês.

No exemplo (48), a comparação é estabelecida entre dois seres, enfatizando as caracterí­sticas gerais deles. O recurso lingüí­stico responsável pela comparação é o predicativo “semelhante”. A comparação realiza-se graças ao predicado de uma única oração. Portanto, nesse exemplo, sob o ponto de vista gramatical, não ocorre uma conexão comparativa, já que não ocorre a conexão de duas ou mais proposições.

Já no exemplo (49), encontram-se três comparações: (a) entre o golfinho e um peixe muito grande; (b) entre a forma do corpo do golfinho e a forma do corpo de um peixe (qualquer); (c) entre o nascimento e a amamentação dos filhotes do golfinho e o nascimento e a amamentação dos bebês.

Os recursos lingüí­sticos responsáveis por cada uma dessas comparações são, predominantemente, os seguintes: (a) o verbo “parecer-se” que expressa semelhança entre seres; (b) a expressão “a mesma forma do que”, que aqui expressa identidade entre um atributo existente entre dois seres; (c) o conetivo “como”, que aqui expressa igualdade entre fenômenos.

A primeira comparação do exemplo (49) é da mesma natureza gramatical do que a do exemplo (48), não ocorrendo conexão comparativa. Na segunda, há conexão de duas proposições através de um conetivo (descontí­nuo) de natureza comparativa. Ilustremos isso através da explicitação dos termos elí­pticos da comparação em foco: “O corpo do golfinho (“seu corpo”) tem a mesma  forma do que (tem) o corpo de um peixe.” Temos, pois, duas proposições conectadas entre si pela expressão conectora descontí­nua “mesmo(a)… do que”.

Na terceira comparação, ocorre igualmente conexão comparativa. Se nos orientarmos pelo mesmo procedimento que nos serviu para analisar a segunda comparação do exemplo (49), teremos: “(Seus filhotes) nascem e mamam como bebês (nascem e mamam).” No caso, o conetivo “como” (que indica comparação de igualdade) é o principal responsável pela comparação.

Este sucinto ensaio não comporta um trabalho exaustivo sobre a comparação. Por isso, delimito esse tema a reflexões que não ultrapassem a conexão comparativa entre proposições. Nesse tipo de conexão concorrem, pelo menos, três elementos distintos gramaticalmente: uma proposição (ou um grupo de proposições) que contenha o comparado; outra proposição (ou outro grupo de proposições) que contenha o comparante; e um conetivo ou expressão conectora que realiza a conexão. No exemplo (49), o comparado são os filhotes do golfinho; o comparante, os bebês; e o conetivo que realiza a conexão é “como”.

KOCH (1989, p. 67) explica que a comparação

expressa-se por meio de operadores (tanto, tal)… como (quanto), mais… (do) que, menos… (do) que, estabelecendo entre um termo comparante e um termo comparado, uma relação de inferioridade, superioridade ou igualdade.

O conteúdo do termo comparante e do termo comparado pode ser diversificado. Segundo GARCIA (1983, p. 83-4),

Comparam-se qualidades isoladas (negro como o carvão, rápido como a lebre, forte como um touro), comparam-se fatos, fenômenos, acontecimentos, ações (corre como a lebre, queima como fogo, estourou como uma bomba, agiu como um tolo) assim como se comparam situações mais complexas.

Portanto, o conteúdo da comparação não abrange só qualidades ou circunstí¢ncias, como poderia ser inferido dos graus do adjetivo e do advérbio. Fundamenta-se, também, em semelhanças observáveis em referentes pertencentes a outras categorias. Observemos isso, ao lado de outras caracterí­sticas da conexão comparativa, nos seguintes

EXEMPLOS:

(50) A boca do infeliz espumava (comparado) mais do que a de um cachorro louco (comparante).

(51) A lava do vulcão borbulhava tanto (comparado) quanto o melado num tacho quente sobre o fogo (comparante).

(52) A notí­cia da queda do Presidente explodiu (comparado) como uma bomba (comparante).

(53) Será que os jovens de hoje se esforçam (comparado) menos do que os de antigamente? (comparante)

No exemplo (50), temos uma conexão comparativa de superioridade entre fatos; no (51), uma conexão comparativa de igualdade entre fenômenos; no (52), outra conexão comparativa de igualdade entre acontecimentos; e no (53), uma conexão comparativa de inferioridade entre ações.

Antes de terminar as considerações sobre a conexão comparativa, convém lembrar que, além dos conetivos e expressões conectoras apresentados na citação de Koch (1989), a linguagem oral consagrou mais um: “que nem“.

EXEMPLO:

(54) O meu bife é duro que nem sola de sapato.

11. CONEXíƒO CONFORMATIVA

Quando falamos ou escrevemos, muitas vezes atribuí­mos a outrem aquilo que expressamos. Procedemos assim por duas razões: (a) não queremos assumir compromisso com aquilo que dizemos, fugindo de conseqüências jurí­dicas ou sociais decorrentes do conteúdo de nossas proposições; (b) queremos dar mais força persuasiva í quilo que afirmamos, valendo-nos do “argumento de autoridade”. Os exemplos que seguem ilustram esses dois usos da conexão conformativa:

(55) Conforme me contaram em Sucupira, o prefeito está tendo um caso com uma “beata” da paróquia local.

O autor do enunciado (55) não assume a fofoca, mas a atribui a um sujeito indeterminado (que também poderia ser determinado). Se for interpelado para provar o que disse, irá defender-se com evasivas semelhantes a esta: “Não estou afirmando que o prefeito tem um caso; apenas estou passando o que me contaram…” (Uma análise pragmática desse enunciado poderia centrar-se na própria reprodução da fofoca: Que interesse teria o autor ao passá-la adiante?)

(56) Conforme já dizia o Papa Leão XIII, os trabalhadores têm direito a um salário que lhes garanta uma vida digna.

O autor do enunciado (56) posiciona-se a favor de uma boa remuneração do trabalho assalariado. Entretanto, como pretende conseguir a adesão do enunciatário, reforça o seu argumento apoiando-o numa autoridade que, segundo a sua opinião, é respeitada pelo interlocutor.

Há, ainda, um outro uso da conexão conformativa: enquanto uma das proposições descreve um procedimento, um fenômeno, uma ação, um fato, a outra expressa a conformidade do conteúdo asseverado com alguma prescrição, previsão, ordem, etc.

EXEMPLOS:

(57) O paciente tomou os remédios conforme (segundo, consoante) o médico lhe havia determinado. (Conformidade com uma prescrição.)

(58) Conforme (segundo, consoante) o Instituto Antares havia previsto, choveu torrencialmente no dia 25 de dezembro. (Conformidade com uma previsão.)

(59) Os soldados investiram contra os bandidos, conforme lhes havia sido ordenado pelo comandante. (Conformidade com uma ordem.)

A conexão conformativa entre duas proposições, segundo me parece, esgota-se com os conetivos conforme, segundo, consoante e como. Isso não significa, porém, que uma expressão como “de acordo” não expresse conformidade. Entretanto, ela não se presta para conectar proposições (orações), uma vez que é seguida da preposição “com”. Seu uso exige que o termo por ela introduzido seja uma locução nominal: “De acordo com a lei, o réu foi condenado.”

12. CONEXíƒO DE CORREí‡íƒO/REDEFINIí‡íƒO

Mais na fala do que na escrita, corrigimos e redefinimos constantemente nossos atos de fala. Muitas vezes, quando iniciamos enunciados afirmando, negando, perguntando, pedindo ou recomendando algo, avaliamos criticamente o que estamos dizendo e constatamos problemas em nossa fala (ou escrita): que nos expressamos mal, que dizemos algo errado, que construí­mos proposições de difí­cil compreensão. Então, só nos resta redimensionar esses atos de fala por outros, a eles conectados por expressões tais como: isto é, ou seja, em outras palavras, ou melhor, mais exatamente, aliás, de fato, pelo contrário, etc.

A conexão corretiva/redefinidora, segundo KOCH (1989, p. 69), ocorre “quando, por meio de um segundo ato de fala, se corrige, suspende ou redefine o primeiro.” Nos exemplos abaixo, ocorrem, respectivamente, a conexão corretiva/redefinidora em seus papéis especí­ficos de corrigir, redefinir e suspender atos de fala.

EXEMPLOS:

(60) O Brasil foi descoberto por Pedro ílvares Cabral em 22 de abril de 1500; ou melhor, o Brasil foi invadido e conquistado pelos portugueses a partir de 22 de abril de 1500.

(61) Verbo é uma palavra que designa ações, estados e fenômenos; mais exatamente, verbo é uma das palavras (entre outras) que designa ações, estados e fenômenos.

(62) O Brasil é a oitava economia do mundo; aliás, o Brasil era a oitava economia do mundo.

Há casos em que a conexão corretiva/redefinidora pode ocorrer antes de concluí­do o ato de fala sobre o qual ela opera. Vejamos o exemplo (62) numa outra versão:

(62.1) O Brasil é a oitava, aliás, era a oitava economia do mundo.

Portanto, de acordo com o exemplo (62.1), a correção/redefinição pode elidir termos repetidos. Vejamos outro exemplo, emprestado de KOCH (1989, p. 69):

(63) “Irei í  sua festa. Isto é, se você me convidar.”

No exemplo (63), em decorrência da repetição, houve elipse de toda uma proposição no segundo ato de fala, o qual realizou a redefinição. Sem a elipse, o mesmo exemplo teria a seguinte versão:

(63.1) Irei í  sua festa. Isto é, irei í  sua festa se você me convidar.

13. EXPLICAí‡í•ES COMPLEMENTARES

Nos itens anteriores, tentei explicar doze conexões do tipo lógico ou discursivo. Diante de minha preocupação didática, omiti propositadamente algumas explicações necessárias. A primeira se refere í  forma dos elementos conectados, e a segunda, í  maleabilidade de sentido de certos conetivos.

Sobre a forma dos elementos conectados, cabe lembrar que certas conexões também podem ocorrer entre segmentos menores do que proposições; ou, até mesmo, entre tais segmentos (menores) de um lado, e proposições de outro. Em outras palavras, não há necessidade de que os elementos conectados tenham a forma de proposições. Um deles, por exemplo, pode ser uma locução ou uma palavra, cuja função sintática corresponda a de um adjunto adverbial, e cuja função semí¢ntica se traduza como circunstí¢ncia. E, ainda, ambos os elementos conectados podem ser termos de uma oração. Ilustremos isso através dos seguintes

EXEMPLOS:

(64) Muitas crianças brasileiras morrem (conseqüência) de fome (causa).

(65) Por meio de um palavrório rebuscado (meio), o vendedor conseguiu o seu intento: vender todos os seus livros (fim).

(66) Sem convite (condição), não irei í  festa (condicionado).

(67) A praça Saldanha Marinho fica entre o Cine Independência e o calçadão. (Conexão aditiva de termos).

(68) Conforme a tradição, os convidados jogaram arroz sobre os noivos. (Conexão conformativa).

Sobre a maleabilidade de sentido de certos conetivos, é preciso ter em conta que, em muitos casos, um mesmo instrumento de ligação pode assumir diferentes valores semí¢nticos. GARCIA (1983, p. 17), na nota de rodapé número 13, esclarece que

a partí­cula E parece imantar-se do significado dos membros da frase por ela interligados, insinuando assim idéias de distinção, discriminação, oposição ou contraste, inclusão, simultaneidade, realce e, ocasionalmente, outras.

Diante dessa constatação, verifiquemos que tipo de conexão a partí­cula “e” realiza nos exemplos abaixo, quase todos emprestados do autor recém mencionado:

(69) “Há estudantes e estudantes…” (Conexão aditiva, mas indicando discriminação e, mesmo, oposição.)

(70) “Ficou de vir e não veio.” (Conexão opositiva.)

(71) Fui até a Prefeitura e entrei pela porta dos fundos. (Conexão temporal por “tempo anterior + tempo posterior”).

(72) “í‰ um escritor clássico e (ao mesmo tempo) romí¢ntico.” (Conexão temporal por simultaneidade).

Diante das evidências desses exemplos, poderia alguém alegar que o conetivo “e” tem a função de curinga. Assim sendo, qualquer que fosse a relação entre as idéias, esse conetivo sempre poderia ser usado. Nada mais enganoso do que uma conclusão desse tipo. Não esqueçamos que a primeira função do “e” é a de adicionar argumentos e/ou termos idênticos (simétricos). Assim, numa leitura espontí¢nea, o “e” sempre será lido como conetivo aditivo. Só através de uma leitura mais atenta ou mais crí­tica se poderá reconhecer o seu valor contextual.

Por outro lado, se os conteúdos interligados não fizerem parte de um conhecimento aceito consensualmente tanto pelo autor quanto pelo leitor (conhecimento prévio), o uso do “e” polissêmico não será admissí­vel, pois dificultará ou impossibilitará a sua interpretação correta.

A descrição das virtualidades conectoras e ressalvas que fizemos em relação ao conetivo “e” atribuem-se também a outros conetivos ou expressões conectoras. Ilustremos isso através de mais alguns

EXEMPLOS:

(73) “(…) se para os americanos o tempo tem um grande valor, para os japoneses o espaço é mais importante.” (SERAFINI, 1989, p. 56).

(74) “Se no mundo inteiro os velhos merecem descanso, no Brasil eles estão recebendo castigos até fí­sicos.” (Artigo “Falta de respeito” de “Isto é, Senhor”, nº 1166, de 5 de fevereiro de 1992, p. 14)

(75) Enquanto no centro das cidades constroem-se edifí­cios com apartamentos cada vez mais sofisticados para uma pequena minoria, nas periferias empilham-se sucatas que imitam moradias para uma grande maioria.

Nos exemplos (73), (74) e (75), os conetivos “se” e “enquanto” não estabelecem, respectivamente, condicionalidade e temporalidade, mas ambos realizam conexões opositivas (pois contrastam idéias opostas).

(76) No tempo do Brasil-Império, somente os homens de posses elegiam os governantes locais, como mandava a lei.

(77) Como faltasse água, foi perfurado mais um poço artesiano na vila.

(78) O valente guerreiro conduziu garbosamente o seu cavalo como um herói da mitologia grega.

Nos exemplos (76), (77) e (78), o conetivo “como” realiza, respectivamente, as seguintes funções: conexão conformativa, conexão explictativa e conexão comparativa.

Dentro dos limites deste ensaio, não é possí­vel estender ainda mais o estudo da polissemia de certos conetivos. Também não é possí­vel explicitar todos os tipos de conexões lógicas ou discursivas, sobretudo porque as pesquisas lingüí­sticas ainda continuam nessa área.

Apesar dessas limitações, com base nas explanações feitas, podemos concluir que não basta identificar e classificar o conetivo ou a expressão conectora para “ler” uma conexão, mas é preciso verificar tanto o sentido das proposições interligadas quanto o valor semí¢ntico do conetivo. Mediante a sí­ntese desses dois aspectos, é possí­vel inferir o tipo de conexão que ocorre entre as partes do enunciado e/ou do texto. Só então ficará esclarecido o seu sentido.

Por outro lado, para estabelecer adequada e corretamente as conexões lógicas ou discursivas entre fatos, experiências, idéias – que queremos expressar em nossos textos (orais e escritos) – é preciso saber selecionar os elementos de ligação especí­ficos da respectiva conexão.

Antes de terminar, vai aqui um alerta de natureza didática: é difí­cil encontrar um texto representativo de muitos tipos de conexões. Num texto podem predominar certos tipos; já em outro texto, podem predominar outros tipos.

Indicação bibliográfica da versão original do presente ensaio:

KREUTZ, Roque Amadeu. Leitura de certas conexões frasais: alguns “pontos” de costura textual. In: Educação para crescer – Projeto Melhoria da Qualidade de Ensino – Português – 1º e 2º graus – Porto Alegre: SE/RS, 1992.

Fontes de pesquisa:

ABREU, Antônio Suárez . Curso de Redação. São Paulo: ítica, 1991.

GARCIA, Othon M. Comunicação em Prosa Moderna. 11 ed., Rio: Fundação Getúlio Vargas, 1983.

KOCH, Ingedore Villaça. A Coesão Textual. São Paulo: Contexto, 1989.

______________________. Dificuldades na Leitura/Produção de Textos: os conectores interfrásticos. In: Lingüí­stica Aplicada ao Ensino de Português. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.

SERAFINI, Maria Teresa. Como Escrever Textos. 3 ed., São Paulo: Globo, 1989. (Tradução: Maria Augusta Bastos de Mattos; adaptação: Ana Maria Marcondes Garcia.)

SIQUEIRA, João Hilton Sayeg de. O Texto: movimentos de leitura, táticas de produção, critérios de avaliação. São Paulo, Selinunte,1990.


[1] Não abordarei os recursos lexicais que podem ser utilizados para expressar as mesmas conexões lógico-semí¢nticas e discursivas.

[2] Discutir o uso estratégico desse tipo de raciocí­nio daria “pano para muita manga”…

[3] Sofisma: argumento enganador (falacioso), sem sustentação lógica ou cientí­fica.

Artigo incluído por em 12.setembro.2009 • 
Assunto: Enfoque crí­tico

1 Comentário

Nossa acolhida no Pará

Roque Amadeu Kreutz

26.08.98, 17h15min – Depois de um vôo em cí­rculo, o avião desceu suavemente através das nuvens brancas. Tive, então, minha primeira visão do Pará, contemplando, em primeiro plano, as extensas águas do rio Tapajós. Ele se apresentava grandioso, três vezes maior do que eu o imaginara. Poucos minutos depois, saí­amos do friozinho da aeronave para um choque térmico: o ar quente de Itaituba anunciava que tí­nhamos muita sobra de malhas e mangas em nossos corpos…

A aeromoça da “Nordeste” nos conduziu pela pista até a sala de desembarque, onde dois taxistas logo passaram a nos disputar para uma corrida. Poderí­amos pernoitar em Itaituba, mas achamos que nos acomodarí­amos melhor em Rurópolis. Certamente, lá encontrarí­amos um hotel no estilo sulista.

- Queremos pegar o ônibus das dezoito para Rurópolis. í‰ longe até a rodoviária?

- Esse ônibus sai de Meretituba, do outro lado do Tapajós. Posso levar vocês até o porto. De lá, terão que ir de voadeira até a rodoviária.

- E quanto vai nos custar isso?

- Quinze o táxi, e uns nove a voadeira.

Graças í  colaboração do taxista, conseguimos antecipadamente as passagens de ônibus no escritório da Transbrasiliana, na barranca do rio. Na travessia, a imensidão do Tapajós, com seus três km. de largura. O vento, os respingos de água, o balanço, a velocidade da frágil e pequena embarcação de alumí­nio confundiam nossas sensações, misturando medo, emoção, expectativa, cansaço da viagem. Pouco tempo depois, nossas malas estavam ao lado de um coletivo que parecia ter saí­do de uma sucata…

Antes de enfrentar os buracos e o pó da Transamazônica, achamos por bem comprar alguns comes e bebes aí­ no boteco, por eles chamado de rodoviária. Foi quando uma sobrecarga da bexiga exigiu tratamento preventivo. Pedi por um banheiro. Mandaram-me, então, descer por um degrau alto, que conduzia para uma espécie de trapiche que fazia de corredor lateral, sem teto nem corrimão, apesar da altura das palafitas. O piso de tábuas velhas estava cheio de frestas. Aqui e ali apareciam vestí­gios de excrementos humanos. Fui seguindo até um novo patamar, mais baixo, atrás da “rodoviária”. Lá encontrei uma espécie de latrina, fechada somente em três lados; o lado aberto era a entrada. No chão, uma fresta mais larga oferecia passagem para as minhas necessidades. Apresentava também um visual nada poético: uns metros abaixo, entre as palafitas por vezes roçadas pelas águas do Tapajós, um porco fuçava o chão molhado. Quase urinei em cima dele.

Por recomendação do motorista da Transbrasilliana, acomodamos nossas malas nos corredores e bagageiros internos do ônibus, isso por causa do pó dos 147 km. de Transamazônica que tí­nhamos pela frente. Na viagem, tivemos nosso primeiro conví­vio agradável com o gentil povo bronzeado do Pará. Assim, a precariedade das acomodações do coletivo se tornou menos penosa.

Impressionados ficamos com o desempenho do motorista no volante do ônibus: conseguia desviar, com muita habilidade, a infinidade de buracos e sulcos profundos existentes na estrada. Impressionou-nos também estabilidade do veí­culo, provido de excelente suspensão, apesar de sua precária aparência externa e interna.

Foram quase cinco horas até Rurópolis. Para não incomodar parentes (que, há muitos anos, não ví­amos) em hora tão avançada da noite, optamos por hospedagem em hotel. Depois de uma rápida e discreta olhada nas acomodações do tal hotel da rodoviária, frustraram-se nossas esperanças de encontrar um ambiente sulista. Enquanto a Valesca ficou cuidando das malas, fui tentar uma opção melhor no hotel do Incra, a poucos passos dali.

- Não oferecemos hospedagem a transeuntes. Além disso, todas as nossas acomodações estão ocupadas por professores que estão em curso e por funcionários de empresas que por aqui trabalham.

Um dos hóspedes, ao sentir o meu drama, arriscou:

- Certamente ninguém vai se opor se vocês quiserem “armar sua rede” aqui na varanda.

Agradeci a gentileza do rapaz, dizendo-lhe que não estava prevenido e nunca tinha dormido em rede.

De volta í  rodoviária, pedimos pouso. Tivemos que nos contentar com um quarto em que a única ventilação provinha de uma pequena janela basculante – tipo janela de banheiro – que dava para um corredor fechado, próximo a um banheiro que, por cúmulo do azar, não dispunha de água. Graças a um ventilador de teto, conseguimos suportar o calor e disfarçar os odores indesejáveis oriundos daquele lado. Até chegamos a cochilar por algumas horas.

Ao amanhecer, procuramos a Comercial Rose, para ter nosso primeiro contato com minha afilhada. Só me lembrava dela quando era pequenininha, branquinha, em idade pré-escolar. Nesses longos anos de separação, não passava Natal nem Páscoa sem que me lembrasse da pequena Rosí¢ngela que, escondida na selva amazônica, deveria estar esperando, no mí­nimo, uma caixa de bombons do padrinho.

Pouco tempo antes de nossa viagem, soube, por uma prima, que a Rose e seu filhinho, junto com a famí­lia de um dos irmãos dela, tinham visitado parentes na região; e que, na casa da prima (tia dela), minha afilhada falara que nem sabia mais quem eram seus padrinhos. Eram essas as lembranças que me dominavam quando subimos as escadas de acesso í  residência dela.

Quem nos recebeu foi uma gentil empregada, cujo porte e estatura denunciavam a sua origem nordestina. Mal tí­nhamos nos acomodado, dois lindos e espertos meninos se aproximaram de nós: Romuel, moreno, cinco anos aproximadamente, e Roger, uns dois aninhos, quase bebê, loiro e tez muito clara. Enquanto escutava a sua fala cantada e admirava a sua espontaneidade, cheguei a acomodá-los no meu colo, acariciando-os como se fossem meus netinhos.

Essa cena foi interrompida pela mãe dos garotos, que acabara sair do banho. Como a Rose era diferente do que eu a imaginara: mulher alta, encorpada, longos cabelos loiros ondulados (ainda molhados) sobre os ombros, rosto bem formado com um largo sorriso nos lábios, deixando entrever duas fileiras de dentes brancos, simetricamente distribuí­dos. Depois de um abraço muito acolhedor, Rose nos contou que chegara a saber, por meio de parentes, a data aproximada de nossa chegada. Com sua recepção afetuosa, criou-se logo um clima familiar, deixando-nos bem í  vontade no apartamento, cujas dependências nos ofereceu para alojamento. Sem demora, mostrou-nos o seu mercado, situado no primeiro piso. Conduziu-nos, em seguida, até um segundo mercado, bem maior do que o seu, pertencente a seu irmão Carlos.

Já na entrada, diante uma caixa registradora, chegamos a conhecer Marisa, uma simpática e bela garota que se apresentou como esposa do Carlos. Atrás de um balcão, bem nos fundos, estava ele, o dono do mercado. A lembrança que logo me ocorreu se confundia com a de seus irmãos Jorge e Paulo. Havia conhecido os três filhos do Leo e da Iria na década de setenta. Lembro-me bem como eram irrequietos. Sem paciência para ficarem jogando conversa fora ou para se divertirem com joguinhos de mesa, sempre estavam dispostos para aprontar alguma, seja correndo atrás de terneiros no potreiro, seja montando em animais e dirigindo (ou quebrando) carrinhos de madeira em desabalada corrida cerro abaixo. í‰ certo que isso í s vezes lhes custava um dedão destroncado, sem falar nas trágicas perdas de unhas em algum dos pés. Agora, estava um desses moleques, já homem feito, recebendo-nos com um largo sorriso nos lábios. Transformara-se num bem sucedido negociante e agropecuarista.

Depois de um papo agradável e cheio de novidades, Carlos propôs festejarmos o encontro com um pernil de carneiro em seu apartamento (segundo piso do mercado), na hora do almoço. Como ainda não sabí­amos dos planos da Marlene (irmã da Valesca) e do Nélson (cunhado), para onde pretendí­amos ir naquele dia, recusamos inicialmente o convite. (Inicialmente, porque mais tarde irí­amos aceitar a oferta do Carlos. E que almoço ele e sua esposa nos ofereceram! Nunca tinha comido carne de carneiro tão macia e saborosa!)

Feito esse primeiro contato com o Carlos, a nossa “guia” Rose nos levou até um terceiro estabelecimento comercial, pertencente a seu marido Jemuel, um maranhense bronzeado, de estatura mediana. Esse nordestino parecia um xérox ampliado de seu filho Romuel.

O marido da Rose foi muito habilidoso para quebrar o gelo. Em poucos momentos, conseguiu vencer a distí¢ncia entre as culturas sulista e nortista, integrando-nos no seu cí­rculo sociocultural e familiar. Graças í  pronta oferta de sua Saveiro, a Rose pôde nos mostrar a cidade de Rurópolis e nos apresentar a alguns de seus irmãos.

O nosso primeiro giro terminou na farmácia dos pais do Jemuel. Assim como os demais, também eles souberam nos receber com espí­rito fraterno e carinhoso.

Ao voltarmos para o mercado do Carlos, uma mulher muito sorridente, com ares de pessoa da famí­lia, dirigiu-se a Valesca, saudando-a calorosamente, ao mesmo tempo em que ambas se abraçavam:

- Meu! Que bom abraçar novamente a madrinha!

Toda surpresa, a Valesca estava diante de uma mulher encorpada e amadurecida, usando óculos em que sobressaí­am as grossas lentes.

- Leoni, que bom te abraçar novamente! Logo nem te reconheci.

Depois de novo abraço, temperado com muitos sorrisos, chegou a minha vez. Afinal, por tabela, não deixava de ser o padrinho da Leoni.

Mal começara a conversa, a Siloca, irmã mais velha da Valesca, apareceu na rua e aproximou-se de nós. Foi então que, entre as duas irmãs, as emoções falaram mais alto do que as palavras: através de suas vozes entrecortadas fluí­am expressões de afeto, regadas por muitas lágrimas. Enquanto isso, a esposa do Carlos foi buscar cadeiras para nos acomodarmos confortavelmente na calçada. A Siloca então nos falou de suas atribulações dos últimos anos, tudo por causa de uma prolongada doença que levou seu marido Herberto í  morte.

Pouco depois, mais um perfil conhecido: esbelta, estatura mediana, cabelo escuro e bem aparado, ainda com aparência de menina, vinha a irmã caçula da Valesca ao nosso encontro. Logo tive a impressão de que o tempo tinha se esquecido dessa mulher. Os abraços, os beijos e os tapinhas nas costas entre as duas irmãs eram acompanhados, desta vez, por sorrisos e expressões de alegria. Não era para menos, já que a famí­lia da Marlene, graças ao duro trabalho de vários anos, encontrava-se numa situação de bem estar geral.

O encontro com o cunhado Nélson, que, até então, pouco conhecí­amos, foi menos expansivo. Apesar de moderado na fala, é ele um homem corajoso, trabalhador incansável, um exemplo de empreendedor rural, que, há mais de duas décadas atrás, soube conquistar seu espaço na floresta amazônica.

Ainda pela manhã, muitas pessoas de Rurópolis e arredores, entre elas o Rudi Klein, o Eugênio Rech e outros conhecidos vieram nos saudar, dando-nos as boas vindas e convidando-nos para visitá-las. (Como não tomei nota, peço-lhes perdão pela minha falta de memória.)

Ao saber de nossa chegada, já por volta do meio-dia, também o Lino Frí¶hlich largou seu trabalho na serraria para vir pressuroso ao nosso encontro. Sorridente como sempre, embora menos jovem do que há vinte anos atrás, quando o vira pela última vez, estava í  nossa frente um dos pioneiros de Rurópolis. Abraçamo-nos com efusivas manifestações de alegria pelo reencontro de dois velhos amigos.

í€ tarde, acomodamo-nos todos na camioneta do Nélson. Depois de dezessete quilômetros de estrada poerenta, quase tudo pela Transamazônica, nos alojamos na casa da Marlene e do Nélson, que acabou se transformando em ponto de chegada e saí­da para nossos passeios. Raras vezes nos hospedávamos em casa de outros parentes, graças í  gentileza do Nélson, que nos levava para os mais diferentes lugares com a sua camioneta.

O que mais nos impressionou nesse primeiro contato com Rurópolis e sua gente foi o calor humano com que todos nos receberam. Mesmo pessoas que antes nunca tí­nhamos visto, ofereciam-se espontaneamente para nos acolher e hospedar em suas casas.

Artigo incluído por em 30.agosto.2009 • 
Assunto: Pessoal

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Cordialidade dissimulada

R. Amadeu Kreutz

Ele era um bom interlocutor. Em tempos de censura, era tão bom conversar com alguém que comungasse com as minhas idéias, sem perigo de ser denunciado! Para a minha alma, sedenta por justiça em tempos de perseguição polí­tica, nossas conversas eram um bálsamo. Cada oportunidade que se oferecia, lá estava eu na secretaria da paróquia para puxar um papo descontraí­do com ele, í s vezes partilhado pelo padre, muito amigo meu.

Era no tempo em que eu precisava construir convicções religiosas renovadas, a fim de substituir crenças tradicionais que tinham sido demolidas na faculdade. Minhas leituras preferidas eram obras de Leonardo Boff, Teilhard de Chardin, João Batista Libí¢nio SJ, além de outros, recomendadas por uma amiga muito consciente. Com isso, estava descobrindo novos sentidos para a vida, afugentando o perigo de ficar desamparado psicológica e espiritualmente. Graças í s recomendações da amiga, não perdi a fé e acabei me identificando com a ala progressista da Igreja Católica, redimensionando conhecimentos que tinha assimilado na faculdade.

Um dia, meu interlocutor falou, empolgado, que estava fazendo um curso de detetive por correspondência. Esse seu interesse me causou certo espanto, ainda mais por conhecer suas limitações fí­sicas: magro, baixo e corcunda, uma má-formação congênita na coluna cervical. Seus ideais explí­citos pareciam indicar para outra direção, tanto que ele me estimulava para conversas de contestação polí­tica do regime militar. Pouco tempo depois, ele mudou de emprego, indo trabalhar na secretaria do hospital. Talvez por falta de ambiente propí­cio, talvez por alguma nuvem de desconfiança, nossas conversas minguaram e acabaram se extinguindo.

Fatos estranhos passaram a acontecer pouco tempo depois. Em cidade pequena, quase todo o mundo se conhece. Entretanto, nos momentos mais inesperados, começaram a circular pessoas totalmente desconhecidas na rua em frente a nossa casa, ora de a pé, ora de moto. Mesmo os vizinhos e colegas não conheciam esses intrusos. Certo dia, também recebi a visita do comandante da Brigada Militar na escola. Tinha ele recebido ordem de coletar informações do “Diretor”, cargo que eu então exercia. Foi uma longa e meticulosa entrevista.

Paralelamente a isso, alguns amigos me informaram que o prefeito local (nomeado) sabia que abordava criticamente os conteúdos disciplinares nas minhas aulas; sabia até que os textos do periódico “Mundo Jovem” eram interpretados nas aulas de português; que propunha problemas suspeitos aos alunos em minhas aulas de Técnicas Comerciais. Só então percebi claramente que estava sendo vigiado por pessoas ou órgãos a serviço do governo militar. Disseram-me que o pai de uma aluna minha, a mando do “coronel” local, tinha encarregado a filha de lhe passar tudo o que acontecia na sala de aula… E o pior era que esse pai, nos tempos de adolescência, era um colega meu de seminário.

O clí­max foi no dia da inauguração do novo prédio da Delegacia de Polí­cia. Tratava-se de um investimento significativo para uma cidade pequena, um sinal de “franco progresso” para o lugar. Como Diretor da Escola, também fui convidado. Feito todo o ritual, com a presença e a exaltação das mais “altas autoridades”, chegou o momento da visita í s dependências. Fui o último a sair da cela que deveria servir de presí­dio provisório. Inesperadamente, ouvi a voz irônica de uma das autoridades presentes, que, na minha frente, segurava a porta da cela e ameaçava fechá-la sobre mim: “Um dia, ainda quero trancar você nesta cela.” Sem saber o que lhe responder, apenas dirigi um olhar sério para o dito cujo e saí­ em silêncio.

O autor dessa ameaça chamava-se Pedro Selig, prestigiada autoridade policial nas altas esferas governamentais, que tinha vindo de Porto Alegre para “abrilhantar o grande evento”. Embora já conhecesse, pela imprensa, sua fama de repressor polí­tico, tive o desprazer de encará-lo face-a-face naquele dia fatí­dico. Houve alguém que a ele me apresentara, sem o meu consentimento e conhecimento… Sabendo da fama desse policial, curti minha indignação por algum tempo, até conseguir conviver mais tranquilamente com essa insolente brincadeira ou ameaça policial.

Mesmo vigiado, continuei a importunar repressores locais por um bom perí­odo. Nos encontros e eventos educativos, procurava selecionar, propositadamente, cantos que desafiavam o regime: “A verdade vos libertarᔝ; “América Latina” e outros mais. í‰ claro que isso incomodava… Por isso, quando fui classificado para fazer o Mestrado em Educação na UFSM, consegui minha transferência com bastante facilidade e rapidez. Era um alí­vio local para os tempos de abertura “lenta, gradual e segura”.

Artigo incluído por em 30.agosto.2009 • 
Assunto: Pessoal

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